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Madalena

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Tinha todos os defeitos. Insubordinada, voluntariosa, metida. Tinha aquela teima rudimentar. Gostava demais de rir, e quando podia, falava muito, nem que fosse com as paredes. Não conhecia medida de nada - pensamento, sentimento, tudo ia longe, tudo parecia a eterna felicidade ou um contínuo sofrimento. Madalena era assim, rainha de si, sua própria bomba-relógio. Passava na rua um dia, e um idoso cabisbaixo pediu uma esmola. Solícita, Madalena deu todos os seus trocados. Ao agradece-la, o homem disse: "Vamos fazer uma aposta?" A pergunta pegou Madalena de surpresa. "Como assim?" "Uma aposta. E antes que Madalena respondesse, continuou: "E um aviso: nem todo caminho é curto." "Como assim?" Madalena perguntou. "Voce não sabe aonde quero chegar" "Nem você", e o velho abriu um sorriso sem dentes. "Paciência, moça. Olhe para o lado, respire. Voce passa pela vida como um furacão. E quando olha para trás...

DIANA

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Diana tinha esse jeito de olhar que era mais uma paralisia. Sentava num canto que não se via, e entrava num buraco negro, um lugar que só ela ia. Dona Mirna não entendia. Uma vida inteira separava mãe e filha. Uma parecia não saber absolutamente nada da outra. Parecia. Porque Diana sempre sabia. Parecia não olhar, mas sempre via. Tinha uma enorme presença, e uma perspicácia atroz. Olhos de lince, magnetizava, invadia. Diana, ferina e triste. Sempre arredia. Dona Mirna desistira dela faz tempo. Desde pequena essa insistência, essa posse incondicional da própria vida. Essa independência. Parecia um radar sintonizado além do mundo. Aquela menina de olhos arregalados e cabelo em riste, sempre descalça, descabida. Só a envergonhava com os vizinhos. Mas Diana era o avesso, não tinha jeito nem trejeito. Só aquele olhar. Naquele tempo, parecia um bicho numa jaula. Agora ia na jugular. A criança desenxabida crescera imponente e furtiva. Alta, corpulenta, nariz arrebitado, boca sedenta. De u...

CARMEM

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Ela ficou ali, sentada na calçada, por algum tempo.  Estava descalça, descabelada, desenxabida, sem rumo. Não podia acreditar no que tinha acontecido. Dez anos de casamento. Dez anos! E ela dividira a cama com um estranho, todos aqueles dias. A idéia do jantar foi de uma amiga do trabalho. Velas e rosas, queijos, vinhos, boa comida. Um vestido sexy. Perfume. “Essas coisas que a gente faz quando quer chamar atenção de um homem”, ela dizia. A atenção dele já não era a mesma há muito tempo. Mas dez anos…é muito tempo, ela pensava. Provavelmente ela também não dava a mesma atenção a ele. Não era justo olhar só para o próprio umbigo…não é? Ela não sabia, mas o jantar ela podia fazer. Não custava. Então ela chegou em casa cedo, para preparar tudo. Cenário, figurino, cardápio, tudo. Era excitante ter um plano, uma conquista. Tantas horas no carro, no banheiro, no computador, em frente a TV…era bom não querer saber o que ia acontecer na novela, ou se o projeto ia ficar pronto como o ch...

CAMILA

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Ela apareceu na cozinha, pronta para o abate. Ele deu tres pulos pra trás. O que era aquilo? Onde estava a menina que conhecia desde o primário, que achava um absurdo mini-saia e unha feita? Foi a primeira coisa que notou, unhas vermelhas como sangue de carne crua. Viu também os cabelos que ela nunca soltava caídos até os ombros; O batom vermelho em riste, como as unhas. E depois, bem depois, notou o vestido. Parecia inteiramente tingido de vinho tinto. Um salto de luz diante da pele clara. E ainda tinha aqueles olhos agora mais azuis que a noite, olhando-o fixamente. Por que? **** Parecia uma maré alta. Ou uma febre. Não sabia bem. Quando olhou nos seus olhos, percebeu que ele também não sabia. Não importava. Precisava, por um momento, saber como era. Ser olhada. Desejada. Ou pelo menos, ser capaz de surpreender. Foram tres anos de uma vida que ela pensava que queria. Camila tinha essa sensação de que tudo passou depressa, sem nenhum sentido, sem que ela pudesse captar o seg...

MARIANA

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Ela tinha aquela idade em que todos os dias são muito quentes e nenhuma hora passa de verdade. A pele sempre fresca, a boca úmida, sempre entreaberta; os olhos pretos cor de fumaça, com um apetite que não sarava nunca. Ainda usava saias curtas, que eram quase uma extensão das fraldas que eram só metáfora, mas ainda a perseguiam. A flor da idade. Nada nunca é simples. Andava meio devagar, como que um segundo atrás do mundo. Prestava atenção em tudo. Tinha miçangas verdes nos cabelos e as tranças por vezes a incomodavam; mexia nervosamente as mãos, na cara, no nariz, abaixava a saia, para logo depois a levantar, até quase no meio das pernas. Era assim, ansiosa e distraída. E atenta, mas só nas pequenas coisas. Aquelas coisas que as meninas de treze anos acham importante: porque os pelos, os seios, a blusa molhada de suor insistente, e esse calor que vinha de dentro? E porque fulaninha beija de boca aberta? E a cicraninha usa sutiã tamanho M!? E porque os verbos são...

LUCIA

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Quando eu tinha doze anos, meu pai me deixou andar de ônibus sozinha. Era uma distância pequena, mas a liberdade era grande. A maior que eu já tinha conseguido em casa. Nunca tinha me sentido tão dona de mim até então. Aos doze, independência era tudo e eu pensava – porque, na boa, eu não era mais criança, né? Eu até já falava palavrão… desde os dez, na verdade. Mas nunca dentro de casa. Papai achava feio o baixo calão em boca de menina. Eu nunca dei a mínima, minhas amigas todas falavam. E eu nunca fui de levar desaforo para casa – assim, se você leva um coice, não vai mandar educadamente a pessoa lamber sabão. Eu, pelo menos, sempre preferi, com toda a educação, mandar a pessoa à merda…sabe, com uma enorme exclamação no final. É mais poderoso, é um recado que impõe respeito. Mas eu falava do ônibus. Eu ia começar num curso de inglês às segundas e quartas. Então, quando chegou o domingo, nem dormi direito. Até escolhi a roupa que ia usar no dia seguinte, coisa que nunca faço. Nunca ...

CLARISSA

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Teresa a sonhar - Balthus (1938) Tinha aqueles olhos de quem nunca sabia de nada. Olhos sem efeito. Tornavam cada manhã morna em noites de gelo. Nunca soube o que fazer com aqueles olhos. Clarissa tinha aquele jeito indiferente de que está nesta vida de passagem. Mas quando dormia...ah, quanta vida! Quantos sonhos de oceanos e miragens! Clarissa passava pelos dias como as penas do travesseiro. Era só quando dormia, que vivia. Uma vida sem aquela família que não pedira. Sem filhos pequenos. Sem um marido que não a satisfazia, sob nenhum aspecto. Paralisia. Torpor. Fracasso. Palavras que descreviam tão profundamente a vida de Clarissa que às vezes ela as sentia escapando da boca. Mas calava-se. Lembrava sempre da sua mãe dizendo: “engravidou, tem que casar!”...ou então: “casou, tem que cuidar da casa!”. Clarissa sentia que não podia passar a vida sem ter que fazer alguma coisa que não queria. Não queria ter engravidado, nem casado, nem virado dona daquela casa horrorosa. Queria um m...

PENÉLOPE

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QUANDO ela acordou, já estava tudo acabado. Ainda havia flores sobre a cama, no chão, no armário. Ainda tinha vinho sobre o criado-mudo. Tudo ainda estava tão completamente quieto. Um perfeito ocaso de uma noite de sexo. Perfeitamente insuportável. Ele ainda estava perto demais. Precisava se controlar. Tinha certeza de que era um bom homem, talvez o melhor que ela pudesse encontrar, ou merecer. Mas o vazio era imenso. Era um enorme estomago, contorcido em úlceras e faminto. No meio de noites como essa, ele sangrava como nunca. E no início das manhãs, continuava sangrando, como sempre. Era triste, mas tinha fome de tudo. Tinha esse jeito torto de gostar, e gostava muito, mas não sabia bem do que. Da vida, talvez. De beber demais, comer demais, de sair correndo para o meio da rua, e sentir a chuva e sol no rosto. Mas por mais que tentasse, não conseguia gostar dele. Era a calmaria. A rotina. O embaraço. Era o passar de dias que se arrastavam, e a noite talvez uma surpresinha, uma ta...

ROSA

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Rosa era esperta. Gostava de andar de bicicleta, de pular corda. Gostava de clipes, apliques, repiques. Gostava de rir, de dançar, de balançar os cabelos e pintar os lábios de vermelho. E gostava muito, mas muito mesmo, de meninos. As professoras diziam que ela tinha cabelo nas ventas – seja lá o que fosse isso. Mais uma dessas coisas que só pais, professores, e avós dizem. Não tinha muita paciencia com eles. Mas tinha mesmo muita energia. Que que tem isso? Porque tinha que se cercar de bonecos, chocolates e figurinhas, fazer furos no meio da laranja, testar as mãos nas amiguinhas, se podia simplesmente escolher um menino? Nunca entendeu o talento das pessoas de complicar tanto as coisas mais simples. E tinha uma raiva danada, muito grande mesmo, dessa historia de que tem hora certa pra tudo. Achava isso uma enorme, grandississima palhaçada! Afinal, ela já tinha catorze anos! Que diabo! Porque podia aprender a ler, varrer a casa, cozinhar, andar de salto, e não podia beijar, abr...

ISABEL

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Estudo de Mulher . Rodolpho Amoedo, 1884. Em dias comuns, ela era triste, como os pés sem sapatos. Seus olhos escureciam e ela torcia as mãos frias enquanto olhava para lugar nenhum. Escorregava pelas paredes claras, pela mobilia cara, pela prataria. Girava pelo assoalho, os tapetes e as almofadas, até a porta da entrada que, naquele momento, não tinha intenção de abrir. Pela janela, os passos, os carros, as buzinas. A violencia sentida do tempo. Isabel tinha medo, muito medo de morrer cedo. Tinha essa urgência firme, tão assustadora quanto a morte. Esperava sempre os raios e as trovoadas - queria sempre o movimento. Em dias comuns, tudo era muito simples. Tudo era rotina. O trabalho, o relógio, os vestidos. As manhãs, sempre plácidas, sempre cheia de certezas, tinham sempre muita luz. Isabel não gostava muito das manhãs. Passava o dia inteiro esperando a noite cair. Era uma fã ardorosa de estrelas. São formas de luz muito discretas, tão pequenas e distantes e...

Esperança, jogue suas tranças!!!

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"Mulher lendo" - Bottero Esperança tinha os olhos verdes e longas tranças nos cabelos. Era como a princesa na torre, com um eterno sorriso, a voz doce de cantada, olhando sempre o horizonte e esperando, esperando... Andava sempre trocando as pernas, como que tropeçando no próprio peso. Ah, sim, Esperança tinha um peso enorme para carregar. Era muito alta e forte e, por isso mesmo, desengonçada. Era sempre a última a chegar a qualquer lugar. Estava a Esperança um dia consigo mesma, embaixo da frondosa macieira no jardim. Ela pensava que há muito ninguém a procurava. Pensava e voava com o pensamento, junto com os pássaros. Não sentia o tempo, nem a solidão. Esperança tinha aprendido que meninas grandes, pesadas e atrapalhadas ficavam muito tempo sem ninguém em volta. Não se lembravam delas até que precisassem muito, ou até que não tivessem mais nada em que se apoiar. Mas Esperança era grande por fora e por dentro. Tinha sempre lugar para as outras pessoas. Era sempre aleg...

ALICE

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Sempre teve um jeito triste de olhar a vida. Um jeito de despedida. Quando era criança, jogava pedras nos passarinhos, arrancava o mato das calçadas. Detestava bonecas, enforcava todas com a corda de pular. A mãe dizia que ela tinha uma coisa. Nunca disse o que era. Uma doença, uma quimera. Um castigo. A mãe não prestava pra muita coisa então nunca se importou muito. O pai vivia rindo. Bebia, jogava perdia, ganhava...e ria, quase todo o tempo. Daquela casa torta, só gostava dos espelhos. Gostava de treinar seus olhares: felicidade, pena, tristeza, paixão, alegria. Ás vezes, imaginava-se entrando dentro deles. Seria mais feliz consigo mesma? Não tinha jeito. Só aquele que era o fim de tudo. A primeira vez era muito jovem. Não se lembra bem. Era um homem velho, infeliz, e ela disse que precisava do dinheiro. Mas ele nunca tinha tido uma mulher tão bonita antes, então...ficou por isso mesmo. Ela lhe fizera um favor, e com certeza ele morreu feliz. Para onde ele ia, não ia precisar de m...