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LUCIA

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Quando eu tinha doze anos, meu pai me deixou andar de ônibus sozinha. Era uma distância pequena, mas a liberdade era grande. A maior que eu já tinha conseguido em casa. Nunca tinha me sentido tão dona de mim até então. Aos doze, independência era tudo e eu pensava – porque, na boa, eu não era mais criança, né? Eu até já falava palavrão… desde os dez, na verdade. Mas nunca dentro de casa. Papai achava feio o baixo calão em boca de menina. Eu nunca dei a mínima, minhas amigas todas falavam. E eu nunca fui de levar desaforo para casa – assim, se você leva um coice, não vai mandar educadamente a pessoa lamber sabão. Eu, pelo menos, sempre preferi, com toda a educação, mandar a pessoa à merda…sabe, com uma enorme exclamação no final. É mais poderoso, é um recado que impõe respeito. Mas eu falava do ônibus. Eu ia começar num curso de inglês às segundas e quartas. Então, quando chegou o domingo, nem dormi direito. Até escolhi a roupa que ia usar no dia seguinte, coisa que nunca faço. Nunca ...

AS PECADORAS DE NELSON RODRIGUES (II)

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VESTIDO DE NOIVA – ALAÍDE, LUCIA, MME. CLESSI Parecia ser a obsessão de Nelson Rodrigues procurar o exagero, a monstruosidade da natureza humana nas atitudes mais corriqueiras. O lado obscuro da trivialidade. Ele mesmo disse que consagrar o óbvio foi o grande legado da sua obra. E de fato, com o obvio ele expõe também a mesquinhez, o grotesco, o falso, e – porque não? – o atípico. E esta miscelanea de possibilidades é muito latente, sobretudo na construção rodriguiana dos personagens femininos. Afinal, há algo mais clichê do que duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem? Ou ainda, mais folhetinesco do que duas irmãs que se odeiam, porque amam o mesmo homem? Este é o argumento inicial de Vestido de Noiva (1943), segunda incursão de Nelson Rodrigues na dramaturgia e considerada, até hoje, o ponto zero do teatro moderno brasileiro. Vestido de Noiva é o Hamlet  de Nelson Rodrigues: em tragicidade, em complexidade, em favoritismo. É de longe, a peça preferida da crítica. E é, bas...