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Mostrando postagens de agosto, 2010

As pecadoras de Nelson Rodrigues (episódio final) - "Senhora dos Afogados" e a tragédia do desejo feminino

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Em  Medéia , de Eurípedes (486 - 406 a.C),  o desejo por esclusividade dá vazão a um instinto sombrio, uma primitividade aliada a um estado semi-divino, com um conhecimento profundo da magia de Hécate (deusa das feiticeiras). O resultado desse estado animalesco é a destruição de qualquer promessa de continuidade. Medéia, para quem não se lembra, é aquela que mata os dois filhos para se vingar do marido que a traíra. Eurípedes personifica a tragédia do infanticídio na pele de uma mulher atormentada, ciumenta, dissimulada, manipuladora, e violenta. A monstruosidade do mito de Medéia paira, de certa maneira, em Senhora dos Afogados , tragédia escrita por Nelson Rodrigues em 1947 e censurada pela ditadura um ano depois. Nessa peça. além de distorcer novamente os alicerces da família, Nelson Rodrigues cria para o público um monstro do desejo exarcebado, na forma de uma mulher aparentemente fria, recatada e sóbria, que traz uma profunda e incetu...

O que voce acha disso? (já dizia o autor maldito...)

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  A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. (...)E, no teatro, que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los. Nelson Rodrigyes (1912-1980)

SOLITARY BLUES

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Estou aqui Com meus primeiros passos Prestes a me enganar Achando que você Pode estar em algum lugar remendando sua asa quebrada Como alma desenganada que não pode voar Me deixando assim No meio dos cacos Só com a minha coragem Minha malandragem Meu dom de sonhar Com você Com um minuto de paz Que não volta atrás Com a dor e o riso Com um aviso antes de ir E ja´nem me serve fugir já nem tento ignorar Não adianta chorar Só me resta mentir.

HIPNOSIS

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Abafo entre os dentes a memória dos teus beijos, da minha pele entre os teus dedos arranhando o chão, as paredes… Afasto do pensamento teu desejo lívido, insatisfeito sempre o teu gozo, sempre o teu jeito pelo inferno do corpo adentro… Encerro meu movimento nos teus lugares, no teu tempo… nos teus olhares me reivento nao te procuro, mas te entendo é um fogo puro a que me rendo…

CAMILA

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Ela apareceu na cozinha, pronta para o abate. Ele deu tres pulos pra trás. O que era aquilo? Onde estava a menina que conhecia desde o primário, que achava um absurdo mini-saia e unha feita? Foi a primeira coisa que notou, unhas vermelhas como sangue de carne crua. Viu também os cabelos que ela nunca soltava caídos até os ombros; O batom vermelho em riste, como as unhas. E depois, bem depois, notou o vestido. Parecia inteiramente tingido de vinho tinto. Um salto de luz diante da pele clara. E ainda tinha aqueles olhos agora mais azuis que a noite, olhando-o fixamente. Por que? **** Parecia uma maré alta. Ou uma febre. Não sabia bem. Quando olhou nos seus olhos, percebeu que ele também não sabia. Não importava. Precisava, por um momento, saber como era. Ser olhada. Desejada. Ou pelo menos, ser capaz de surpreender. Foram tres anos de uma vida que ela pensava que queria. Camila tinha essa sensação de que tudo passou depressa, sem nenhum sentido, sem que ela pudesse captar o seg...

DISCLAIMER

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O vídeo mostrado no artigo sobre Bonitinha, mas Ordinária vem da última versão da peça para o cinema, filmada em 2008 e que estava com estréia prevista para junho de 2009, mas um ano depois ainda não chegou aos cinemas. O filme, cujo banner voce vê acima, foi dirigido por Moacyr Góes e traz grande elenco, além da estreia da atriz Leticia Colin (que tinha apenas 18 anos na época) no papel da ardilosa Maria Cecília.  Os motivos pelos quais ainda não estreou são mistério para mim. Mas pelo aperitivo do post abaixo, já sabemos que o roteiro veio fortemente baseado no original de Rodrigues, mas adaptado para realidade do sec.XXI - afinal, Nelson Rodrigues nunca foi a um baile funk. Mas essa talvez seja a única licença poética do filme. Vale a pena conferir, portanto, se algum dia o filme chegar aos cinemas. Nelson Rodrigues, 30 anos após sua morte, ainda expõe ao público suas próprias perversões e ainda provoca reações extremas. Suas mulheres ainda pecam mais que todas as ...

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA - A perversão de Maria Cecília

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Maria Cecília, a primeira vista, parece uma patricinha. A menina que ainda não conhece a vida. A filhinha do papai - “tão pura que nem alma tem”, como diria o proprio. Timida, recatada, inocente. Inocente demais. Não podemos esquecer que Otto Lara Rezende, ou Bonitinha mas Ordinária é uma peça de Nelson Rodrigues. E Maria Cecília, mais uma da galeria de personagens polêmicos femininos do universo rodriguiano. Assim, nada é o que parece. E Maria Cecília, na verdade, não é nada, mais nada mesmo, do que aparenta ser. Filha de um rico empresario, Maria Cecilia tem cara de anjo e jeito de menina. Torna-se noiva por imposição do pai, depois de ser atacada por cinco crioulos num lugar ermo. O noivo, Edgard, é o personagem cujo pathos é o principal eixo da trama. Um homem cuja moral está em constante desiquilibrio, dividido entre a ambição, o desejo e os proprios valores. Werneck, o pai da moça, é o grande corruptor – compra casamentos, virgindades e violações de toda especie – inclusive se...
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  Encerra-se amanhã a 8a. Edição da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP 2010. Excelente programa para comemorar o Dia dos Pais. Lazer e Cultura num dos recantos mais bonitos do Rio de Janeiro. Fica a dica. E Feliz Dia dos Pais para todo mundo! Se voce quiser saber mais sobre a FLIP 2010, clique aqui .

HINO A MULHER EMANCIPADA...

Essa música sozinha dava um artigo, expondo um certo tipo de olhar feminino sobre as relações amorosas. A mulher deste clip é independente, resolvida a não se envolver profundamente. E é claro, sexualmente promiscua. Há dois tipos de discursos na musica - um em primeira pessoa, onde a mulher tenta repetidamente dispensar o amante, e outra em terceira pessoa, como um narrador onisciente que fornece a sua visão da personalidade da heroína. Assim, temos uma mulher que assume o seu desejo e o impõe. Escancaradamente inspirada em Madonna, Lady Gaga se supera em se transformar num produto pop. Andy Warhol teria orgulho dela. Mas a musica vale uma análise. Talvez eu escreva uma qualquer dia desses... ( Eu sei que nós somos jovens E que você pode me amar Mas eu não posso mais ficar Assim com você, Alejandro )   Ela tem as duas mãos no bolso E ela não vai olhar para voce Ela esconde amor de verdade nos bolsos Ela tem uma luz em volta dos dedos e de você Voce sabe q...

MARIANA

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Ela tinha aquela idade em que todos os dias são muito quentes e nenhuma hora passa de verdade. A pele sempre fresca, a boca úmida, sempre entreaberta; os olhos pretos cor de fumaça, com um apetite que não sarava nunca. Ainda usava saias curtas, que eram quase uma extensão das fraldas que eram só metáfora, mas ainda a perseguiam. A flor da idade. Nada nunca é simples. Andava meio devagar, como que um segundo atrás do mundo. Prestava atenção em tudo. Tinha miçangas verdes nos cabelos e as tranças por vezes a incomodavam; mexia nervosamente as mãos, na cara, no nariz, abaixava a saia, para logo depois a levantar, até quase no meio das pernas. Era assim, ansiosa e distraída. E atenta, mas só nas pequenas coisas. Aquelas coisas que as meninas de treze anos acham importante: porque os pelos, os seios, a blusa molhada de suor insistente, e esse calor que vinha de dentro? E porque fulaninha beija de boca aberta? E a cicraninha usa sutiã tamanho M!? E porque os verbos são...