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Mostrando postagens de junho, 2010

Cicatriz

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Lembro do teu rosto à luz de velas lembro do teu gosto no incessar dos dias Afasto a lembrança tardia das noites belas que me destes torço a lágrima caida pela ferida que me fizestes... (imagem by Samara Assi -2008)

A proxima pecadora de Nelson Rodrigues...

Como sabemos, a obra de Nelson Rodrigues ultrapassa o universo teatral: ela inclui cronicas esportivas, contos, folhetins, romances. A nossa próxima pecadora rodriguiana vem de um romance chamado Asfalto Selvagem , publicado em 1959. Se voce não lembra desse nome, com certeza vai lembrar da personagem, quando assistir o filme abaixo (adaptação para a TV feita pela Rede Globo em 1995): Aguardem...

Para os breves...

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O tempo é um sopro de vento Um lugar nenhum Um invento Não sei que vida comum Eu lamento Se cada dia que passa Minha voz embaraça Com o tempo... O tempo é um sopro de vento Um súbito e frio sentimento De todos os arrepios que eu alimento O único vazio È o inverno arredio do tempo... O tempo é um sopro de vento É o som do momento da minha partida E das muitas saídas do meu pensamento a única despedida é a interminável ferida do tempo. p.s: Ontem, há um ano, morria Michael Jackson. O tempo voa, e me inspirou esse poema. R.I.P Michael...

CLARISSA

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Teresa a sonhar - Balthus (1938) Tinha aqueles olhos de quem nunca sabia de nada. Olhos sem efeito. Tornavam cada manhã morna em noites de gelo. Nunca soube o que fazer com aqueles olhos. Clarissa tinha aquele jeito indiferente de que está nesta vida de passagem. Mas quando dormia...ah, quanta vida! Quantos sonhos de oceanos e miragens! Clarissa passava pelos dias como as penas do travesseiro. Era só quando dormia, que vivia. Uma vida sem aquela família que não pedira. Sem filhos pequenos. Sem um marido que não a satisfazia, sob nenhum aspecto. Paralisia. Torpor. Fracasso. Palavras que descreviam tão profundamente a vida de Clarissa que às vezes ela as sentia escapando da boca. Mas calava-se. Lembrava sempre da sua mãe dizendo: “engravidou, tem que casar!”...ou então: “casou, tem que cuidar da casa!”. Clarissa sentia que não podia passar a vida sem ter que fazer alguma coisa que não queria. Não queria ter engravidado, nem casado, nem virado dona daquela casa horrorosa. Queria um m...

AS PECADORAS DE NELSON RODRIGUES (II)

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VESTIDO DE NOIVA – ALAÍDE, LUCIA, MME. CLESSI Parecia ser a obsessão de Nelson Rodrigues procurar o exagero, a monstruosidade da natureza humana nas atitudes mais corriqueiras. O lado obscuro da trivialidade. Ele mesmo disse que consagrar o óbvio foi o grande legado da sua obra. E de fato, com o obvio ele expõe também a mesquinhez, o grotesco, o falso, e – porque não? – o atípico. E esta miscelanea de possibilidades é muito latente, sobretudo na construção rodriguiana dos personagens femininos. Afinal, há algo mais clichê do que duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem? Ou ainda, mais folhetinesco do que duas irmãs que se odeiam, porque amam o mesmo homem? Este é o argumento inicial de Vestido de Noiva (1943), segunda incursão de Nelson Rodrigues na dramaturgia e considerada, até hoje, o ponto zero do teatro moderno brasileiro. Vestido de Noiva é o Hamlet  de Nelson Rodrigues: em tragicidade, em complexidade, em favoritismo. É de longe, a peça preferida da crítica. E é, bas...

PENÉLOPE

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QUANDO ela acordou, já estava tudo acabado. Ainda havia flores sobre a cama, no chão, no armário. Ainda tinha vinho sobre o criado-mudo. Tudo ainda estava tão completamente quieto. Um perfeito ocaso de uma noite de sexo. Perfeitamente insuportável. Ele ainda estava perto demais. Precisava se controlar. Tinha certeza de que era um bom homem, talvez o melhor que ela pudesse encontrar, ou merecer. Mas o vazio era imenso. Era um enorme estomago, contorcido em úlceras e faminto. No meio de noites como essa, ele sangrava como nunca. E no início das manhãs, continuava sangrando, como sempre. Era triste, mas tinha fome de tudo. Tinha esse jeito torto de gostar, e gostava muito, mas não sabia bem do que. Da vida, talvez. De beber demais, comer demais, de sair correndo para o meio da rua, e sentir a chuva e sol no rosto. Mas por mais que tentasse, não conseguia gostar dele. Era a calmaria. A rotina. O embaraço. Era o passar de dias que se arrastavam, e a noite talvez uma surpresinha, uma ta...

UMA PRECE...

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...IN MEMORIAN JOSÉ SARAMAGO 1922 - 2010 may the road rise to meet you may the wind be ever at your back may the sun shine warm upon your face and the rain fall soft upon your fields and until we meet again may the Lord hold you ever in the palm of His hand... ou TRADUZINDO... Que o destino levante-se ao te encontrar Que o vento sopre sempre ao seu redor Que o sol brilhe e esquente o seu rosto E que a chuva caia sempre nos seus campos E até que nos encontremos de novo Que o Senhor sempre o conduza pela palma da Sua mão... P.S.> essa é uma prece irlandesa e muito antiga, sempre me toca o coração quando a ouço, achei que era perfeita para me despedir de um poeta...

Lembranças...

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Quase não penso naqueles olhos Nem lembro mais daqueles dias Quando chegavas, e quando partias Eu quase não sentia aqueles beijos Quase não me tremia o corpo Não me tentava o desejo... E quando eu vejo, eu tento Quase não pensar naquele tempo Passou-se muito mais que amor Tudo mais se foi, menos o que ficou E é tudo tão intenso que Quase não penso mais em você Quase... Claudinha Monteiro

Mais Nelson Rodrigues: Eu adoro essa peça...

Esta será a proxima peça cujos pecados vamos confessar no blog:

ROSA

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Rosa era esperta. Gostava de andar de bicicleta, de pular corda. Gostava de clipes, apliques, repiques. Gostava de rir, de dançar, de balançar os cabelos e pintar os lábios de vermelho. E gostava muito, mas muito mesmo, de meninos. As professoras diziam que ela tinha cabelo nas ventas – seja lá o que fosse isso. Mais uma dessas coisas que só pais, professores, e avós dizem. Não tinha muita paciencia com eles. Mas tinha mesmo muita energia. Que que tem isso? Porque tinha que se cercar de bonecos, chocolates e figurinhas, fazer furos no meio da laranja, testar as mãos nas amiguinhas, se podia simplesmente escolher um menino? Nunca entendeu o talento das pessoas de complicar tanto as coisas mais simples. E tinha uma raiva danada, muito grande mesmo, dessa historia de que tem hora certa pra tudo. Achava isso uma enorme, grandississima palhaçada! Afinal, ela já tinha catorze anos! Que diabo! Porque podia aprender a ler, varrer a casa, cozinhar, andar de salto, e não podia beijar, abr...

Esta frase inspirou todo o meu projeto de Mestrado...

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Nelson Rodrigues (1912-1980) Na idade adulta endei escrevendo peças, romances, crônicas. Mas nem as peças eram dignas de Shakespeare , nem os romances dignos de um Proust. E a verdade, a lamentável verdade, é que eu não encontrava, em toda a minha biografia, nada que surpreendesse o Altíssimo e merecesse Seu espanto. Eis senão quando, de repente, baixa em mim uma luz genial. Alço a fronte e digo: – “Eu promovi, eu consagrei o óbvio!” . Aí está o grande feito de toda a minha vida. O óbvio vivia relegado a uma posiçao secundária ou nula. Fui eu que, com minha pertinácia, arranquei-o da obscuridade, da insignificância. in: O Óbvio Ululante (1968)

AS PECADORAS DE NELSON RODRIGUES (I)

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Lidia – A mulher sem pecado A primeira mulher rodriguiana que discutiremos no blog é a menos conhecida das pecadoras de Nelson Rodrigues: trata-se da protagonista da peça de estréia do dramaturgo, cujo título inspirou de forma irônica o titulo deste blog: chamava-se A Mulher sem Pecado (1941). Usei essa peça de Rodrigues na minha dissertação de mestrado, para traçar um paralelo entre Lídia e a Desdêmona de Shakespeare. Conclui que apesar da disparidade de tempo e espaço, as duas tem muito em comum: são mulheres que pecam pecados diferentes, por razões semelhantes. Por aí já podemos ter uma ideia de quem é Lídia, a  “Eva” de Rodrigues ou, segundo o crítico Sabato Magaldi, aquela que é o substrato de todas as futuras mulheres rodrigueanas (MAGALDI, 2000). Em A Mulher sem Pecado , temos inicialmente a história de uma mulher massacrada psicologicamente pelo marido paralítico, que está convencido de que ela o trai. Olégario, o marido, é um homem visivelmente atormentado, com um en...

ISABEL

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Estudo de Mulher . Rodolpho Amoedo, 1884. Em dias comuns, ela era triste, como os pés sem sapatos. Seus olhos escureciam e ela torcia as mãos frias enquanto olhava para lugar nenhum. Escorregava pelas paredes claras, pela mobilia cara, pela prataria. Girava pelo assoalho, os tapetes e as almofadas, até a porta da entrada que, naquele momento, não tinha intenção de abrir. Pela janela, os passos, os carros, as buzinas. A violencia sentida do tempo. Isabel tinha medo, muito medo de morrer cedo. Tinha essa urgência firme, tão assustadora quanto a morte. Esperava sempre os raios e as trovoadas - queria sempre o movimento. Em dias comuns, tudo era muito simples. Tudo era rotina. O trabalho, o relógio, os vestidos. As manhãs, sempre plácidas, sempre cheia de certezas, tinham sempre muita luz. Isabel não gostava muito das manhãs. Passava o dia inteiro esperando a noite cair. Era uma fã ardorosa de estrelas. São formas de luz muito discretas, tão pequenas e distantes e...

No mês de aniversário, Mulheres que Pecam apresenta...

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Imagem de Fundo: Purity , de Giuseppe Dangelico (a.k.a Pino) ...as pecadoras de Nelson Rodrigues Aguardem...

Tango...

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Imagem: Sueños de Tango (1999) Maria Amaral Era quente Era frio Era um instante no deserto E não tinha ninguém por perto Era só minha mente os calafrios... Era noite Era dia Era um tempo inusitado Caía o corpo inebriado Era como um açoite a calmaria... Era a morte Era a vida Era uma pausa, um hiato E a chuva nos teus retratos Era só um choro de despedida.