PECADORES CONFESSOS...

sábado, 5 de junho de 2010

ISABEL

Estudo de Mulher. Rodolpho Amoedo, 1884.


Em dias comuns, ela era triste, como os pés sem sapatos. Seus olhos escureciam e ela torcia as mãos frias enquanto olhava para lugar nenhum. Escorregava pelas paredes claras, pela mobilia cara, pela prataria. Girava pelo assoalho, os tapetes e as almofadas, até a porta da entrada que, naquele momento, não tinha intenção de abrir. Pela janela, os passos, os carros, as buzinas. A violencia sentida do tempo. Isabel tinha medo, muito medo de morrer cedo.
Tinha essa urgência firme, tão assustadora quanto a morte. Esperava sempre os raios e as trovoadas - queria sempre o movimento. Em dias comuns, tudo era muito simples. Tudo era rotina. O trabalho, o relógio, os vestidos. As manhãs, sempre plácidas, sempre cheia de certezas, tinham sempre muita luz. Isabel não gostava muito das manhãs.
Passava o dia inteiro esperando a noite cair. Era uma fã ardorosa de estrelas. São formas de luz muito discretas, tão pequenas e distantes e que escondem praticamente tudo. Isabel era um pouco assim. Só mostrava seu brilho no escuro.
No escuro. Quando nada mais se via, quando só se acendiam lampadas, estrelas e vagalumes, Isabel abria os olhos. Enxergava finalmente. Era quando sentia os espasmos, e tremia sem parar. Quando a abstinencia tomava conta de todos os poros e ela sabia que, então, tinha que levantar. Hora de chutar a poeira do guarda-vestido, de pintar a boca, as unhas, colocar os brincos. Hora da cinta-liga e dos espartilhos. Hora de por os saltos altos e sair.
No meio da rua, chamava-se Bela. Andava rápido e ria alto. Entrava e saia dos lugares, vivia cercada de gente, de vicios. Vivia cercada do mundo.
De dia, a contemplação. De noite, o desejo, uma imensa necessidade, um castigo. Era o sexo. Não podia ficar sem ele. Tinha que ser muito, e tinha que ser sempre. Nem precisavam pagar, mas ela era boa, e eles achavam justo. Não tinha prazer em negar nada à ninguém.
Bela era um apelido de infância que ela detestava. Era a mãe que a chamava desse jeito. Depois que ela sumiu, o apelido virou um fardo, uma obsessão. O pai passou a chamá-la assim, só para manter a presença da mãe em casa. Mas ela não estava ali porque não queria. Foi embora sem olhar para trás, e a deixou com o peso da ausencia nos ombros.
Isabel queria que Bela servisse para alguma coisa.  E então pensou que podia ser isso. De dia, havia apenas a lembrança da Bela que o pai melancolico e bebado só enxergava de longe; De noite, ela podia ser Bela, e ser feliz. De noite, Bela gritava, mordia, dançava, e fazia tudo de caso pensado, consentido. De noite, era a mudança, o inferno, o paraíso, o pecado. Isabel adorava o pecado.
Era uma pena que a noite era só um interlúdio, um espaço entre horas...
Porque de dia, quando tudo voltava a ser comum, Isabel fechava o corpo, os olhos,as portas e os armários, e botava sua vida para dormir.

(Claudinha Monteiro)

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7 comentários:

Ives disse...

Olá, adorei o seu blog, se me der a honra de segui-la, agradeço! abraços

Paulo disse...

Claudinha...
Que texto incrível!!! Emocionalmente profundo!!! Fantástico!!! Adorei!!!
Quantas hisstórias existem por trás de tantas Isabéis por este mundão afora. Você, incrivelmente, retratou uma Isabel, que teve problemas na infância com o pai, e perdeu a mãe muito cedo.
Um verdadeiro Tributo à todas a Isabéis da vida!!!
Beijo.

Ives disse...

Que maluco eu sou, acredito que os alcoólatras são na verdade grandes genios que não aguentam o fardo de tta sensibilidade! "e que atire a primeira pedra..."

VASCODAGAMA disse...

ADOREI
Obrigada p'lo comentario no m/blog

Vou voltar

Cacau Loureiro disse...

Belíssimo texto e muito verdadeiro, escrita clara e ao mesmo tempo sutil, metaforicamente rico, parabéns Claudinha!! Adoro as tuas letras e sensibilidade, bj!

Re Fagundes disse...

É como caminhar em uma navalha..mesmo que não caia e corte o corpo, os pés sairão em carne viva..é assim que vejo Isabel.

Obrigada pela visita em meu mundo Cítrico..seja bem vinda sempre!

Beijos cintilantes

Mila disse...

Adorei seu texto...
Obrigado pela visita.
Estarei seguindo>>>
bjs Claudinha
Mila Lopes

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