PECADORES CONFESSOS...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

CLARISSA


Teresa a sonhar - Balthus (1938)

Tinha aqueles olhos de quem nunca sabia de nada. Olhos sem efeito. Tornavam cada manhã morna em noites de gelo. Nunca soube o que fazer com aqueles olhos. Clarissa tinha aquele jeito indiferente de que está nesta vida de passagem.
Mas quando dormia...ah, quanta vida! Quantos sonhos de oceanos e miragens! Clarissa passava pelos dias como as penas do travesseiro. Era só quando dormia, que vivia.
Uma vida sem aquela família que não pedira. Sem filhos pequenos. Sem um marido que não a satisfazia, sob nenhum aspecto. Paralisia. Torpor. Fracasso. Palavras que descreviam tão profundamente a vida de Clarissa que às vezes ela as sentia escapando da boca.
Mas calava-se. Lembrava sempre da sua mãe dizendo: “engravidou, tem que casar!”...ou então: “casou, tem que cuidar da casa!”. Clarissa sentia que não podia passar a vida sem ter que fazer alguma coisa que não queria. Não queria ter engravidado, nem casado, nem virado dona daquela casa horrorosa. Queria um monte de outras coisas que jamais teria. A não ser que dormisse.
O marido a ironizava, os filhos a atormentavam. Sua vida era um beco sujo, cinza e sem saída. Por isso, precisava dos comprimidos. Era aquela falta constante de sentido que não a deixava alternativa. Abrir os olhos doía demais. Precisava fazê-los fechar. Precisava ver cores, sons, alguma imagem de arco-íris. Os comprimidos pelo menos eram coloridos.
Tinha vários deles, na gaveta da cabeceira. Se o seu marido tinha serventia, era a de deixar sempre um jarro com água fresca sobre o criado-mudo. Tomava pelo menos dois de uma vez. Quando demorava a dormir, tomava mais. Não sabia exatamente quantos. O marido dizia que ela era hipocondríaca, que não era normal ela estar sempre com dor de cabeça. Mas para ela, a cabeça era tudo que tinha. Seus sonhos...sua vida. Ela só doía quando o peso da realidade a assombrava.
Numa noite que chovia de verdade, o marido tinha levados os monstrinhos para casa da mãe dele. Uma festa de alguém. Bolinho e velas. Estava tarde, mas Clarissa nem pensou em ligar. A noite estava perfeita, silenciosa, aconchegante. Sem aquele barulho interminável da TV. Sem brinquedos e roupas pelo chão. Sem sorrisos que não sorriam. O paraíso na Terra.

Quando pensou que nada mais podia dar errado, bateram na porta.
“Sra. Clarissa Martins?”
“Sim...”
Era a polícia. O carro tinha sido achado a dois quarteirões da casa. Parece que avançaram o sinal, bateram em cheio na lateral do motorista. O carro derrapou por vários metros, capotou. Infelizmente, as notícias não eram boas.
Clarissa sentiu os olhos frios congelarem. Sentiu um tremor pelas pernas que subia até a raiz dos cabelos. Um frenesi. Como era possível? Seu marido, seus filhos, sua família?
O policial sentia muito, muito mesmo a sua perda. Assegurou-lhe que tudo ficaria bem, que era assim mesmo. Entendia o seu estado de choque, como ela se sentia.
E Clarissa sentia...sentia...
“A senhora quer que eu ligue para alguém?”
“NÃO! Pelo amor de Deus!”
Estava livre! Finalmente, livre! Pra que encher a casa de gente?
Afinal de contas, depois de muito tempo, tinha a ela mesma só para si. Seus olhos se aqueceram imediatamente. Lágrimas se precipitaram como chuva em um súbito verão.
Quando fechou a porta, um enorme sorriso iluminou seu rosto.

(Claudinha Monteiro)

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Um comentário:

Paula Figueiredo disse...

Sabe Claudinha que a contradição de Clarissa mexeu comigo. A gente não pode viver sem nossa vida íntima. Ela tava tendo "uma vida sem mim". To meio assim: revendo valores e escolhas para evitar o trágico ao final. Adorei!

E vamos confiar na VIDA, no AMOR e em NÓS!

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