PECADORES CONFESSOS...

sábado, 31 de outubro de 2009

Série ELAS POR ELES (Episódio II)

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
 Que, aos raios do luar iluminada,
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.
                                                                                                            
E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa dourada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! Vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando...

Via Láctea



 Olavo Bilac
(1865 - 1918)


Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh’alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Espectro


Minha alma torpe, torta, triste
Esfomeada, carente demais
Vive armada, dedo em riste
Malcriada e incapaz

Minha alma manca, sem beleza
Animal sem nome nem olhar
Minha alma acuada gagueja
Tira tudo do lugar

Minha alma atropelada
Prepotente, singular
Incolor e acorrentada
Nunca sai de onde está
Está sempre apaixonada
Como estrela incandescente,
                                                        Impotente e dependente
                                                        Da luz do luar.


By Claudinha

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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mulheres que Pecam N. 4 - Não Perca!


"Lúcia saltava sobre a mesa. Arrancando uma palma de um dos jarros de flores, trançou-a nos cabelos, coroando-se de verbena, como as virgens gregas. Depois agitando as longas tranças negras, que se enroscaram quais serpes vivas, retraiu os rins num requebro sensual, arqueou os braços e começou a imitar uma a uma as lascivas pinturas; mas a imitar com a posição, com o gesto, com a sensação do gozo voluptuoso que lhe estremecia o corpo, com a voz que expirava no flébil suspiro e no beijo soluçante, com a palavra trêmula que borbulhava dos lábios no delíquio do êxtase amoroso."

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sábado, 17 de outubro de 2009

Lucíola

Afasto por um momento
A minha alma do corpo
cansado, em tormento
carente de um esforço
O que procuro é luz. 
E sangue. E natureza.
O que procuro é a essência
Num rabo de estrela
Que nos meus olhos espelha
a reminiscência...

                                                                     O que encontro é um pormenor
                                                                     na pele fria, um recomeço
                                                                    Um verso simples
                                                                    Que eu sei de cor
                                                                    Uma palavra de amor
                                                                    Que eu desconheço

                                                                    E quando eu cismo
                                                                    Afasto meu corpo
                                                                    E minha alma espalha no vento
                                                                    Um brilho de sonho
                                                                    Um sentimento
                                                                    Na beira do abismo
                                                                    Um alento.


Por Claudinha M.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O próximo MULHERES QUE PECAM...

... "é o lampiro noturno que brilha de uma luz tão viva no seio da treva e à beira dos charcos. Não será a imagem verdadeira da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d'alma?"

(Autor, prefácio de 1862) 
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domingo, 11 de outubro de 2009

Série ELAS POR ELES

A partir de hoje publicarei periodicamente uma série de poesias dedicadas às mulheres, feitas pelos mais diversos escritores através dos tempos. Serão 10 episódios, cada um contendo duas obras, preferencialmente de autores de épocas distintas. Vamos ver como o olhar masculino sobre a mulher é construído, e o quanto este olhar pode ter se modificado, adaptado, ou simplesmente se excepcionado da maioria. Mais tarde, faremos um balanço dessas observações.
Para começar, dois grandes poetas brasileiros. Um, autor consagrado também na nossa literatura, morto no inicio do século passado; e o outro, consagrado sobretudo na nossa música, morto na segunda metade do mesmo século.


MACHADO DE ASSIS (1839 - 1908)


Quando Ela Fala




Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.

Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.
 
 

 
 
VINICIUS DE MORAIS (1913 - 1980)


A mulher que passa





      
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.







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sábado, 10 de outubro de 2009

MULHERES QUE PECAM N.4 - EMMA BOVARY (Parte II)

A mudança para uma cidade mais movimentada inaugura, portanto, a Parte II do romance. Num ambiente mais dinâmico, porém ainda com características rurais, Emma parece fazer um esforço de auto-controle. Sua obsessão pela boa aparência começa a se acentuar a partir deste ponto, por ocasião de uma maior facilidade de consumo. A transformação do desejo em necessidade passa a ter uma ênfase maior, na medida em que Emma se entrega a um consumo desenfreado, como que preenchendo um espaço vazio. A aparência sempre impecável, ressaltando a sua beleza natural, funciona como uma segunda pele, que esconde uma mulher triste, e uma mãe quase negligente. A filha representa, para Emma, a prova viva do seu infortúnio, e ela não consegue lidar com a criança, muito embora não a odeie. Precisamente por isso há pouquíssimas menções ao bebê nos primeiros capítulos da Parte II da narrativa. A criança parece não fazer parte dos seus planos, ou de suas lembranças. É para encobrir essa amargura, como também a culpa de não corresponder, no seu íntimo, ao papel que esperam dela, que Emma constrói a máscara da bela dama, confundindo intencionalmente beleza, status e felicidade.



É a partir da mudança para a cidade que Emma começa a alimentar a própria vaidade e, conseqüentemente, prestar atenção na reação masculina à sua presença. O primeiro “espelho” de Emma, nesta perspectiva, é Leon, assistente do advogado da cidade. As identificações de Emma, no decorrer da narrativa, sempre têm (ou fingem ter) apreensões românticas da realidade, e uma tendência à introspecção. Leon se encaixa perfeitamente nesta premissa. Rapaz tímido, leitor inveterado, desenvolve uma paixão platônica por Madame Bovary, com quem se solidariza através do gosto pela literatura e pela arte. É ao se dar conta dos sentimentos do rapaz que Emma começa a desenvolver as próprias ilusões românticas, as mesmas que ela julgava mortas depois do casamento com Charles. É quando Flaubert passa a discutir o tema mais polêmico associado a este personagem feminino, que é a transgressão moral de Emma, ao imaginar-se apaixonada por outro homem.


É importante observar que o estilo narrativo adotado por Flaubert, até este ponto, parece preparar o terreno para o adultério da heroína. Afinal, não há heroísmo sem desafio, para o bem ou para o mal. Flaubert, como já foi dito, desenha a individualidade transgressora de Emma pouco a pouco, enfatizando a visão idealista de mundo da personagem, e seu inevitável desencanto com a realidade vil representada na figura do marido; a sua intolerância à mesmice rural, ao ponto de quase a enlouquecer, forçando uma transformação para o cenário urbano; a maternidade que sugere a perpetuação do feminino e, por conseguinte, a continuidade do sofrimento, da submissão ao macho; e ainda, temperando todo este histórico de infelicidades, a sua insatisfação sexual, acentuada durante todo o processo narrativo. Tudo isso misturado, produz no caldeirão flauberiano uma fórmula destinada ao clímax – que invariavelmente, acaba acontecendo. Da forma como foi a personagem foi concebida, fica claro para o leitor que a prioridade de Emma é viver segundo o que acredita. No momento em que percebe que não há como fazê-lo em conformidade com as convenções sociais, apesar de todo o seu esforço estilístico e emocional, Emma atinge um nível de descontentamento tal que resolve experimentar o amor numa situação adversa, isto é, à margem da convenção social. Não alcançando a felicidade com o casamento, vai procurá-la em outro lugar, e com outras pessoas.


Emma trai primeiro em pensamento, com um vizinho de sua casa da cidade (que na parte final da narrativa se tornará seu amante), para depois trair de fato, ao se render à lábia de um homem que Nelson Rodrigues chamaria carinhosamente de canalha. A passagem da primeira traição de Emma é propositadamente suavizada – e até contrastada – com o imaginário romântico da luz irradiante do fim de tarde, associada à preponderância da natureza (Parte II; Cap. IX). Não é gratuita a escolha do cenário: o ambiente natural proporciona uma ligação direta com a naturalidade do sexo, e do desejo correspondido. Resgatando a simbologia nietzschiana para o trágico, é como se as forças da natureza tomassem de assalto a consciência individual, inspirando um delírio coletivo, uma predominância da inconsciência, e sua conseqüente formação de imagens, de metáforas, que concedem uma atmosfera poética ao ato transgressor.


Pressente-se que o adultério, na concepção de Emma, não serve apenas como válvula de escape, mas como a afirmação de uma vontade – a de viver um amor segundo os seus desejos. O inconformismo de Emma com que ela considera uma falta de paixão em sua vida é condizente com o seu olhar romântico sobre o amor. O ideal perseguido, neste caso, parece inalcançável, uma vez que a continuidade do ato pressupõe uma convivência, os encontros são arranjados sempre furtivamente, e do mesmo jeito – de maneira que uma rotina acaba se estabelecendo, não obstante o fator não-convencional da relação. Além disso, não se levam em conta impedimentos como a família, e os vizinhos – e nem se poderia levar, já que o propósito de Emma é justamente fugir a essa realidade. Emma parece inverter mentalmente a sua percepção do que é real, isto é, ela representa um personagem para o seu marido, e procura ser ela mesma com seus amantes. A ficção é a sua vida conjugal, e a realidade é a sua natureza adúltera. É provavelmente daí que vem a necessidade de Emma de se manter permanentemente apaixonada, e quando seus parceiros não se sintonizam com essa paixão ela se sente mortalmente traída, de uma forma que ela não se sentiria se, por exemplo, Charles tivesse outra mulher.


Em seu íntimo, o que Emma gostaria de fazer é aliar sua vida cotidiana com as suas paixões, ou melhor, gostaria que as suas paixões fossem o seu cotidiano. O paradoxo neste desejo é tentar transformar a própria realidade num sonho constante. Entretanto, sabemos que o que acontece é exatamente o oposto: a força do dia-a-dia se impõe, sufocando as ilusões. Assim, o que Emma consegue é um homem “que faz amor com ela em dias específicos” e faz de sua entrega “mais um hábito” – ou seja, os adultérios de Emma acabam sempre numa variação da sua vida conjugal. O desejo deixa de ser alimentado pela distancia, pela aventura, pelo diferente, quando se cria uma rotina de ver sempre a mesma pessoa, e locais e horas sempre iguais. Emma pressente este esvaziamento do desejo, e o resultado disso é o desencanto – o que faz com que Emma retome a sua busca incessante pela satisfação de sua individualidade.


O amadurecimento da sua conduta adúltera simboliza uma escolha direta de Emma por si mesma. Junto com essa escolha, há também o desafio de alimentar continuamente o próprio ego com a experiência da alegria, do êxtase. Eis o ápice da tragicidade de Emma Bovary, que além de encarnar o arrebatamento, também o enfrenta. A recusa de Emma em renunciar à sua individualidade, a sua aspiração pela liberdade total, ao mesmo tempo em que a cega para a tristeza, cega também para o perigo. E, assim, tanto o sonho quanto a realidade fogem ao seu controle, e processo de seu aniquilamento tem inicio.


Abandonada pelos seus dois amantes, afogada em dívidas contraídas por conta de seu consumismo exacerbado, Emma começa a ver todas as suas máscaras ruírem. Nessa guerra de máscaras, a primeira sucumbir é a da sanidade moral, no momento em que sua tendência natural ao pecado é revelada aos olhos do senso comum; depois a da sanidade estética, ao se descobrir a depredação do patrimônio dos Bovary para sanar suas dívidas; e por último, diante da intolerável exposição e do conseqüente desaparecimento de toda a ilusão, cai a máscara da sanidade mental. Emma completa o seu ciclo trágico se transformando, literalmente, na imagem do pobre cego que grita diante dela numa de suas últimas idas à cidade (Parte III; Cap. V). O cego, neste caso, é uma imagem trágica poderosa, na medida em que priva a individualidade da luz, de todo conhecimento, como também de toda a liberdade. O cego é, também, a representação óbvia daquele que não integra, sob nenhum aspecto, a realidade que o cerca – apenas a imagina. Emma, portanto, assume este individualismo inconseqüente, escolhe a escuridão e, assim, caminha direto para o abismo.


Neste contexto, a morte de Emma não poderia vir de outra maneira, senão através da auto-destruição. Emma induz o filho do farmacêutico da cidade – um dos seus vizinhos mais próximos – a levá-la ao laboratório do pai e, uma vez lá dentro, toma uma quantidade generosa de arsênico. O jovem, que nutre um amor platônico por ela, não resiste ao erro, e quando percebe as intenções de Emma já é tarde demais. O aniquilamento físico da protagonista coincide com o esmorecimento moral que ela experimenta junto aos moradores da comunidade. De fato, Emma definha por dias, antes de morrer. Toda sua beleza vai-se esvaecendo, a sua imagem vai desaparecendo. Até que, perto do fim, Emma faz um pedido, aquele que serviria à sua morte, como lhe serviu em vida – o de se olhar, pela última vez, no espelho. Diante da imagem derradeira da sua individualidade, Emma suspira e morre, olhando, como sempre fez, apenas para si mesma.


O aniquilamento individual de Emma é mais que necessário, é inevitável – o sacrifício da personagem simboliza também o seu reconhecimento de que não há lugar para ela, não há máscara que a possa definir. O tempo da criação acabou. A resolução das dicotomias presentes na narrativa se confunde com a resolução de Emma. Afinal, ela representa, ao mesmo tempo, o embate entre campo-cidade, homem-mulher, ilusão-realidade. Uma vez aniquilada, todos esses conflitos se resolvem. Vencem a cidade, o homem, a realidade. Vence a normalidade. O final da narrativa é ilustrativo neste sentido quando a última cena do livro, após a morte de Charles (que pautou a sua existência na da mulher, e se foi junto com ela), é justamente a imagem da estabilidade da família do farmacêutico, o protótipo da adequação ao senso comum. Ou seja, na perspectiva cíclica do romance, como no ciclo trágico de Emma, tudo volta ao seu ponto de partida. E a partida, como não poderia deixar de ser, é um véu que escraviza uma massa de individualidades.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rebelde


Na minha vida junto os pedaços
Num chão de sonhos partido
Num rastro de amores ferido
Na ponta dos pés eu abro os braços

Levo sempre tudo comigo
Perco o equilíbrio, e o espaço
Minha fala manca, meus passos
Meu verso torto é meu abrigo

O meu longo caminho
é um pequeno ninho
de enormes fendas
e eu vivo no encalço
não espero que entendas
os meus percalços
minha vontade é um vicio
e minha tristeza, um arbítrio.
(by Claudinha)

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 4 - EMMA BOVARY (Parte I)

Emma Bovary é um dos personagens femininos mais complexos da literatura romântica. É sugestivo, em todos os sentidos, que seja uma mulher. Seu dom para a transgressão, sua personalidade ao mesmo tempo turbulenta e frágil, sua necessidade extrema de repudiar uma realidade que a oprime, através de subterfúgios igualmente extremos, muitas vezes vis, e cuja acumulação sela o seu destino à inevitável fatalidade. O texto de Madame Bovary, elaborado sob medida para a protagonista, é uma narrativa intensa, de um potencial tanto romântico quanto analítico – enfim, uma fábrica de imagens gradualmente reveladoras. Será que Gustave Flaubert tinha uma leitura incomum da alma feminina? Não há como precisar. O fato é que, em algum momento da sua criação estética, o seu Madame Bovary acabou se tornando uma obra de arte, lançando um olhar original sobre a representação feminina no romance.

O desenvolvimento desta individualidade conflitante de Madame Bovary, - isto é, o seu comportamento, o seu pensamento sempre reativo, rebelde – vai surgindo pelo agrupamento dos diversos “olhares” lançados sobre a protagonista, provenientes de outros personagens, principalmente os masculinos. É fundamental perceber o modo como Flaubert concatena estes olhares, de certa forma divergindo-os da imagem nebulosa que Emma parece fazer de si mesma. É sobre essas imagens divergentes que surgem as diversas máscaras sob as quais Emma constrói um poderoso instinto de auto-preservação. Mas, ironicamente, as máscaras não a salvam de um outro instinto – o sonho, a imagem arrebatadora do seu desejo de viver aquilo que, no plano do real, ela não possui. É o segundo grande impasse do romance: o duelo de egos. Um eu racional, sobrevivente, procurando coexistir com um eu dilacerante, pungente.

Parece oportuno, neste ponto, começar a discutir os tipos de “olhares” que nos permitem distinguir a natureza das máscaras usadas por Madame Bovary. É relevante observar que a narrativa de Flaubert privilegia a perspectivação dos fatos inerentes à trama, transcrevendo-os através do fluxo de consciência dos personagens – ressalta-se aqui a participação da faculdade cognitiva do individuo na criação da sua própria realidade, isto é, no que acredita ser uma visão apurada do mundo. Assim, deve-se entender que em Madame Bovary, a construção das realidades dos personagens, bem como as suas diversas maneiras de ser, dependem enormemente dos “pontos de vista” distribuídos pela narrativa destes mesmos personagens, de forma que a visão de um pressupõe uma faceta do outro, que nem sempre corresponde à verdade do outro, e assim sucessivamente. É neste sentido que vemos a personalidade de Emma Bovary ser construída gradativamente, e sob estéticas diferentes, além de pessoais. Não é à toa, portanto, que o primeiro “olhar” apresentado sobre Emma é justamente daquele que seria o seu futuro marido, o médico Charles Bovary.

Homem de poucas palavras e pensamentos lineares, Charles é um homem praticamente sem ambição. A percepção de Charles é dominada por imagens atreladas principalmente à realidade imediata, ao dia-a-dia sensível ao toque. A aparência é a sua inspiração, segundo a qual ele constrói as suas verdades. Charles é um ser humano anti-estético, que depende de fincar os pés no chão para definir sua existência. A sua visão de realidade é, por conseguinte, apenas aparência, se considerarmos realidade como uma construção em perspectiva. E é baseado nessa aparência que ele constrói a sua visão de Emma.

É interessante a forma como Flaubert constrói a imagem que Charles faz de Emma aos poucos. Charles é o médico que cuida do pai de Emma, quando este fica doente. Cada visita à fazenda do pai dela aumenta a necessidade do médico de estar por perto. Quando a convalescença do paciente chega ao fim, ele resolve visita-los como “amigo”. O sentimento de “amizade” é adequado neste ponto, pois Charles ainda está casado com uma outra mulher, mais velha que ele, uma imposição da mãe dominadora – sempre há uma mãe sufocante através de uma personalidade frívola. Somente a partir da morte repentina da primeira esposa é que Charles toma a atitude de cortejar Emma abertamente, indo até a fazenda do pai dela para pedi-la em casamento. Parece ser a única atitude de Charles que parte genuinamente dele, sem ajuda nem influência externas. Mas esta atitude vem fundamentada numa visão pré-concebida da mulher que ele aprendeu a admirar, principalmente, pela aparência. Esta é uma característica de Emma que vai se extravasar muito mais adiante no romance: ela gosta de parecer, tanto quanto aparecer, muitas vezes de acordo com a própria conveniência. A essa altura da narrativa, porém, esta faceta da futura Madame Bovary ainda está incipiente, e Charles, com a sua visão enraizada na superfície, percebe apenas o que lhe é mostrado. Assim, Emma passa a ser o objeto do seu desejo, alguém cuja imagem o fascina, e que ele se determina a ter.

O elemento complicador do ponto de vista de Charles Bovary é que ele tende a isolar seus próprios conceitos, criando opiniões baseado em percepções que não são discutidas com mais ninguém. Uma vez definidas, Charles as aceita prontamente, sem que haja qualquer possibilidade de contestação. Ele se convence, por exemplo, de que Emma é a sua mulher ideal. Aproximar-se dela, portanto, é um ato de extrema coragem, considerando a timidez do médico. Fazer com que ela o aceitasse é uma vitória ainda maior. Charles pensa conseguir tudo o que podia querer da vida, e faz o que sempre fez: se conforma, cristalizando uma imagem de Emma que ele elaborou sozinho, no meio dos seus próprios sentimentos e devaneios. E qual seria essa imagem?

A Emma que Charles se determina a enxergar está atrelada às suas noções do feminino, que por sua vez deve advir dos padrões de feminilidade “vendidos” para a época. É por assim dizer, uma idéia “comprada”, adaptada aos olhos do observador. Assim, temos na visão de Charles uma Emma dócil, romântica, generosa, prendada que cuida da casa e do pai, e que se esmera em agradá-lo quando ele visita a sua fazenda; é sugerido inclusive que ela aguarda tais visitas, com ansiedade. Nesta primeira parte do romance, o ponto de vista de Charles é exposto com uma alternância escassa de diálogos, possivelmente para expressar a qualidade individualista, pouco interativa, da personalidade do médico. O fato de Flaubert introduzir o personagem Emma pela visão de um outro personagem se torna um recurso estético poderoso, principalmente depois que os pensamentos de Emma passam a ser lidos. O contraste entre a Emma por quem Charles se apaixonou e a Emma que se define a partir do casamento parece fundamental na construção da dubiedade da protagonista, antecipando conflitos e incompatibilidades que se exacerbam, no decorrer da história.

A apresentação “oficial” de Emma, isto é, o aparecimento da personagem, por ela mesma, só ocorre na metade da Parte I da narrativa, depois que já conhecemos a perspectiva de um Charles completamente apaixonado. Flaubert parece escolher um tipo de “terapia de choque” como forma de introdução da protagonista. O fluxo de consciência de Emma começa a ser exposto a partir da sua lua-de-mel com Charles. Ao final do 5º capítulo, a frustração de Emma após a primeira noite de amor de sua vida é evidente, e ela questiona imediatamente a sua escolha de Charles não só como marido, mas como parceiro sexual. Essa apresentação do feminino pelo viés do erotismo se salienta profundamente na personagem, tornando-se fundamental nas escolhas dos seus parceiros masculinos, bem como na manutenção de seus relacionamentos extraconjugais. A atmosfera erótica em torno de Emma parece construída de propósito por Flaubert, exatamente para oferecer um contraponto dramático à visão simplista que Charles criou sobre a esposa; o embate entre as verdades dos personagens fica cada vez mais recorrente deste ponto em diante.

A narrativa, a partir da apresentação da jovem Madame Bovary, parece se rechear de recursos oratórios, como frases exclamativas e interrogações, que a protagonista faz a si mesma, ao comparar sua vida conjugal à experiência amorosa constante dos romances que ela costumava ler. A utilização destes recursos de linguagem nos pensamentos de Emma fornece mais uma diferença entre ela e Charles – a natureza questionadora da protagonista em relação ao próprio destino, em oposição à aceitação permanente do marido. Emma tem uma energia pulsante, um ego admiravelmente voltado para a satisfação de seus próprios desejos. Emma não é generosa, sob nenhum aspecto. Seu objetivo durante todo romance é a afirmação da sua individualidade, através de um onirismo compulsivo, caótico. A mente de Emma trabalha num crescendo, e isto fica bem definido na oratória flauberiana.

É através da expressão dos pensamentos de Emma que se configura a primeira de suas máscaras estéticas. O crescente grau de desconsolo da protagonista culmina com uma crise nervosa, agravada por um extremo sentimento de impotência diante de uma vida inesperadamente infeliz. As imagens desenhadas pelo desgaste mental de Emma são fundamentadas, principalmente, no seu casamento com Charles. A narrativa sugere que Emma culpa Charles pela privação de sua liberdade, em favor de uma monotonia emocional com a qual ela não estava preparada – ou não queria – lidar. Na visão de Emma, o casamento significava o novo, o diferente, a realização do amor romântico que ela consumia nas suas leituras. Em vez disso, a frustração da rotina e a concepção de uma criança, para seu desespero, do sexo feminino, condenada ao massacre individual, como ela. O casamento, portanto, devia ser a causa de tudo; era preciso acabar com ele, ainda que simbolicamente. Por isso, a imagem do buquê queimando no final da Parte I é bastante sugestiva. Não esquecendo que a insatisfação de Emma tem também uma conotação sexual, a queima do buquê significa não mais esperar que a realização emocional venha do marido. O marido, o casamento, é um sonho acabado, perdido. É preciso, agora, uma nova máscara. E a loucura, neste sentido, é uma conveniente – ainda que extrema – mudança de atitude, que precipita várias outras transformações.

O estado de saúde de Emma obriga Charles a trocar a atmosfera rural pela urbana. O diagnostico de depressão profunda da esposa é diretamente associado ao tédio da vida no campo, onde nada nunca muda – o que reforça, mais uma vez, a questão do conflito cidade-campo que parece assombrar o casal protagonista: Charles permaneceria de bom grado no interior, exercendo sua profissão sem maiores dificuldades, porém sem a possibilidade, ou a necessidade, de sobressair; já Emma reflete uma total inaptidão para a falta de movimento, para ela é importante sentir o tempo, o movimento do mundo. Sua mente oscila em recordações ou mitificações de um futuro que, para seu desespero, nunca chega. Essa constante realocação temporal é também uma característica desta narrativa de Flaubert, talvez como uma maneira de expor a inquietude crescente da heroína, em contraste ao parasitismo de seu marido. A sensação do trágico em Emma já se expõe nesta inadequação, Emma parece sempre desenquadrada, seus pensamentos estão sempre ou à frente, ou atrás do tempo em que ela vive, e em nenhum momento ela está em algum lugar.
(continua)

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