PECADORES CONFESSOS...

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 7 - Edição Especial p. III

Para terminar esta edição especial, vamos falar da mais polêmica das figuras femininas dentro da narrativa da Bíblia: Maria Madalena. Figura profundamente controversa, cuja origem e história não estão descritas de forma clara nos evangelhos do Novo Testamento, Madalena é a mais mencionada companhia feminina de Jesus Cristo, depois da Virgem Maria. Creio que podemos dizer que Madalena seria uma das visões de amor que cercam a historia de Jesus.



Assim como o amor de Maria, o amor simbolizado na figura de Madalena não é algo que vá estar explicitado nos livros canônicos. O amor materno é uma demonstração de poder associado à femininidade e carrega consigo um forte apelo emocional, e erótico. O amor romântico é desestrurador, sujeito às vicissitudes da carne e, por conseguinte, desestabiliza o discernimento. A volubilidade do amor romântico também é um aspecto frequentemente associado ao feminino. Nenhum desses sentimentos, portanto, é pertinente à narrativa canônica. Os evangelhos do Novo Testamento tem a sua narrativa estruturada de modo a enfatizar cada vez menos a HUMANIDADE de Jesus, e consequentemente, cada vez mais a sua DIVINDADE. O carater híbrido da personalidade de Jesus Cristo é algo dificil de ser assimilado pelo leitor leigo do texto bíblico conforme está organizado. Isto porque os evangelhos procuram focar a oratória de Jesus, o seu ensinamento, a sua mensagem. A sua capacidade relacional, os seus vínculos familiares e afetivos não são foco nas narrativas dos apóstolos. O amor maternal e o amor romântico não estão entre as visões de amor atribuídas à Jesus. É o amor fraternal - e, mais ainda, o amor paternal - que merece destaque nas narrativas.

Assumindo a ideia de que Maria Madalena corresponde à personificação do amor romântico em relação a Jesus, é possível constatar que a construção da personagem Maria Madalena fica fortemente influenciada pelo objetivo principal da narrativa que é reforçar a divindade de Jesus, fortalecer a imagem do Cristo como o Filho de Deus, e não como um ser humano suscetível a fraquezas, defeitos e/ou desejos. Assim, a identidade de Madalena, as suas origens e a sua personalidade são frequentemente apresentadas de forma obscura. Há diversas menções de mulheres com o mesmo nome - Maria - nos livros dos apóstolos: uma delas, inclusive, é uma prostituta; a outra, uma mulher possuida por sete demonios a qual Jesus libertara. As interpretações geradas pela ambiguidade em torno dessas personagens fizeram com que elas fossem associadas à Maria Madalena, inclusive pelo papado. Até hoje, temos no inconsciente coletivo a imagem de Madalena como a prostituta redimida de seus pecados por amor a Jesus Cristo.


Há ainda os polêmicos Evangelhos apócrifos, que conteriam inclusive um Evangelho escrito pela própria Maria Madalena. Estes livros pintam uma Madalena culta, uma mulher com um grau de compreensão da palavra de Jesus superior inclusive aos dos apóstolos. Uma mulher que seria a companheira, o alter ego feminino do Cristo. Se Deus criou uma companheira para todos os homens, seria tão incongruente assim supor que Ele criaria uma companheira também para o seu filho? Essa visão do amor romantico seria assim tão herética, tão desviadora de missão de Cristo como o Salvador, que precise ser extirpada dos livros? Sendo Cristo humano e divino, não seria justo supor que a sua capacidade de amar transcendesse a caritas (caridade)? Essas questões são explicitadas a partir do momento em que se tenta preencher as lacunas na concepção da Maria Madalena descrita nos livros do cânone bíblico. A imagem da mulher promíscua, pecadora, convertida e submissa à vontade do seu Senhor é útil no sentido de denegrir Madalena aos olhos do leitor laico, e adequá-la a imagem do feminino que perpetua o inconsciente masculino desde Eva.

De qualquer forma, a personagem Maria Madalena permanece misteriosa, e sua influência na trajetória de Jesus, assim como a de Virgem Maria, não fica clara nos livros canônicos. Se analisarmos apenas o discurso bíblico, não temos como afirmar quem era, como viveu e nem como acabou Maria Madalena. Por outro lado, embora as narrativas do Novo Testamento procurem via de regra associar Madalena unica e exclusivamente aos vícios da humanidade - contrastando, portanto, com a superioridade divina do Cristo - deixa-se escapar que Madalena era a figura feminina mais próxima de Jesus, e que gozava de certa deferência, já que - como a propria narrativa canonica admite - é para ela que o Jesus ressuscitado aparece em primeiro lugar. É Madalena a única mulher (além da Virgem Maria) quem guarda o túmulo de Jesus, e é ela quem primeiro descobre a sua violação e o desaparecimento do corpo de Cristo. Se olharmos com atenção, veremos que Madalena confere a Jesus a subserviencia de uma esposa, e uma esposa apaixonada... Mas, obviamente, esta é uma história ainda a ser (re)escrita.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 7 - Edição Especial p.II


Em contraponto ao mito de Eva, temos a incontestável figura de Maria, a mulher que concebeu imaculada o Deus-homem. Maria não é uma deusa, mas o que a cultura cristã chama de "santa", um ser humano iluminado, tocado com o desígnio do Divino, destacado para uma missão que exige uma fé incondicional. Maria talvez seja a única figura feminina da Bíblia no qual se exercita inteiramente essa total contemplação do divino, esse êxtase missionário que é também uma sublimação da fé.
"Faça-se". Com essas palavras Maria autoriza o anjo a invadi-la com o Espírito Santo e assim, entrega seu corpo intocado à concepção do Salvador. A força dessa passagem bíblica dentro do inconsciente coletivo é extraordinária - denota um total desprendimento, um abandono da curiosidade, do desejo e de qualquer ambição maior. Maria não ambiciona o divino; ela se torna o seu instrumento. Por sua propria escolha, Maria recusa sua natureza-MULHER, resumindo-a inteiramente à sua natureza-MÃE. Sim, Maria é o pressuposto da maternidade, o maior poder que o feminino pode impor ao homem. A mulher que gerou o Cristo, no entanto, não poderia ser uma discípula de Eva. Maria tinha de ser, por força do dogma cristão, um duplo perfeito do mito da primeira mulher.
E ainda assim, há que se considerar. Maria tinha um pretendente humano, José. Como explicar a ele uma gravidez imaculada? Como explicar à sua comunidade? Era preciso uma dose de coragem para assumir diante de todos o que poderia ser entendido mais facilmente como pecado. É interessante a narrativa bíblica para Maria, contraditória e sutil. A personagem é construída em torno do poder da maternidade e da criança que seria trazida ao mundo; também em torno do poder do divino, e da imensurável fé da virgem para suportar a desconfiança alheia. É importante dizer, neste momento, que o ritual cristão não é o único em que o deus escolhe a virgem para o sacrificio da concepção e o desafio de carregar a herança divina. O incubo (união de um ser humano com um ser divino) é bastante comum nos mitos gregos, onde os deuses descem à Terra para seduzir belas jovens e nelas, conceber seus olimpos. A concepção de Helena de Tróia, por exemplo, é o resultado da sedução de Zeus à jovem Leda. Curiosamente, o poder de Zeus também é representado por um pássaro - um cisne, ao invés da pomba cristã.
Ao contrário da lenda grega, a história cristã obedece à propósitos específicos. Maria é claramente desenhada para ser um modelo virtuoso para o feminino, um exemplo a ser seguido. Não sabemos o quanto de influencia ela efetivamente exerceu sobre o menino Jesus, porque as menções da Bíblia à figura de Maria são pontuais, e escassas. A ideia principal sobre Maria é associá-la à maternidade e ao casamento espiritual, onde o apelo da carne é secundário ou melhor ainda, inexistente. A pena masculina aparece marcada na caracterização de Maria: subserviente, discreta, serena, sublime mesmo. E obviamente, coadjuvante da trajetória do Deus-Pai e do Deus-Filho.
Julia Kristeva afirma em O Feminino e o Sagrado (2001), que a Virgem Maria, por sua aceitação da maternidade, é uma poderosa representação do sagrado feminino, independente do que é facultado a ela na narrativa cristã. Segundo Kristeva, a Virgem simboliza a total consciencia do poder materno, a maternidade aqui servindo como ingerência da vida, do tempo. A mulher vive no limite de uma incongruencia entre o tempo que ela dispõe e administra através da geração da vida, e o espaço a ela reservado no cotidiano. O poder de Maria, a decisão de Maria, a influencia de Maria sobre Cristo, tudo é apontado por Kristeva como indicativo de força através da sabedoria, serenidade, ao invés do controle extático exercido por Eva.
O olhar feminino sobre a Virgem Maria é importante para percebemos, mais uma vez, as lacunas na narrativa bíblica dos personagens femininos. A natureza feminina é deturpada, omitida, ou delimitada segundo os padrões do dogma. Não sabemos até onde Maria determinou a caminhada de Jesus - nos evangelhos do Novo Testamento, o relacionamento de Maria com o filho não é um foco. Não temos uma percepção clara, por exemplo, da infância de Jesus, sobretudo após a morte de José. O evangelho, até por seu objetivo catequizador, se concentra no Jesus adulto, já se conscientizando da sua missão, como também do seu proprio sacrifício.
Como um toque final ao mito da Virgem, o fim de Maria corresponde à sua total sublimação. Depois de sublimar o corpo, Maria ascende ao Pai, e a narrativa de sua morte é ambigua, completamente simbólica. É como se Maria, através da negação de sua individualidade, abandonasse por completo a sua condição humana, e se tornasse apenas espírito. E embora a Bíblia não dimensione a importancia de Maria na trajetoria de Cristo, o fato de tê-Lo concebido confere a ela um lugar de destaque na tradição cristã. A Virgem é a intercessora natural dos pecados do mundo diante do Criador. Por sua condição ambivalente: humana destacada da impurezas do mundo, progenitora do filho de Deus - ela entende o pecado e procura limpá-los da alma dos ímpios. É a figura feminina forte, permanente da qual a religião faz uso para neutralizar o efeito Eva na personalidade feminina. Mas, é também uma representação da força da natureza numa mulher, de um poder que lhes foi concedido e não lhes pode ser tirado. Mais uma vez, apesar do objetivo castrador do mito de Maria, o seu poder permanece no seio materno, e insiste na personalidade feminina pela tolerancia e pela consciencia, ao invés do extase.

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domingo, 20 de dezembro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 7 - Edição Especial p.I



De acordo com o livro bíblico Gênesis, o primeiro ente representante da espécie humana foi o homem; e mais tarde, para que o homem tivesse uma companheira, Deus criou a mulher. Adormeceu o macho e tirou-lhe uma costela, para fazer o corpo feminino. Colocou ambos num jardim auto-suficiente e disse-lhes que comessem de tudo, menos do fruto de uma determinada árvore. Mas Eva, a primeira mulher, desobedece as ordens do Criador, comendo do fruto e dando-o ao seu marido, influenciada pelo animal guardião da árvore. Depois de descobrir a traição de Eva, Deus condena o homem a trabalhar a terra, caçar e pescar para sobreviver; condena a mulher a sangrar todos os meses, a parir dolorosamente os seres de sua espécie, e ser subjugada por seu marido; e condena a espécie do guardião da árvore a rastejar para sempre. Assim o primeiro livro do Velho Testamento descreve o mito de Eva, mulher de Adão e portadora do genoma supostamente maldito da espécie feminina.



Muitas coisas podem se inferir da narrativa inicial da Bíblia: primeiro, ela possui todos os elementos de uma lenda, um folclore transposto para o papel. O elemento místico representado pelo Criador; a demonstração de poder do ser místico, criando os elementos da natureza, flora, fauna e por fim, o ser humano. Os personagens-súditos, criados para viver com fartura, desde que demonstrassem subserviência ao Criador – uma mensagem sublimar e bastante política. E claro, o pecado original, que é também o pecado feminino: é a mulher que aspira ao conhecimento, exercita a curiosidade e desafia o desejo do Criador. Ao comer do fruto, adquire discernimento, perde a inocência e toma consciência do próprio corpo, do sentido das próprias ações e palavras; e faz uso disso, para convencer o seu inocente marido a comer do fruto ele mesmo. A moral da historia é bastante clara: a mulher deve suportar a dor, a submissão como castigo por sua insolência natural. O pecado original, isto é, o afloramento da consciência, do sexo e do desejo é que provoca a necessidade das iniqüidades de gênero, o homem deve isso, a mulher aquilo. Devemos a Eva, primeira mulher, o advento do sofrimento, para remissão de nossas imperfeições.


Eva é o único personagem feminino da Bíblia que é, assumidamente, um mito. É uma criação, para justificar um controle acharcante sobre a moral e a conduta femininas, uma razão mística (por mais contraditório que isso soe) para a opressão do desejo, do pensamento e da curiosidade, associados invariavelmente à mulher. No tempo em que a criação do mundo parecia plenamente justificada por teodicéias, o mito de Eva associa a natureza feminina ao perigo, e o corpo feminino ao pecado original, isto é, o sexo feminino é extático, como também catártico. E a catarse requer distanciamento, indiferença. Neste caso, Eva é o inconsciente coletivo masculino contra a mulher, associando-a inevitavelmente ao erro.


Para resumir, o mito de Eva, na cultura semita, relaciona o pecado à desobediência, e não à falta de um discernimento que, afinal, não era facultado ao casal humano do Jardim do Éden. Toda a simbologia do conhecimento se concentrou na imagem da árvore frondosa, gigante, com frutos enormes e um animal enrolado nos galhos; ou seja, toda a consciência do bem e do mal, prostrada no centro do paraíso, se materializava apenas nos sussurros do animal guardião da árvore. O saber, até aquele momento, não era delegado à raça humana, semelhante, na tradição semita, ao próprio Deus. A idéia de que a mulher possa ter desafiado este estado de coisas apenas por curiosidade, ou por influência externa – e não por valorizar o conhecimento em si, o mistério da criação e a contemplação do divino – atribui ao feminino uma ausência fundamental, um vazio de sentido. Essa representação negativa da conduta feminina que se origina, não gratuitamente, da primeira mulher, fornece ao feminino uma genética perversa, implicando que a mulher é naturalmente perigosa.


Por outro lado, se contestarmos a idéia da falta de sentido na curiosidade feminina, podemos atribuir o pecado original feminino à ambição de se igualar ao divino, podendo os sussurros do animal ser interpretados como o próprio fluxo de consciência da mulher, amadurecido ou despertado precocemente. A associação posterior do animal guardião da árvore à serpente (porque Deus condena o animal a rastejar), mantém a crítica negativa ao feminino, porque aí infere-se que a consciência feminina é ambígua, pervertida, ardilosa, sempre esperando o bote. A serpente também é um animal venenoso, que mata para sobreviver: silenciosa e sutil, ela espera e destrói.


Significativamente, também, o guardião da árvore é frequentemente associado a um animal macho que sussurra no ouvido da mulher. Isso nos oferece uma conotação igualmente negativa ao feminino, que remete a um outro “pecado” – o adultério. Eva foi criada para desposar Adão. Adão era, numa visão pragmática, seu marido, o único macho com o qual ela deveria se relacionar. Se Eva ouve a voz de uma serpente-macho, isso significa que ela não apenas se deixou influenciar, mas também se deixou seduzir. Nunca é demais lembrar que a serpente, ou a cobra, é um animal que frequentemente simboliza o falo, o órgão sexual masculino. Assim, atribui-se ao feminino, além da curiosidade, da ganância e da malícia, também a luxúria, a volúpia – ligada diretamente à voracidade, já que Eva COME do fruto oferecido pela serpente – e uma propensão à deslealdade. O ato de comer, neste sentido, também seria simbólico.


Pode-se perceber, portanto, o mito de Eva como o mito de uma gênese complicada, difícil de explicar e por isso, propositalmente rechaçada, que é a gênese feminina. É possível uma visão positiva do mito de Eva? Curiosamente, sim. Um olhar mais atento pode perceber em Eva uma mulher questionadora, fragmentada, cética, buscando sempre o saber, o desafio e o êxtase – e afinal, por que é que isso é tão ruim? Não podemos esquecer que, antes de qualquer coisa, Eva seria uma criação de DEUS, estruturada a partir da ossatura do HOMEM (de acordo com o mito). Será que isso não confere uma herança de ambigüidade à natureza feminina? Não teria o próprio Criador antecipado isto? È possível que Eva tivesse sido criada exatamente para fazer aflorar a consciência, a maturidade, a coragem, e até mesmo, a diferença entre os sexos? Com o estímulo correto, Eva seria uma líder nata de seu povo. Sabemos, no entanto, que o mito não foi escrito para conferir esse poder a uma mulher. Apenas, na sua ânsia em condenar, acaba nos oferecendo uma oportunidade de esboçar um modelo provocativo e por isso mesmo, digno de admiração da conduta feminina.


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sábado, 19 de dezembro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 7 - Edição Especial



Esta edição, dividida em duas partes (talvez três) será dedicada a três figuras femininas das mais fortes e que postulam grande parte do imaginário criado em torno da personalidade da mulher, sobretudo na cultura ocidental e paternalista. É muito significativo que duas delas possuam o mesmo nome, e que todas compartilhem estigmas de conduta e pensamento. Mas este blog fala de personagens femininas literárias. Então, por que inseri-las? Porque a verdade é que, embora a idéia geral seja de que pelo menos duas delas tenham vivido nos primórdios de nossa civilização – e por “nossa civilização”, entenda-se a civilização ocidental cristã – não podemos afirmar se elas existiram da maneira como são retratadas nos livros da maior obra literária de todos os tempos – a Bíblia Sagrada. Estamos falando, respectiva e cronologicamente de Eva, a primeira mulher; Maria, a Virgem-Mãe; e Maria, a Madalena, discípula controversa de Jesus Cristo.



Primeiro livro a ser impresso na era moderna, é preciso entender que a Bíblia constitui uma série de livros escritos por homens influentes, encarregados de fundar e solidificar os dogmas e preceitos de uma religião monoteísta, capaz de conquistar, pela fé ou pela força, fiéis dos vários credos existentes quando do surgimento do cristianismo. Era preciso viabilizar uma criação estética que servisse como uma base ideológica consistente, como também útil à sociedade que se desenhava, e aos poderes que a representavam. Ora, nenhuma sociedade em formação se estratifica sem um poder conciliador forte, inconteste. A Igreja - católica, protestante, ocidental ou oriental, quaisquer que seja a seita que represente – é e sempre será este a herdeira natural deste tipo de poder. Nenhum governo laico conseguiu unir mais determinado povo do que sua cultura, e sua religião.


Assim, o cristianismo latente precisava de um norte, um guardião de dogmas intricadíssimos, algumas vezes até contraditórios – e ainda assim, capazes de cativar, catequizar o maior número de adeptos. O papel de cada casta, credo, e principalmente, o papel de cada sexo precisava ser definido sob uma ordem mística, agregada em torno de uma figura onipotente, universal. Por isso, o texto bíblico precisava ser sedutor, atrair a maioria e assim, neutralizar a minoria, ou a maioria que não interessasse. Não é preciso dizer que o sexo feminino, neste contexto, constituía uma ameaça ao estabelecimento dessa ordem em formação. O cristianismo, na visão patriarcal incipiente, não precisava de deusas, sacerdotisas, sábias, de personalidades contestadoras. Elas já povoavam grande parte das seitas politeístas que existiam. Era preciso um poder simétrico, igualmente forte.


A mulher já tinha um poder que o homem jamais teria: o da maternidade. A mulher gera a vida, e isso tem uma carga inominável de responsabilidade, poder, como também de erotismo. A mulher atrai o parceiro, intencionalmente: precisa dele para procriar. O ato sexual faz parte do ato de procriação. È o ciclo feminino, o ciclo lunar, o ciclo das marés, que determina as variantes dessa atração que a mulher exerce sobre o corpo masculino. A mulher, portanto, tem uma ligação com a natureza poderosa, mas, sobretudo, perigosa. A mulher é perigosamente útil. Afinal, é preciso perpetuar a espécie e assim, perpetuar também a cultura, os ensinamentos, os dogmas, as regras sociais. Desse modo, a mulher é ao mesmo tempo, um bem e um mal. É uma força que para servir, precisa estar sob absoluto controle. È aí que entra a nossa trindade bíblica feminina. Ou pelo menos, esta é a “leitura” dessa modesta blogueira.


A nossa proposta aqui é considerar que essas mulheres foram construídas, tiveram suas estórias envoltas numa roupagem estética conveniente a determinada corrente cultural. Seriam, neste sentido, personagens. É preciso lembrar que um livro, por mais biográfico que seja, é sempre uma criação, uma seleção de fatos, uma narração de acordo com a mente, a percepção, e o interesse daquele que escreve. Possui, desta forma, um caráter ficcional particular. Aqueles que compuseram a Bíblia não podiam fugir disso. A idéia geral é a de que o “olhar” sobre o qual aquelas estórias foram narradas pertenceria a um ser divino superior, criador de todas as coisas. Mas não é o ser humano a Sua imagem e semelhança? Possuidor, portanto, de um olhar próprio, concedido por essa mesma divindade? Será que é possível abdicar tão completamente de si mesmo? Será que é possível partilhar esse olhar especial de forma que o nosso próprio olhar se esvaeça? Será que é preciso alienar o humano para ascender ao divino? E se fosse? Podemos afirmar que esse era o único espírito do qual aqueles que selecionaram, ou ainda escreveram os livros do Grande Livro, estavam imbuídos?


Responder estas perguntas geraria discussões intermináveis. Não é esse o objetivo. O que queremos é fornecer um ponto de vista, uma leitura mesmo, dessas mulheres conforme elas são descritas na narrativa bíblica. Não é nossa pretensão descobrir a verdade – tudo o que podemos fazer diante de uma crença enraizada, culturalizada, é especular. Além disso, acreditamos em Nietzsche quando ele diz que a verdade é uma construção tão elaborada quanto a mentira. Acreditamos acima de tudo em Deus, isso não é algo que se pode mudar. Apenas o argumento aqui é que o divino é uma coisa, o sagrado é uma coisa, e a religião pode ser outra coisa diferente. É possível pertencer sem abandonar o espírito crítico; como também, só se pode criticar, construtivamente ou não, aquilo no qual se está inserido. Não se pode analisar o que não se conhece. Então, vamos fazer aquilo que já vínhamos fazendo: engendrar a nossa visão, humana, parcial e direcionada para os aspectos em perspectiva neste blog: a mulher, o pecado, a literatura. Sou uma mulher que comeu da árvore do conhecimento, está na minha gênese o discernimento, a aceitação e a revolta. O que nos lembra a personagem do nosso próximo post. Siga-nos.


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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Anjo...



Meu anjo de garras tesas
Cheio da lua dos amantes
Cercado de essência e desejo
Encantado como o beijo
Que me deste antes...

Tens razão...não há pecado
Pois é tênue a luz dos amados
É a rasgada cumplicidade
Explorando a intimidade,
Os segredos encerrados...

Meu anjo de garras ristes
Que te comam as lobas más
Pois o corpo aquém do luar
É um corpo triste
Ressentido da volúpia,
E da fome infinita de amar.

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sábado, 12 de dezembro de 2009

A Letra Escarlate - citações (2)



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domingo, 6 de dezembro de 2009

ELAS POR ELES N. 4 - William Shakespeare (1)



The Dark Lady Sonnets
William Shakespeare (1524 - 1608)

Sonnet 130

My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red, than her lips red:
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damasked, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound:
I grant I never saw a goddess go,
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet by heaven, I think my love as rare,
As any she belied with false compare.

Minha tradução:


Soneto 130

Aquela que eu amo não tem o sol no olhar
Também seus lábios não são tão vermelhos
Se a neve é branca, por que seu seio amorenar?
E se pelos são fios, fios pretos são seus cabelos.
Já vi rosas rubras, brancas e adamascadas,
Mas nunca em suas faces vejo tais flores
E algumas essências são mais adocicadas
Aquela que eu amo não exala tais olores.
Eu adoro ouvi-la falar, mas eu sei ao certo
Que há mais prazer no som de uma canção
Eu nunca vi uma deusa passar de perto
Minha amada, quando anda, estremece o chão.
E no entanto meu amor é tão raro, posso jurar
Quanto qualquer falsa musa que a ela se comparar.

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sábado, 5 de dezembro de 2009

A Letra Escarlate - Citações (1)



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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Anjo...




Versos by Claudinha

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Química


Um olhar, um simples olhar
Uma flecha contra os sentidos
inflada do veneno de amar
rasgando todos os tecidos

Um olhar de chuva, olhar de mar
contra qualquer sorriso triste
transbordando o desejo, o ar
lavando o medo, que insiste

É um olhar de luz, de luar
Um olhar fixo entre os dedos
fazendo o sexo penetrar
revelar os velhos segredos

É um olhar típico do olhar
que estanca o sangue, e a sorte
reiventa o vício, para provocar
em todo o libido, a morte.

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MULHERES QUE PECAM N. 6 - HESTER PRYNNE



A obra-prima de Nathaniel Hawthorne, A Letra Escarlate, é como o proprio narrador faz questão de classificar, uma lenda. Uma historia de principios distorcidos, falsos profetas, aparencias, costumes. Uma historia de hipocrisia. Hester Prynne, a heroina romântica de Hawthorne, é uma mulher que se apaixona por um homem de uma comunidade na Nova Inglaterra e concebe uma menina, fruto dessa relação. Acontece que Hester é casada com Roger Prynne - um médico, pesquisador da cultura primitiva, que desaparece por dois anos e retorna justamente no momento em que a esposa está sendo julgada por adultério, tendo a prova do pecado encarnado no espírito indomesticado da criança, chamada Pérola. Roger Prynne percebe o poder que tem nas mãos pois, se revelar-se como o marido desaparecido, todos terão certeza da traição da mulher e sua pena será a execução. Hester, por sua vez, reconhece o marido na multidão e percebe que está em suas mãos. Desejando se aproveitar dessa vantagem, Prynne assume a identidade do médico Roger Chillingworth - para se manter sempre como a espada sobre a cabeça da esposa, e também descobrir quem é o seu amante. A partir daí, a vingança do marido ultrajado, a tortura psicológica, a chantagem contra a honra e reputação de Hester. A sociedade puritana dos primórdios da colonização da America do Norte é o cenário sócio-político desta história que fascina e prende o leitor do inicio ao fim.
Roger Prynne manda a esposa Hester sozinha para a Nova Inglaterra, e parte para suas pesquisas. Após dois anos esperando o marido, Hester já está integrada aos valores e costumes da comunidade que a cerca; todos a consideram viúva, já que o marido nunca dera noticias. Quando se descobre grávida e com o marido desaparecido, Hester é apontada como suposta adultera (já que não se tem certeza se o seu marido está morto) e estabelecida numa cabana afastada na floresta - e aqui encontramos a primeira referência ao aspecto lendário da trama. A mata, o bosque, ou "the woods", dentro da cultura anglo-saxonica, é o local do desconhecido, do proibido, ou do demoníaco. Neste sentido, Hester se ambienta num cenário suspenso da realidade, onde o certo e o errado não estão bem definidos - ou acredita-se não existirem. 
Quando o adultério é revelado, além de não se saber se Hester seria casada ou viúva quando o cometera, não se sabe também a identidade do seu perpetrante, isto é, o pai de Pérola. Na sociedade puritana, a pena para adultério é a morte; mas, uma vez que não se tem certeza do delito, a pena máxima não pode ser imposta. É então que entra em cena o emblema mais relevante da narrativa. Hester é condenada a usar uma espécie de broche com uma Letra "A" Escalarte pendurado no peito. "A" de adúltera; mas, segundo aprendemos com Hawthorne, A de intolerancia, de pobreza de espírito. As principais perguntas de Hawthorne são: qual o verdadeiro pecado? O olhar que enxerga a natureza humana deve estar carregado de essência, ou de aparência? Quais os valores que determinam o que é certo e o que é errado? Essas questões se incrementam ainda mais a partir do momento em que Hawthorne sinaliza quem é o homem que fornicara com Hester Prynne. Não coincidentemente, é Roger Prynne, na pele do médico Roger Chillingworth, que descobre que o amante da adultera Hester é o lider religioso local, Arthur Dimmesdale.
A relação entre Hester e o Reverendo Dimmesdale é uma iconização de papéis invertidos. Dimmesdale é um homem em quem os valores morais estão profundamente enraizados, até por força de sua função evangelizadora, e de sua liderança espiritual e política como representante máximo da Igreja Puritana na região. A sua vaidade é a sua reputação, a sua segurança é a sua respeitabilidade. Hester vem desestabilizar tudo isso - o papel da heroina é quase místico, ela é a tentação, o impasse. Sua altivez e beleza o impressionam; sua inteligência o fascina. Acima de tudo, sua firmeza de principios - que não necessariamente representam os principios da comunidade da qual participa. A integridade de Hester faz dela o ponto forte do casal; Dimmesdale, receoso de perder sua posição junto aos homens e a Deus, não assume nem para si mesmo suas emoções, não considerando puras as suas reações para com uma senhora casada.
Assim, temos o homem fraco e a mulher forte - e entre eles, a consumação do amor proibido no escuro da floresta, no leito de Hester. O pecado de Hester, no entanto, não é tanto o adultério, mas o que a descoberta deste provoca nas estruturas aparentemente estáveis daquela comunidade. Os pilares morais são chacoalhados; os preconceitos velados são expostos à luz do dia. Roger Chillinworth, que passa a clinicar usando o expertise adquirido pelas suas pesquisas, é chamado carinhosamente pelo narrador de "sanguessuga". Ele faz questão de deixar claro para Hester que pode expô-la a qualquer momento, e esta é a representação do poder masculino, patriarcal, que Hawthorne soma à sua lenda. É um poder sanguessuga, desgastante, pulverizador da virtude e do vicio, distorcendo ambos os conceitos. O amor de Hester e Dimmesdale tem uma fragilidade criada pelas limitações dos proprios personagens - ele, incapaz de renunciar à sua função de pastor; ela, incapaz de se libertar da sua funçao de esposa.
A letra escarlate se torna um símbolo, e um dilema, e uma representação da falibilidade humana. Naquela comunidade porém, há um símbolo ainda maior - a falibilidade e a leviandade da mulher. Hester é hostilizada, e sua filha Pérola frequentemente associada à criaturas místicas - o elfo, o demonio, o espirito selvagem. A justiça cega dos homens de bem concede a Hester o beneficio da delação premiada: para se livrar do estigma, ela deve dizer o nome do amante. Mas ela não diz. Sempre fiel a si mesma e ao homem que deve proteger dela, dele mesmo, daquela comunidade intolerante. Permanece calada, andando altiva pela rua com a criança maldita nos braços, portando a Letra Escarlate -  o símbolo da sua coragem, e também um modo de destacá-la das mulheres convertidas ao ostracismo e à submissão.
O sacrifício e a exposição de Hester não devolvem a Dimmesdale a dignidade, tão pouco a coragem. O Reverendo se esconde cada vez mais atrás da moralidade que profanara, e se flagela fisicamente. Só se redime no fim da historia, quando revela para toda a cidade que ele é o pai de Pérola, e morre do coração nos braços de Hester. Mais um elemento da lenda - a morte. O anti-herói deve morrer para se salvar. O sofrimento da heroina é parte de um ensinamento, de uma lição de vida. O coração é o simbolo da essencia, em detrimento da aparencia de normalidade que se tenta a todo custo manter.
Na conclusão da história, o narrador nos informa que Roger Chillinworth/Prynne morrera um ano depois da morte do Reverendo, deixando sua fortuna para Pérola. A riqueza de Hester e Pérola rende as duas uma mudança de tratamento na comunidade - impulsionada por uma mudança de interesses. Mas, mesmo assim, as duas vão embora. E tudo que se sabe delas são histórias, boatos. Pérola se torna quase uma figura etérea, uma fantamasgoria daquela sociedade. Até que um dia, uma idosa Hester retorna à Nova Inglaterra, sozinha.
Do alto de sua vivência, Hester se torna uma conselheira daquela comunidade, uma defensora das oprimidas, rechaçadas, das outras letras do alfabeto escarlate daquela comunidade. E por sua diferenciação, nunca deixou de usar o broche que lhe revelou. Impôs respeito por uma integridade, por uma decência completamente atípica, especial. Ao morrer, leva consigo a letra "A" - a primeira, a única pecadora universal - e por isso mesmo, a lenda.





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