PECADORES CONFESSOS...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

As pecadoras de Nelson Rodrigues (episódio final) - "Senhora dos Afogados" e a tragédia do desejo feminino



Em Medéia, de Eurípedes (486 - 406 a.C),  o desejo por esclusividade dá vazão a um instinto sombrio, uma primitividade aliada a um estado semi-divino, com um conhecimento profundo da magia de Hécate (deusa das feiticeiras). O resultado desse estado animalesco é a destruição de qualquer promessa de continuidade. Medéia, para quem não se lembra, é aquela que mata os dois filhos para se vingar do marido que a traíra. Eurípedes personifica a tragédia do infanticídio na pele de uma mulher atormentada, ciumenta, dissimulada, manipuladora, e violenta.
A monstruosidade do mito de Medéia paira, de certa maneira, em Senhora dos Afogados, tragédia escrita por Nelson Rodrigues em 1947 e censurada pela ditadura um ano depois. Nessa peça. além de distorcer novamente os alicerces da família, Nelson Rodrigues cria para o público um monstro do desejo exarcebado, na forma de uma mulher aparentemente fria, recatada e sóbria, que traz uma profunda e incetuosa paixão dentro de si, capaz de inspira-la na atrocidade maior - o assassinato de seu proprio sangue.
A trama gira em torno do desejo absoluto de duas personagens femininas, mãe e filha. A paixão de Moema é o proprio pai. Filha da voluptuosa estrangeira Eduarda e do manipulador Misael, Moema sofre com o proprio egocentrismo - deseja, a todo custo, a atenção do pai apenas para si. Tem problemas de relacionamento com a mãe - contudo, tem uma identificação sombria com ela: as duas movem as mãos sempre da mesma maneira e sempre ao mesmo tempo. A mão aqui simboliza a perpetuação do ato, sem o previo julgamento. A mão que bate, apanha, acusa, previne, mata. A mão da mãe que se move no corpo da filha, e vice-versa. É um exercício de poder, de manipulação, de castigo.
Com efeito, pelas mãos de Moema se dá o pecado da morte premeditada - para se fazer única aos olhos de Misael, Moema afoga as duas irmãs mais novas - Dora e Clara - no mar. O que nos leva a outro símbolo importante na peça de Rodrigues - o mar é citado como um dos personagens da peça, representando a imensidão, o infinito, o absoluto. Aquele contra o qual não se pode lutar. O mar atrai as meninas para a morte, atrai Moema para a consumação de sua natureza fundamental, o dom de matar.
Além do pai, outra figura masculina ronda a casa de Moema - seu noivo, um homem misterioso, descrito por Misael como o "deus das mulheres da vida": morador do cais, tem o corpo tatuado com nome de mulheres e parece ter uma relação de cumplicidade com o mar absoluto: "quando ele chega, Misael, eu sinto cheiro de mar nos meus cabelos", diz uma fascinada Eduarda. Mas o noivo tem outro misterio: a sua propria origem. Ele seria filho de uma amante de Misael, uma prostituta supostamente assassinada por ele a golpes de machado. O noivo, portanto passa a ter uma identidade: é filho bastardo de Misael. E ainda sustenta que a mãe, ao morrer, foi morar numa ilha no meio do mar, o inferno das prostitutas mortas, e que voltara da ilha para ver Misael. O noivo é a encarnação do mar - sedutor, manipulador, vingativo, fatal.
Não à toa, o noivo atrai, de formas distintas, as duas figuras femininas mais fortes da trama. Enquanto Moema se vê arrastada para o poder semi-divino do noivo, Eduarda sente-se sexualmente atraída por ele. O "amor" de Moema pelo noivo é assexuado, frio, beirando as amarras do respeito - representado no unico contato físico entre os dois, quando o noivo beija as mãos de Moema. Ambos tem ambições diferentes no noivado: Moema esconde atrás do noivado o seu delírio incestuoso; e o noivo usa a propria irmã para ter acesso ao pai, objeto do seu ódio.  A vingança do noivo é seduzir Eduarda e tornar-se amante da esposa de seu pai. O que, poderoso e absoluto, consegue, carregando Eduarda para fora da casa do marido.
Moema vê na traumatica separação do pai uma oportunidade para realizar o desejo de se unir a Misael como filha, como mulher, e como assassina. Ela usa o seu crime para estreitar sua afinidade com Misael, já que ele também matara - confessa ao pai o assassinato das duas irmãs. Misael, embora chocado, sente-se amparado, ligado a alguem com o mesmo estigma que ele. Moema então procura convencer o pai a matar Eduarda já que ela o traíra. E procura tambem incitar o odio do sensível Paulo, seu irmão, contra o noivo-irmão bastardo. Assim, poderá finalmente ser a única mulher da casa. A obsessão de Moema é ser o mar - absoluto e poderoso, ao redor do qual os mortais gravitam. É o delírio dionisíaco, uma paixão sem limite, sem restrição moral.
Mas o mar, apesar de infinito, é singular. Profundamente só na sua vastidão. E este é exatamente o final de Moema. Misael, influenciado pela filha, segue Eduarda até o local onde ela está com o noivo e, enquanto este é apunhalado e morto por Paulo, Eduarda é arrastada até o cais, tendo as mãos decepadas pelo marido. Castrada em seu poder, Eduarda é tragada pelo mar e sangra até a morte, caindo com os braços estendidos na praia. Sua imagem sobrepoe-se à da filha no espelho, mas as duas perdem suas identidades, pois sem as mãos de Eduarda, os movimentos de ambas não coincidem mais. Quando a mãe desaparece, a filha também se anula. E a imagem de Moema deixa de refletir. A castração do poder feminino na peça representa a castração da monstro que provoca o hiato moral dos demais personagens. É a estratégia clássica de crime e castigo, junto ao código chauvinista da defesa da honra. A adultera e a tarada precisam desaparecer. O pecado precisa ser diluido em choque e piedade.
Misael, arrasado e arrependido, morre no colo de Moema. Esta, então, termina o ultimo ato completamente sozinha no palco, abandonada por todos os outros personagens - e com o poder que pedira, representado nas mãos das quais tenta agora se afastar.


Senhora dos Afogados é uma tragédia classica, à moda rodriguiana. Com todos os elementos teatrais da tragédia grega - o infinito versus o individuo, a falha moral, a catarse e o distanciamento; e estruturalmente, o palco dividido, o plano dos personagens, o uso da música através do coral das prostitutas, e o coro (ou o senso in-comum da história) na pele do grupo de vizinhos fofoqueiros e suas máscaras horrendas. O toque de Nelson Rodrigues, neste caso, é o enfoque na monstruosidade, na inevitável obsessão dos personagens, e não no conflito moral - este na verdade, não chega a influenciar a escolha fatal das protagonistas femininas da peça; como também a simbologia mítica das mãos, do mar, e da máscara - no coro rodriguiano, o rosto dos atores é a máscara, e as máscaras que eles colocam é que são os rostos verdadeiros. Todas as máscaras são feíssimas, ou então não seria Nelson Rodrigues.
Há ainda uma serie de referências canônicas neste texto de Rodrigues, além da Medéia de Eurípedes, que vale a pena comentar. A morte de Eduarda, à beira da água com as mãos cortadas, provavelmente alude a uma cena de Titus Andronicus, de Shakespeare, onde a filha de Titus é estuprada e mutilada na beira do lago. As Bacantes do mesmo Eurípedes parecem presença forte na construção dos personagens femininos da peça, além das protagonistas. E a travessia para  a ilha das prostitutas mortas guarda uma leve semelhança ao mito grego do barqueiro Caronte, que levava as almas dos mortos até as portas do inferno - Paulo chega inclusive a dizer que encontrou um homem num barco em mar alto, enquanto procurava o corpo da irmã Clara. As referências ao canone e ao clássico se acumulam e se misturam ao lirismo e à cuidadosa escolha de palavras do texto. Mas tudo isso, é claro, combinado à visão ferina e ao estilo provocativo que marca o trabalho do autor maldito Nelson Rodrigues.
Poderíamos falar ainda de muitas outras mulheres transgressoras, fortes, manipuladoras e pervetidas que habitam o universo rodriguiano. Mas os quatro exemplos sobre os quais falamos aqui já dão conta do caminho percorrido por Nelson para alcançar a profundidade absoluta de caracterização das personagens. Entre a incipiente Lídia e A mulher sem pecado e a trágica Moema de Senhora do Afogados, e até depois destas, há uma série de outras personagens que, como dizia Rodrigues, "vive[m] a vida que devia ser a nossa; a vida que recusamos". E  é com o aperitivo do lado pecador destas quatro personagens que encerramos a exposição da rajada de monstros fêmeas de Nelson Rodrigues.

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O que voce acha disso? (já dizia o autor maldito...)

Nelson_Rodrigues-Capa_Veja 

A ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. (...)E, no teatro, que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los.

Nelson Rodrigyes
(1912-1980)

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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SOLITARY BLUES


Estou aqui
Com meus primeiros passos
Prestes a me enganar
Achando que você
Pode estar em algum lugar
remendando sua asa quebrada
Como alma desenganada
que não pode voar

Me deixando assim
No meio dos cacos
Só com a minha coragem
Minha malandragem
Meu dom de sonhar

Com você
Com um minuto de paz
Que não volta atrás
Com a dor e o riso
Com um aviso antes de ir
E ja´nem me serve fugir
já nem tento ignorar
Não adianta chorar
Só me resta mentir.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

HIPNOSIS


Abafo entre os dentes
a memória dos teus beijos,
da minha pele entre os teus dedos
arranhando o chão, as paredes…
Afasto do pensamento
teu desejo lívido, insatisfeito
sempre o teu gozo, sempre o teu jeito
pelo inferno do corpo adentro…
Encerro meu movimento
nos teus lugares,
no teu tempo…
nos teus olhares me reivento
nao te procuro, mas te entendo
é um fogo puro a que me rendo…


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sábado, 14 de agosto de 2010

CAMILA

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Ela apareceu na cozinha, pronta para o abate.
Ele deu tres pulos pra trás. O que era aquilo? Onde estava a menina que conhecia desde o primário, que achava um absurdo mini-saia e unha feita?
Foi a primeira coisa que notou, unhas vermelhas como sangue de carne crua. Viu também os cabelos que ela nunca soltava caídos até os ombros; O batom vermelho em riste, como as unhas.
E depois, bem depois, notou o vestido.
Parecia inteiramente tingido de vinho tinto. Um salto de luz diante da pele clara.
E ainda tinha aqueles olhos agora mais azuis que a noite, olhando-o fixamente. Por que?
****
Parecia uma maré alta. Ou uma febre. Não sabia bem.
Quando olhou nos seus olhos, percebeu que ele também não sabia.
Não importava. Precisava, por um momento, saber como era.
Ser olhada. Desejada. Ou pelo menos, ser capaz de surpreender.
Foram tres anos de uma vida que ela pensava que queria. Camila tinha essa sensação de que tudo passou depressa, sem nenhum sentido, sem que ela pudesse captar o segundo em que tudo, de repente, ficou completamente sem graça.
Ou será que sempre teria sido?
Lembrava de como ela olhava as meninas na escola. Pintadas, arrumadas, perfumadas. Lembrava dos meninos, babando feito lobos. Os hormonios inundavam os corredores. Não havia mãos, nem bocas nem pernas suficientes.
Mas ela nunca fora parte daquilo.
Era aquela pra quem todos torciam o nariz. O patinho feio. O nerd. Na verdade, nunca deixaram que ela fosse outra coisa. Não com aqueles óculos horriveis…mas mesmo assim, imaginava como era usar cores em todo lugar. Impressionar, estontear, seduzir. E como queria ser como as meninas da escola!!!
Por muito tempo achou que não podia. Depois do casamento, achou que não devia. Mas estava errada. Agora, diante do marido, Camila sabia que tinha um poder inenarrável de ser diferente, especial. De ser o que quisesse. Ele parecia não entender. E até o fim de semana passado, ela também não entendia.
Mas a festa de vinte anos da formatura lhe fez muto bem.
Precisava rever todo mundo, sem os óculos, de salto, de batom e com a bela máscara dos bons tempos…que graças a Deus não voltam nunca mais!
O marido não pode ir, embora fosse da mesma turma. Os outros nerds também não foram. Mas não precisava tanto assim revê-los.
Em vez disso, viu o Dino. Gostoso como sempre. Solteirissimo. Um charme. E não tirava os olhos dela.
Foram o sábado e o domingo mais surpreendentes da sua vida. Dino fez questão de enterrar o nerd dentro dela, de uma vez por todas.
E agora, nesta segunda-feira, tinha que enfrentar o marido, com um olhar incrédulo de quem estava vendo um ET.
Será que ele preferia mesmo a Camila de antes?
Só tinha um jeito de saber.
“Voce não gostou?”
“Não…quer dizer…é que…não sei. Voce está diferente. Cabelo, unha, maquiagem. Voce nunca ligou pra isso! Tá bonita, mas não parece voce mesma.”
Suspirando, Camila corrigiu.
“Não querido, essa sou eu. Essa era a Camila que eu via, quando olhava no espelho.” E passou por ele em direção à porta.
“Onde voce vai?”
“Procurar quem goste do vestido.”
E resoluta, bateu a porta, sem olhar pra trás. Definitivamente, não queria nem nunca quis aquela vida.


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DISCLAIMER



O vídeo mostrado no artigo sobre Bonitinha, mas Ordinária vem da última versão da peça para o cinema, filmada em 2008 e que estava com estréia prevista para junho de 2009, mas um ano depois ainda não chegou aos cinemas. O filme, cujo banner voce vê acima, foi dirigido por Moacyr Góes e traz grande elenco, além da estreia da atriz Leticia Colin (que tinha apenas 18 anos na época) no papel da ardilosa Maria Cecília.  Os motivos pelos quais ainda não estreou são mistério para mim. Mas pelo aperitivo do post abaixo, já sabemos que o roteiro veio fortemente baseado no original de Rodrigues, mas adaptado para realidade do sec.XXI - afinal, Nelson Rodrigues nunca foi a um baile funk. Mas essa talvez seja a única licença poética do filme. Vale a pena conferir, portanto, se algum dia o filme chegar aos cinemas.

Nelson Rodrigues, 30 anos após sua morte, ainda expõe ao público suas próprias perversões e ainda provoca reações extremas. Suas mulheres ainda pecam mais que todas as outras. Seus monstros ainda não passam pela goela abaixo. Mas aí, nem era a intenção dele mesmo...

Já volto.


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA - A perversão de Maria Cecília

video

Maria Cecília, a primeira vista, parece uma patricinha. A menina que ainda não conhece a vida. A filhinha do papai - “tão pura que nem alma tem”, como diria o proprio. Timida, recatada, inocente. Inocente demais.
Não podemos esquecer que Otto Lara Rezende, ou Bonitinha mas Ordinária é uma peça de Nelson Rodrigues. E Maria Cecília, mais uma da galeria de personagens polêmicos femininos do universo rodriguiano. Assim, nada é o que parece. E Maria Cecília, na verdade, não é nada, mais nada mesmo, do que aparenta ser.
Filha de um rico empresario, Maria Cecilia tem cara de anjo e jeito de menina. Torna-se noiva por imposição do pai, depois de ser atacada por cinco crioulos num lugar ermo. O noivo, Edgard, é o personagem cujo pathos é o principal eixo da trama. Um homem cuja moral está em constante desiquilibrio, dividido entre a ambição, o desejo e os proprios valores.

Werneck, o pai da moça, é o grande corruptor – compra casamentos, virgindades e violações de toda especie – inclusive sexuais. Tenta comprar Edgard para Maria Cecilia com um cheque voluptuoso que se torna o símbolo do desenvolvimento moral do personagem – rasgando o cheque, Edgard escolhe a retidão de caráter; se descontar o cheque, corrompe-se. Ao cheque junta-se uma frase repetida à exaustão por todos os personagens da peça, e atribuída ao jornalista Otto Lara Rezende (daí à sua menção do titulo da obra): “o mineiro só é solidário no cancer”. Traduzindo: se a farinha for pouca, o caráter vira pó, e o sofrimento do outro passa a ser preferivel ao seu. O “cancer” se solidariza na dor: a dor individual que suprime a dor do outro. Ou nas palavras de Edgard, “se voce não for canalha na véspera, será canalha no dia seguinte”.
Nesse ritmo, Edgard oscila entre o carater e a canalhice durante os tres atos da peça. E essa oscilação também toma corpo na forma (ou nas formas) de Maria Cecilia e de uma outra mulher, que funciona como seu dopler: Ritinha, vizinha de Edgard, e por quem este é atraído. O ingrediente na construção moral das duas personagens é o mesmo: a violação sexual, ou a maturidade forçada. Maria Cecilia, como já dissemos, alega ter sido estuprada por cinco homens; e Ritinha, por outro lado, é uma prostituta que se passa por professora num colégio de freiras. A principio, a mentira e a inocencia parecem estar com Rita e Maria Cecília, respectivamente. Mas, em Nelson Rodrigues, nada é o que parece.
Ritinha conta a Edgard que se tornou prostituta para sustentar a família. Ela conta que a mãe fora acusada de desvio de verbas, e que ela foi atacada por um dos responsáveis na apuração do caso,  que exigiu o abuso sexual em troca da inocencia de sua mãe. A mãe, é claro, não foi inocentada, e Ritinha teve que trabalhar para repor a soma roubada. Escolheu a unica profissão que dava muito dinheiro e rápido. No melhor estilo da Luciola alencariana, a violação de Ritinha é produto da necessidade, e a consequente prostituição um meio de sobrevivência. Sem pai presente e com a mãe desempregada e desequilbrada, Ritinha sacrifica a sua inocencia para botar comida na mesa e dar um futuro às irmãs mais novas. Todo o seu esforço prova ser inútil quando Werneck consegue atrair as duas irmãs de Ritinha para uma orgia onde a virgindade delas é a atração principal. Ritinha tenta salvá-las, mas as três acabam violentadas pelos vários homens presentes. A submissão compulsoria do feminino ao poder do macho, na historia de Ritinha, seguem vertentes distintas e igualmente trágicas: o sexo primeiro por imposição; e depois por (falta de) opção.
A historia de Maria Cecília já é bem diferente. Aprendemos, no  final do terceiro ato, que Maria Cecilia convenceu o cunhado Peixoto (que é apaixonado por ela) a contratar cinco homens negros para violentá-la. “Ela pediu para ser violada!”, grita um exasperado Peixoto, ao contar a verdade para Edgard.  Maria Cecilia queria que Peixoto assistisse o estupro, e a ouvisse gritar o seu apelido de infância – cadelão. Racismo, sexismo, chauvinismo: tudo explorado numa única cena. Rodrigues descreve com exatidão a mesma historia, em dois pontos de vista. A primeira na voz inocente e mentirosa de Cecilia, quando ela conta a Edgard a sua versão sobre o estupro; a segunda na voz perniciosa de Peixoto, quando este revela toda a verdade. O que fica claro, em ambos os casos, é a relação entre o subjugo sexual e o poder. Na versão de Cecília, ela é dominada; na versão de Peixoto, Cecília domina, paga para ter a experiencia sexual que bem entende, explora a força do macho que lhe atrai, comprando o proprio prazer.
Não é preciso dizer qual versão é a mais fácil de acreditar, porque é a mais proxima da cultura misógina que permeia o enredo: a mulher é tão frágil quanto volúvel e precisa ser protegida ou subjugada. Por isso, Cecilia circula impune e praticamente incógnita por quase toda a trama, manipulando todas as figuras paternas: o pai, o cunhado, o noivo. Acaba morta pelas mãos de Peixoto, com o rosto desfigurado por uma garrafa quebrada. É a beleza, simbolo do poder feminino na peça, sendo destruida pelo ódio e pela violência, atributos essencialmente masculinos.
Temos nessas duas mulheres, portanto, o contraponto entre o pecar por necessidade e o pecar por promiscuidade. Mas ao contrario de Maria Cecilia, Ritinha (a Luciola de Rodrigues) encontra sua redenção em vida, ao fugir com Edgard para renascer como esposa, namorada e amante de um homem só. Edgard escolhe a retidão e rasga o cheque. E o sol nasce para o casal, prenunciando uma nova realidade. O desaparecimento de Cecilia e o renascimento de Ritinha são duas faces de uma mesma moeda: a satisfação sexual como parâmetro para mensuração do poder da mulher no contexto machista desenvolvido para a trama. Bonitinha, mas ordinária é um titulo que denota toda a cornofobia masculina, bem como todo o entendimento tendencioso sobre a perversão que parte da mulher. Certa ou errada, Maria Cecília fez o que quis; o resto é dissimulação e silêncio.
 

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sábado, 7 de agosto de 2010

0702-flip-01 

Encerra-se amanhã a 8a. Edição da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP 2010. Excelente programa para comemorar o Dia dos Pais. Lazer e Cultura num dos recantos mais bonitos do Rio de Janeiro. Fica a dica. E Feliz Dia dos Pais para todo mundo!

Se voce quiser saber mais sobre a FLIP 2010, clique aqui.


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terça-feira, 3 de agosto de 2010

HINO A MULHER EMANCIPADA...

Essa música sozinha dava um artigo, expondo um certo tipo de olhar feminino sobre as relações amorosas. A mulher deste clip é independente, resolvida a não se envolver profundamente. E é claro, sexualmente promiscua. Há dois tipos de discursos na musica - um em primeira pessoa, onde a mulher tenta repetidamente dispensar o amante, e outra em terceira pessoa, como um narrador onisciente que fornece a sua visão da personalidade da heroína. Assim, temos uma mulher que assume o seu desejo e o impõe. Escancaradamente inspirada em Madonna, Lady Gaga se supera em se transformar num produto pop. Andy Warhol teria orgulho dela. Mas a musica vale uma análise. Talvez eu escreva uma qualquer dia desses...





(Eu sei que nós somos jovens
E que você pode me amar
Mas eu não posso mais ficar
Assim com você, Alejandro)
 

Ela tem as duas mãos no bolso
E ela não vai olhar para voce
Ela esconde amor de verdade nos bolsos
Ela tem uma luz em volta dos dedos e de você


Voce sabe que eu amo você
Atraente como o México, aproveite
E nesse ponto eu tenho que escolher
Nada a perder


Não chame meu nome
Não chame meu nome, Alejandro
Não sou sua mulher
Não sou sua mulher, Fernando
Não quero beijar, não quero tocar
Só fume um cigarro e vá
Não chame meu nome
Não chame meu nome, Roberto
Alejandro, Alejandro...
(pare, por favor, me deixe ir,
Alejandro, deixe-me ir)


Ela não está magoada, é só um bebê
Mas seu namorado está arrasado, arrasado
Brincou com o fogo que o queima
Agora terá de apagar, apagar o estrago


Não me chateie, não me chateie, Alejandro
Não chame meu nome
Não chame meu nome, adeus, Fernando
Não sou sua mulher
Não sou sua mulher, Alejandro
Não quero beijar
Não quero tocar, Fernando
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domingo, 1 de agosto de 2010

MARIANA



Ela tinha aquela idade em que todos os dias são muito quentes e nenhuma hora passa de verdade. A pele sempre fresca, a boca úmida, sempre entreaberta; os olhos pretos cor de fumaça, com um apetite que não sarava nunca. Ainda usava saias curtas, que eram quase uma extensão das fraldas que eram só metáfora, mas ainda a perseguiam. A flor da idade. Nada nunca é simples.

Andava meio devagar, como que um segundo atrás do mundo. Prestava atenção em tudo. Tinha miçangas verdes nos cabelos e as tranças por vezes a incomodavam; mexia nervosamente as mãos, na cara, no nariz, abaixava a saia, para logo depois a levantar, até quase no meio das pernas.

Era assim, ansiosa e distraída. E atenta, mas só nas pequenas coisas. Aquelas coisas que as meninas de treze anos acham importante: porque os pelos, os seios, a blusa molhada de suor insistente, e esse calor que vinha de dentro? E porque fulaninha beija de boca aberta? E a cicraninha usa sutiã tamanho M!? E porque os verbos são tantos, e há tanto o que falar nas festas, nos ensaios, nas praças de alimentação...

Aos treze tudo é questão e exclamação. Tudo é sensação. Mariana sabia bem disso; quando andava sozinha assim, a sua cabeça era um enorme ponto de interrogação. E as pessoas...as pessoas bem, se não tinham a sua idade talvez nem importassem muito. Se tivesse a idade de seus pais, não importariam mesmo. Pais não entendem. Pularam dos 10 para os 20 sem escala, Mariana pensa. Desde quando se lembra, sua mãe tem 32, e seu pai tem 35. Pais e mães nunca têm 13 anos junto com a gente, isso é mal.

Assim vai Mariana, pensando na vida com seu andar triste, a saia rente aos quadris, os dentes cravados nos lábios como se comesse chocolate. Saiu de casa depois do almoço, fez um bocado de fofoca com as amigas, e estava voltando pra casa muito mais tarde do que a mãe podia aceitar. O celular tocou umas cinco vezes. Volta pra casa menina! Sempre o mesmo grito. Já vou, mãe, sempre o mesmo desdém. E porque a mãe falava sempre do mesmo jeito de... mãe? Demorou mais, só pra ela aprender.

Gozada essa palavra, aprender. Mariana pensa, minha mãe tem que aprender. Mas ela também precisa aprender. Precisa de experiência. Aos treze, a gente só pensa que tem razão; A gente pensa, e dá um monte de voltas. Parece que tudo gira em volta da gente, mas não é assim. Não é simples assim.

Mas Mariana não sabe disso. E por isso ela anda devagar, um segundo atrás de tudo, deixando tudo pra trás. Andava como se o tempo fosse um pé depois do outro. E enquanto isso a noite caía, a rosa do céu era rubra, depois azul, e o vento era mais gelado e a lua parecia maior...

Então um barulho. Alguma coisa que não tinha nada a ver, que não devia estar ali. Alguma coisa forte, uma batida no chão, um ritmo. Parecia distante, ou eram só seus pensamentos? Não, a lua estava distante, o dia também. Seus sentimentos, suas perguntas, agora não valiam, estavam num lugar muito longe dentro dela, e ela também ainda estava longe, muito longe de casa...

Olhou em volta, mas que rua era aquela mesmo? Ela sabia, talvez. Olhou ainda mais. Não era nada, pensou. O lugar estava meio escuro, meio deserto, mas já estava mais que de noite e, bem, por que algo tinha que acontecer?

Então outra vez. Mesmo barulho, um som ecoando, mais forte que antes. Mais forte, mais vezes, mais perto. Sim, muito mais perto. Apertou o passo. Já não gostava tanto de andar devagar, já não queria ensinar mais nada à mãe. Não queria mais demorar.

Quanto mais rápido ela andava, mais perto ela sentia. Insistente, firme, mais perto e mais e mais...

Já não olhava pra trás. Não precisava. O ar quente parecia rondar seu rosto, seu pescoço, e o ar frio rodeava suas pernas, e seus braços arrepiavam como se morresse de frio, e seu corpo tremia; já nem pensava mais. Aos treze tudo era sensação. Sensação, sentimento, e às vezes também medo. Mariana tinha treze. Apenas treze, mas será que já era hora?

Precisava de experiência. Minha mãe sabe, pensou. Eu só faço perguntas. As meninas falam. Mas e aquele barulho? E a tremedeira, e a imaginação, e o medo? Então era assim? Alguma coisa que vem do nada?

Não, as meninas falam que não. Falam do beijo, o beijo é bom. Tem o calor e o frio, mas e aquele barulho? As meninas não falavam do barulho. Não, não devia haver barulho, nem coisas estranhas na rua de noite. Mas então, que diabos era aquilo?

Resolveu parar. O barulho continuou um pouco mais; e depois, parou, de súbito. E o ar quente circulava por seus ouvidos, e o ar frio lhe cobria as mãos e os pés, e ela tentava pensar, e de repente foi estúpido parar, e ela tenta andar de novo, mas uma mão forte a segura pelos ombros e...

“Mariana?”

Era o seu nome. Uma voz muito familiar.

“Mariana, sua mãe está louca atrás de você! Já ligou pra todas as suas amigas. Porque você não atende o celular? Andando sozinha de noite a essa hora, parece maluca...”

“Pai?”

Eram passos. Isso ela já sabia, bem no fundo da sua cabeça de flor. Mas então, o resto...que alívio! Mas, que droga!

Foi embora pra casa. Seu pai ainda falou por todo o caminho sobre o perigo da rua, sobre ela ter treze e não saber coisa nenhuma da vida, e que ele a tinha achado, mas e se não tivesse?

Mariana afastou mais uma vez suas miçangas verdes da cara. Não agüentava mais aquela cor. Mas não sabia pra que cor trocar. Quem sabe amanhã, ou depois. Nunca se sabe. 

E a noite escura ficou pra trás. Afinal, ela tinha apenas treze. Aos treze tudo se esquece. Não era simples de entender, nunca é. Mas também não era hora de pensar. Não era hora de aprender, Mariana pensa. Não era hora. Tudo a seu tempo.

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