PECADORES CONFESSOS...

sábado, 1 de maio de 2010

Mulheres que pecam n. 11 - A maníaco-depressiva Blanche Dubois


"A experiência é uma professora brutal. Mas voce aprende. Nossa, como aprende..."
             C.S. Lewis (1898-1963), escritor irlandês


Blanche Dubois, personagem principal da peça Um bonde chamado Desejo (1947), do dramaturgo americano Tennessee Williams (1911-1983), é uma mulher que sofria nos anos 40 de um mal que hoje chamamos de depressão profunda, com episódios extremos de fuga da realidade. Blanche é uma mulher madura, viúva (o marido se suicidara muito cedo), enfrentando graves problemas financeiros e que, por tudo isso, não suporta ser quem é. É uma mulher que vive, basicamente, do passado - quando era jovem, cobiçada, frequentava grandes rodas sociais, e podia ostentar sua beleza e a riqueza das fazendas do Sul dos Estados Unidos, onde nasceu. No tempo presente da peça, esse tempo se foi há muito. E o que Blanche procura, no inicio da historia, é um lugar onde ela possa ao menos fingir que tudo está exatamente como antes.
Esse lugar, ela decide, é um suburbio de New Orleans - mais precisamente, o apartamento onde a sua irmã mais nova Stella mora com o marido Stanley Kowalski - um homem de origem estrangeira, sem nenhum refinamento, operário, urbano - ou seja, o oposto completo de Blanche. E o que dizem mesmo dos opostos?
Por outro lado, Blanche não aceita como uma mulher com a educação que Stella recebera consegue se relacionar com um homem em estado bruto, como Stanley. Ao mesmo tempo, Blanche se ressente do fato de que a irmã seja capaz de encontrar a felicidade se adaptando a uma realidade que ela, Blanche, despreza. Mas o fato é que, com todo seu chauvinismo, Stanley nutre por Stella uma paixão animalesca, um desejo que é recíproco e que parece ser a única coisa que o casal tem em comum.
Um bonde chamado Desejo é, portanto, uma porta de entrada para várias vertentes. É a metáfora do desejo reprimido entre os cunhados Blanche e Stanley; é o símbolo do transporte principal de New Orleans na época retratada na peça; é o caminho escolhido por Blanche até o seu desejo de manter aparências; e é, literalmente, Desejo, o nome do bonde que leva Blanche Dubois à casa dos Kowalski. É tudo muito bem emaranhado por Williams - o passado nebuloso de Blanche, o seu estranhamento com um ambiente completamente diferente do seu e sobretudo, o misto de atração e incompatibilidade entre ela e o marido da irmã. Tudo contribui para que a carência emocional de Blanche evolua cada vez mais - levando-a cada vez mais para longe da realidade.
No seu delírio, Blanche decide que ainda é rica, e quer ser tratada como uma senhorinha sulista - refeições na bandeija, amabilidades, água quente, banhos demorados e drinks, muitos drinks. Como consequencia de sua ansiedade e mais, para não ser obrigada a enxergar a propria realidade, Blanche se mantém cada vez menos sóbria. Coloca um papel quebra-luz na forte lâmpada da sala dos Kowalski. E quando Blanche conhece Harold Mitchell na casa dos Kowalski, prefere aparecer para ele à meia-luz para disfarçar as marcas da idade no rosto. Afinal, Mitchell passa ser uma esperança quase real de Blanche não acabar completamente só.
Há ainda Shep Huntleigh, autor de cartas de amor que Blanche afirma receber, e que poderá resgatá-la a qualquer momento, casar com ela. Acima de tudo, Shep é o homem perfeito: rico, refinado, apaixonado. E Shep também não existe. É parte da ilusão de Blanche. "Eu não quero realidade, eu quero magia", ela diz. A inadequação ao mundo novo, isto é, à correria da cidade, ao trabalho árduo, aos imigrantes, e tudo mais que assusta a pobre moça do campo é mostrada por Williams de forma bastante contundente. E figura também como um dos fatores de stress para a depressao profunda de Blanche. Na mensagem sublimada de Williams, a transição do antigo para um novo radicalmente diferente pode ser profundamente traumatizante. E Blanche é concebida pelo dramaturgo para personificar um trauma extremo.
Stanley, nesse sentido, funciona como o contraponto ao mundo mágico de Blanche. Determinado a desmascará-la, Stanley descobre, por exemplo, que Blanche é algo como uma aristocrata falida, que trocava constantemente de par - ficava com qualquer um que pudesse sustentá-la. E que se tornou a fofoca do lugar onde morava depois que a sua vida amorosa tornou-se pública. Stanley expõe Blanche ao mundo real num confronto que é a cena mais enigmática da peça. Enquanto Stella está fora de casa, Stanley e Blanche tem um embate mítico - magia e realidade, delicadeza e rispidez, macho e femea. E o confronto acaba mal para Blanche - numa cena que é apenas aludida, o autor Williams dá a entender que Stanley estupra a cunhada. O escape erótico é a consumação de um desejo subentendido, ou uma tentativa de violentar a ilusão, de terminar de vez com um mundo que não existe mais?
De uma forma ou de outra, o final de Blanche Dubois seria o mesmo. Incapaz de viver no mundo real como ele se apresenta - e principalmente, incapaz de lidar com a extrema iniquidade macho-femea, representada na figura de Stanley - Blanche se aprisiona de vez no mundo particular que criara. Stella decide interná-la, e ao avistar o médico que a levará, Blanche diz uma das frases mais citadas da peça: "Quem quer que voce seja, eu sempre dependi da bondade de estranhos". Em função do seu estado psiquíco, nunca fica claro nem para a platéia nem para os personagens se o estupro aconteceu de fato. Mas a relação de mútua dependência entre Stella e Stanley nunca seria a mesma. E Mitchell, por via das dúvidas e conhecendo o gênio de Stanley, prefere se afastar do amigo.
Assim, o pecado de Blanche Dubois é o total descontrole de si mesma. Sem a capacidade de ser independente, e com um medo patologico da solidão, Blanche se coloca numa posição de extrema vulnerabilidade, e luta sozinha contra o mundo. Perde, é claro - a sua derrota é feia e muito provavelmente violenta. Mas é também uma derrota anunciada. Blanche Dubois é aquela mulher cuja presença é um desconforto, é uma lembrança para se esquecer. Seu desaparecimento, portanto, é o final esperado, para a preservação da realidade de todos os personagens. Na contramão do que disse C. S. Lewis no nosso epíteto, Blanche não aprende com a bruta experiência; para ela só resta o desejo, o sonho, e o ostracismo.





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