PECADORES CONFESSOS...

sábado, 22 de maio de 2010

Mulheres que Pecam Verde e Amarelo - as Mulheres de Machado de Assis (III)

Virgília - adultério e dissimulação

                                   
O caso de Virgília, em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), é a ferida clássica na prática social mais elementar: o casamento. Filha de um conselheiro do governo, Virgília é inicialmente prometida a Brás Cubas, que aspirava a um cargo na corte; chegam a ficar noivos mas, de repente, Virgília troca Brás Cubas por Lobo Neves, casando-se com ele. Um tempo depois, a reviravolta: Brás Cubas passa a trabalhar com o marido de Virgília, e os dois se tornam amantes. Uma virada irônica que precipita uma reflexão sobre a instituição do casamento, e a satisfação da mulher no relacionamento amoroso.

Virgília é aquela mulher que busca sempre o próprio prazer, o seu comprometimento é consigo mesma – mas ela não chega a ser totalmente subversiva. Como a Sofia de Quincas Borba, Virgília se sente confortável jogando o xadrez social, representando o seu papel de esposa amorosa e dedicada, enquanto trai o marido com o ex-noivo. Até quando Brás Cubas sugere que ambos fujam juntos, Virgília recusa – prefere arranjar uma casa no subúrbio para manter seus encontros secretos. Virgília é uma mulher essencialmente chauvinista - isto é, casamento, amor e sexo não necessariamente andam juntos - ou por outra, o amor marital e o amor erótico são duas entidades distintas, cada uma com um propósito, e por isso não precisam ser investidos na mesma pessoa.

O romance de Virgília e Brás, no entanto, começa a cair na boca do povo, mesmo depois de todas as precauções. Para completar, Virgilia engravida de Bras, e perde o filho. Mas mantém o casamento com um homem cada vez melhor sucedido, ao contrário de Brás Cubas, que se define sempre através da negação: não foi marido, não foi político, não foi rico nem famoso, nem foi pai. A completa auto-anulação de Brás Cubas parece desmotivar o desejo de Virgília, e os dois acabam se afastando - sem choro e sem mágoas, Virgília parte com o marido para outra província, onde ele seria presidente e deixa Brás Cubas para trás.

O interessante no comportamento de Virgilia é a sua capacidade de oscilar entre o convencional e o irreverente, personificando a virtude e a mazela do meio em que vive. No entanto, sendo pouco cuidadosa na expressão do seu desejo, leva o flerte e a vaidade ao extremo, traindo sistematicamente o marido e se colocando no centro da fofoca de alcova. Ainda assim, procura contornar a maledicencia para preservar o casamento de ideias e ambições com Lobo Neves, conseguindo mantér seu adulterio até a sua despedida definitiva da cidade. Virgilia é um pouco como Madame Bovary, mas absolutamente realista, sem o elemento onírico da personagem de Flaubert.

Virgilia e Brás Cubas ainda se reecontram anos depois, quando o protagonista já estava com 50 anos. Já uma mulher madura, Virgilia conservara a beleza e a capacidade de se adequar ao proprio meio. Conversa placidamente com Brás Cubas como se nada tivesse acontecido entre eles. Mantem a classe de uma mulher casada de anos, já profundamente realizada com o proprio destino. Virgilia é uma mulher completamente independente das amarras sociais - ao contrario de Sofia, que se estabelece pela anulação da propria vontade. O seu interesse a faz participar do jogo social, ainda que pareça que ela esteja adequando o seu desejo ao do seu marido. Sem sair do tabuleiro, ela move todas as peças que lhe interessam. Quando está exposta, se protege. Mulheres como Virgília não desaparecem, porque não aparecem. São parte de uma engrenagem que absorve e camufla os próprios pecados.

Último fascículo: Lívia (Ressurreição, 1872)

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