PECADORES CONFESSOS...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mulheres que Pecam n.9 - Mrs Dalloway

Como explicar Mrs Dalloway? O romance de Virginia Woolf publicado em 1929 é uma ode à fragmentação do indivíduo. É composto de vários pontos de vista, oriundos de diferentes personagens, como também de vários pontos de vista oriundos do mesmo personagem. Perspectiva, fluxo de consciência, fragmentação de individualidades ressentidas da própria existência – tudo isso pode ser encontrado neste intricado trabalho escrito pela não menos intricada V. Woolf.

Em seu romance ambientado na Londres pós-1a. Guerra, Woolf se propõe, à grosso modo, a descrever um dia na vida de uma mulher de meia-idade, casada, mãe, profundamente entendiada e deprimida – como dissemos, ressentida da própria individualidade. Esse acompanhamento do dia de Mrs. Dalloway é feito através de seus olhos, mas principalmente através de sua mente – o que lemos é sempre a descrição de seu fluxo de consciência, de seu pensamento – como também o de outros personagens.

No inicio da história, Clarissa Dalloway vai dar uma festa, e sai à rua para comprar flores. A impressão inicial é  de que se trata de mais uma dona de casa de classe alta, acostumada aos grandes ciclos, cumprindo fiel e alegremente seu papel social. Mas não é bem assim. Ao sair pelas ruas de Londres, Clarissa se sente livre para deixar o pensamento fluir - o pensar que não combina com a sua casca de esposa alienada. Aprendemos ao ter acesso ao seu fluxo de consciencia que Clarissa Dalloway é uma mulher capaz de questionar as próprias escolhas, e ao mesmo tempo tentar justifica-las. Em outras palavras, adequar-se, ser parte de algo. É uma mulher que vive do que era antes, mas que deseja desesperadamente um hoje, uma vida presente. Já no primeiro capítulo, esse ressentimento de Mrs Dalloway fica bastante claro:

“Ela tinha essa sensação estranha de ser invisível; de não ser notada; de não ser reconhecida; agora não havendo mais casar e ter filhos, apenas esse acompanhar fascinante e solene de seus progressos pela Bond Street, esse ser a Sra. Dalloway; nem ao menos Clarissa; apenas a Sra. Richard Dalloway.” (p.13)

Observamos neste ponto que na sua mente a protagonista tem duas individualidades: a Sra. Dalloway, ou a sua máscara social, aquela que todos olham apenas superficialmente, como olham um ser ou objeto que é parte de um determinado ambiente; e Clarissa, o seu eu verdadeiro, intenso, cheio de contradições e desejos, que gostaria de ser reconhecida, valorizada por si mesma. Clarissa vive da memória de quando ainda se expressava, na juventude. São apresentados aos leitores os jovens Clarissa, Richard, Sally Seton e Peter Walsh. Descobrimos que a jovem Clarissa experimentou a paixão pelo impulsivo Peter e a atração sexual pela descolada Sally - mas optou por se casar com o conservador Richard, e naquele momento, a protagonista sente ter abdicado de sua individualidade primeira, para assumir uma personagem, uma versão artificial de si mesma. No momento retratado no romance, Mrs. Dalloway reflete sobre as próprias opções, enquanto anda pelas ruas londrinas.

O mais desgastante para Mrs. Dalloway é que ela não pode consolar a perda da sua individualidade na formação da personalidade da filha Elizabeth – sua filha é o anti-retrato, aquela que se opõe a ela sob todos os aspectos. Elizabeth ´não se preocupa com a aparencia, é de algum modo reativa, condescendente. E ainda tem uma relação de profund admiração e subserviencia com Miss Doris Kilman - o que nos parece é que na cabeça de Mrs. Dalloway não está clara a extensão da amizade entre Elizabeth e Doris, que é filiada aos comunistas, subversiva, rebelde. O comportamento de Doris Kilmam tem um efeito devastador sobre o indivíduo Clarissa, que parece invejar a disposição da jovem em ser o “monstro”, o objeto de alienação da sociedade, o que é algo que Clarissa não possui. Por isso mesmo Mrs Dalloway afirma que “num outro jogar de dados, se o preto se transformasse em branco, ela teria amado Miss Kilman! Mas não neste mundo.” (p. 15). A percepção do “monstro”, a ideia de desenquadramento, é o que mais assusta Mrs. Dalloway:

“Assutava-se, entretanto, de ter sempre esse monstro brutal cercando-a! (…) nunca estar satisfeita, ou completamente segura, porque a qualquer momento o bruto estaria rodando, o ódio que, especialmente depois da sua doença, teria o poder de fazê-la sentir-se recortada, ferida na espinha; deu-lhe uma dor física, e fez com que todo seu prazer na beleza, na amizade, em estar bem, em ser amada e fazer um lar agradável, sólido tremesse, e envergasse como se tivesse mesmo um monstro cavucando suas raízes, como se ela só se satisfizesse com amor próprio! Esse ódio!” (p. 15)

É interessante notar que em Mrs. Dalloway a personalidade individual vive em constante conflito com a sua persona social, que ela insiste em dar consistência. A natureza do seu pecado é ambígua: há o pecado contra si mesma e o pecado contra o meio, contra o mundo que a cerca e que passa diante de seus olhos. Clarissa peca porque não tem coragem de renunciar à Mrs. Dalloway; Mrs Dalloway peca, porque não consegue exorcizar Clarissa.

Essa fragmentação é o grande questionamento do livro, presente tanto em Mrs. Dalloway, quanto em outro personagem, que na nossa concepção funciona como seu duplo – o veterano de guerra Septimus Warren Smith, antes poeta e idealista, torna-se gradualmente afetado por severo estresse pós-traumático, que o leva a níveis profundos de depressão e inadequação ao mundo que o cerca. Septimus questiona-se de maneira assustadoramente igual à Clarissa, as suas insatisfações são um espelho das da protagonista. A diferença é que Septimus não controla suas individualidades com a mesma destreza que Mrs Dalloway – enquanto Clarissa mantém uma máscara social, Septimus se mostra cada vez mais agressivo, descontrolado, inconformado com o mundo. A manutenção das aparências é uma preocupação de sua esposa, Lucrezia Smith, que procura tratamento para o marido e isola-o da vista das pessoas. Mas a atitude de Lucrezia não surte o resultado esperado – Septimus não consegue conciliar sua individualidade transgressora com o mundo a sua volta e comete suicídio.

Enquanto Septimus se deixa dominar pelo “monstro” que assusta Mrs Dalloway, esta consegue dominá-lo, encontrando um equilíbrio entre a sua individualidade e a sua necessidade de pertencer. Em “As Horas” (2002), filme do qual falamos antes - embora com certas diferenças nas relaçoes entre os personagens - esse final também é respeitado, isto é, o poeta se suicida e Clarissa Vaughan consegue equilibrar sua vida. O livro termina com a reunião dos três rebeldes – Clarissa, Peter Walsh e Sally Seton. É a festa que Mrs Dalloway estivera preparando durante todo o dia. Sally e Peter estão sentados na sala, esperando Mrs. Dalloway. Lembranças da juventude e do momento em que Clarissa trocara Peter por Richard povoam essa espera. Sally circula e conversa com as pessoas, enquanto Peter não esconde a ansiedade em reencontrar Clarissa. As frases finais do livro, o momento do reencontro, merecem citação:

“Eu já estou indo, diz Peter, mas ele sentou por um momento. O que é este medo? O que é esse extase?, ele pensa. O que é isso que me enche com tamanha excitação?
É Clarissa, ele diz
Porque lá estava ela.” (p. 213)

Diante do impasse que se desenvolve durante todo o livro entre as personalidades de Clarissa e Mrs Dalloway, o fato de Peter Walsh olhar a protagonista e chamá-la “Clarissa” é bastante sugestivo. A ultima frase do romance sugere que ela estava lá, Clarissa estava lá, e não apenas Mrs Dalloway. Ao menos Peter era capaz de identificar ambas, numa só carne. Clarissa, finalmente, não precisava desaparecer; ao contrário, ela é a consistência que faltava à persona de Mrs Dalloway.

A intensidade de Clarissa e a serenidade de Mrs Dalloway, em constante combate, encontram um meio de coexistir, para benefício mental da protagonista. Septimus Warren Smith não teve a mesma sorte. Peter Walsh, de certa forma, permanece marginalizado pela sua impulsividade, mas é bem recebido pelos amigos. Sally Seton se torna, como Clarissa, uma mulher casada e mae de filhos. Mas Sally não tinha se frustrado de nenhuma sensação, a não ser é claro o desejo pela amiga - que era algo mais platônico, subentendido, e portanto, nao chega a ser uma frustração. E Clarissa? Fechou-se, viu o tempo passar, lutou contra si mesma; mas não escolheu a morte, nem o sacrificio de sua individualidade; de algum modo, ela sabia que devia celebrar: o tempo, o que passou, o que ela era no presente. Naquela noite de festa, ao descer as escadas, ela tinha mais que nunca uma identidade. Como Peter bem lembrara, ela era Clarissa. E lá ela estava: Clarissa Dalloway.

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2 comentários:

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
CLAUDINHA


ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE EL NAZARENO- LOVE STORY,- Y- CABALLO, .

José
ramón...

Lobodomar disse...

Claudinha, boa tarde.

Fico feliz que tenha gostado do meu poema, 'Mulher Carioca'. E se acha que ele tem a ver com seu belo blog, ficarei ainda mais feliz. Esse soneto é uma de minhas homenagens à mulher carioca, por sua beleza, sensualidade e personalidade forte - que eu tanto admiro.

Gostei muito do seu blog. Deparei-me, de cara, com esse texto sobre Virgnia Wolf, que é uma de minhas escritoras favoritas.

Sucesso pra você. E seja sempre muito bem-vinda a meus blogs.

Um beijo!

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