PECADORES CONFESSOS...

domingo, 4 de abril de 2010

ALICE


Sempre teve um jeito triste de olhar a vida. Um jeito de despedida. Quando era criança, jogava pedras nos passarinhos, arrancava o mato das calçadas. Detestava bonecas, enforcava todas com a corda de pular.

A mãe dizia que ela tinha uma coisa. Nunca disse o que era. Uma doença, uma quimera. Um castigo. A mãe não prestava pra muita coisa então nunca se importou muito. O pai vivia rindo. Bebia, jogava perdia, ganhava...e ria, quase todo o tempo. Daquela casa torta, só gostava dos espelhos. Gostava de treinar seus olhares: felicidade, pena, tristeza, paixão, alegria. Ás vezes, imaginava-se entrando dentro deles. Seria mais feliz consigo mesma?

Não tinha jeito. Só aquele que era o fim de tudo. A primeira vez era muito jovem. Não se lembra bem. Era um homem velho, infeliz, e ela disse que precisava do dinheiro. Mas ele nunca tinha tido uma mulher tão bonita antes, então...ficou por isso mesmo. Ela lhe fizera um favor, e com certeza ele morreu feliz. Para onde ele ia, não ia precisar de muita coisa...

A noite era um covil, uma jaula de todos os bichos. Podia fazer todo tipo de compras. Podia caçar. Era a melhor floresta... e ela estava lá, todos os dias.

Não lembra de quantos foram. Homens, mulheres, nunca fez diferença. Era só uma crença, um rito. Era um estágio de iniciação. Ela precisava do sangue, do pulso, da eletricidade. Não tinha quase nada. Era uma vida pela outra.

Não tem muita gente no mundo que entenda. Apenas três de cada cem, segundo as estatísticas. Mas ela não acredita muito em números. Aonde quer que esteja, há sempre um animal solto, ela pensa. Tinha uma casa, uma mãe, um pai, umas cinquenta bonecas, televisões, comidas, dinheiro...

E acabou num viveiro, numa casa de brigas. Estava cercada, a luz piscava muito lá fora, já estava incomodando...

Tinha ainda mais um número, mas esse só a polícia sabia.

Seus mortos...quanto seria?

Não queria saber. O copo já estava quase vazio. Bebeu o resto.

Era o dia.

Escutou o chute na porta... olhou em volta, achou o espelho. A vista já escurecia.

No espelho, o vidro brilha...

Era sua viagem, sua saída.

Do lado de dentro, só um grito:

_ Alice! Alice!

Era só o que ouvia...


Claudinha Monteiro (04/04/2010 - publicado também no Recanto das Letras)


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