PECADORES CONFESSOS...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 4 - EMMA BOVARY (Parte I)

Emma Bovary é um dos personagens femininos mais complexos da literatura romântica. É sugestivo, em todos os sentidos, que seja uma mulher. Seu dom para a transgressão, sua personalidade ao mesmo tempo turbulenta e frágil, sua necessidade extrema de repudiar uma realidade que a oprime, através de subterfúgios igualmente extremos, muitas vezes vis, e cuja acumulação sela o seu destino à inevitável fatalidade. O texto de Madame Bovary, elaborado sob medida para a protagonista, é uma narrativa intensa, de um potencial tanto romântico quanto analítico – enfim, uma fábrica de imagens gradualmente reveladoras. Será que Gustave Flaubert tinha uma leitura incomum da alma feminina? Não há como precisar. O fato é que, em algum momento da sua criação estética, o seu Madame Bovary acabou se tornando uma obra de arte, lançando um olhar original sobre a representação feminina no romance.

O desenvolvimento desta individualidade conflitante de Madame Bovary, - isto é, o seu comportamento, o seu pensamento sempre reativo, rebelde – vai surgindo pelo agrupamento dos diversos “olhares” lançados sobre a protagonista, provenientes de outros personagens, principalmente os masculinos. É fundamental perceber o modo como Flaubert concatena estes olhares, de certa forma divergindo-os da imagem nebulosa que Emma parece fazer de si mesma. É sobre essas imagens divergentes que surgem as diversas máscaras sob as quais Emma constrói um poderoso instinto de auto-preservação. Mas, ironicamente, as máscaras não a salvam de um outro instinto – o sonho, a imagem arrebatadora do seu desejo de viver aquilo que, no plano do real, ela não possui. É o segundo grande impasse do romance: o duelo de egos. Um eu racional, sobrevivente, procurando coexistir com um eu dilacerante, pungente.

Parece oportuno, neste ponto, começar a discutir os tipos de “olhares” que nos permitem distinguir a natureza das máscaras usadas por Madame Bovary. É relevante observar que a narrativa de Flaubert privilegia a perspectivação dos fatos inerentes à trama, transcrevendo-os através do fluxo de consciência dos personagens – ressalta-se aqui a participação da faculdade cognitiva do individuo na criação da sua própria realidade, isto é, no que acredita ser uma visão apurada do mundo. Assim, deve-se entender que em Madame Bovary, a construção das realidades dos personagens, bem como as suas diversas maneiras de ser, dependem enormemente dos “pontos de vista” distribuídos pela narrativa destes mesmos personagens, de forma que a visão de um pressupõe uma faceta do outro, que nem sempre corresponde à verdade do outro, e assim sucessivamente. É neste sentido que vemos a personalidade de Emma Bovary ser construída gradativamente, e sob estéticas diferentes, além de pessoais. Não é à toa, portanto, que o primeiro “olhar” apresentado sobre Emma é justamente daquele que seria o seu futuro marido, o médico Charles Bovary.

Homem de poucas palavras e pensamentos lineares, Charles é um homem praticamente sem ambição. A percepção de Charles é dominada por imagens atreladas principalmente à realidade imediata, ao dia-a-dia sensível ao toque. A aparência é a sua inspiração, segundo a qual ele constrói as suas verdades. Charles é um ser humano anti-estético, que depende de fincar os pés no chão para definir sua existência. A sua visão de realidade é, por conseguinte, apenas aparência, se considerarmos realidade como uma construção em perspectiva. E é baseado nessa aparência que ele constrói a sua visão de Emma.

É interessante a forma como Flaubert constrói a imagem que Charles faz de Emma aos poucos. Charles é o médico que cuida do pai de Emma, quando este fica doente. Cada visita à fazenda do pai dela aumenta a necessidade do médico de estar por perto. Quando a convalescença do paciente chega ao fim, ele resolve visita-los como “amigo”. O sentimento de “amizade” é adequado neste ponto, pois Charles ainda está casado com uma outra mulher, mais velha que ele, uma imposição da mãe dominadora – sempre há uma mãe sufocante através de uma personalidade frívola. Somente a partir da morte repentina da primeira esposa é que Charles toma a atitude de cortejar Emma abertamente, indo até a fazenda do pai dela para pedi-la em casamento. Parece ser a única atitude de Charles que parte genuinamente dele, sem ajuda nem influência externas. Mas esta atitude vem fundamentada numa visão pré-concebida da mulher que ele aprendeu a admirar, principalmente, pela aparência. Esta é uma característica de Emma que vai se extravasar muito mais adiante no romance: ela gosta de parecer, tanto quanto aparecer, muitas vezes de acordo com a própria conveniência. A essa altura da narrativa, porém, esta faceta da futura Madame Bovary ainda está incipiente, e Charles, com a sua visão enraizada na superfície, percebe apenas o que lhe é mostrado. Assim, Emma passa a ser o objeto do seu desejo, alguém cuja imagem o fascina, e que ele se determina a ter.

O elemento complicador do ponto de vista de Charles Bovary é que ele tende a isolar seus próprios conceitos, criando opiniões baseado em percepções que não são discutidas com mais ninguém. Uma vez definidas, Charles as aceita prontamente, sem que haja qualquer possibilidade de contestação. Ele se convence, por exemplo, de que Emma é a sua mulher ideal. Aproximar-se dela, portanto, é um ato de extrema coragem, considerando a timidez do médico. Fazer com que ela o aceitasse é uma vitória ainda maior. Charles pensa conseguir tudo o que podia querer da vida, e faz o que sempre fez: se conforma, cristalizando uma imagem de Emma que ele elaborou sozinho, no meio dos seus próprios sentimentos e devaneios. E qual seria essa imagem?

A Emma que Charles se determina a enxergar está atrelada às suas noções do feminino, que por sua vez deve advir dos padrões de feminilidade “vendidos” para a época. É por assim dizer, uma idéia “comprada”, adaptada aos olhos do observador. Assim, temos na visão de Charles uma Emma dócil, romântica, generosa, prendada que cuida da casa e do pai, e que se esmera em agradá-lo quando ele visita a sua fazenda; é sugerido inclusive que ela aguarda tais visitas, com ansiedade. Nesta primeira parte do romance, o ponto de vista de Charles é exposto com uma alternância escassa de diálogos, possivelmente para expressar a qualidade individualista, pouco interativa, da personalidade do médico. O fato de Flaubert introduzir o personagem Emma pela visão de um outro personagem se torna um recurso estético poderoso, principalmente depois que os pensamentos de Emma passam a ser lidos. O contraste entre a Emma por quem Charles se apaixonou e a Emma que se define a partir do casamento parece fundamental na construção da dubiedade da protagonista, antecipando conflitos e incompatibilidades que se exacerbam, no decorrer da história.

A apresentação “oficial” de Emma, isto é, o aparecimento da personagem, por ela mesma, só ocorre na metade da Parte I da narrativa, depois que já conhecemos a perspectiva de um Charles completamente apaixonado. Flaubert parece escolher um tipo de “terapia de choque” como forma de introdução da protagonista. O fluxo de consciência de Emma começa a ser exposto a partir da sua lua-de-mel com Charles. Ao final do 5º capítulo, a frustração de Emma após a primeira noite de amor de sua vida é evidente, e ela questiona imediatamente a sua escolha de Charles não só como marido, mas como parceiro sexual. Essa apresentação do feminino pelo viés do erotismo se salienta profundamente na personagem, tornando-se fundamental nas escolhas dos seus parceiros masculinos, bem como na manutenção de seus relacionamentos extraconjugais. A atmosfera erótica em torno de Emma parece construída de propósito por Flaubert, exatamente para oferecer um contraponto dramático à visão simplista que Charles criou sobre a esposa; o embate entre as verdades dos personagens fica cada vez mais recorrente deste ponto em diante.

A narrativa, a partir da apresentação da jovem Madame Bovary, parece se rechear de recursos oratórios, como frases exclamativas e interrogações, que a protagonista faz a si mesma, ao comparar sua vida conjugal à experiência amorosa constante dos romances que ela costumava ler. A utilização destes recursos de linguagem nos pensamentos de Emma fornece mais uma diferença entre ela e Charles – a natureza questionadora da protagonista em relação ao próprio destino, em oposição à aceitação permanente do marido. Emma tem uma energia pulsante, um ego admiravelmente voltado para a satisfação de seus próprios desejos. Emma não é generosa, sob nenhum aspecto. Seu objetivo durante todo romance é a afirmação da sua individualidade, através de um onirismo compulsivo, caótico. A mente de Emma trabalha num crescendo, e isto fica bem definido na oratória flauberiana.

É através da expressão dos pensamentos de Emma que se configura a primeira de suas máscaras estéticas. O crescente grau de desconsolo da protagonista culmina com uma crise nervosa, agravada por um extremo sentimento de impotência diante de uma vida inesperadamente infeliz. As imagens desenhadas pelo desgaste mental de Emma são fundamentadas, principalmente, no seu casamento com Charles. A narrativa sugere que Emma culpa Charles pela privação de sua liberdade, em favor de uma monotonia emocional com a qual ela não estava preparada – ou não queria – lidar. Na visão de Emma, o casamento significava o novo, o diferente, a realização do amor romântico que ela consumia nas suas leituras. Em vez disso, a frustração da rotina e a concepção de uma criança, para seu desespero, do sexo feminino, condenada ao massacre individual, como ela. O casamento, portanto, devia ser a causa de tudo; era preciso acabar com ele, ainda que simbolicamente. Por isso, a imagem do buquê queimando no final da Parte I é bastante sugestiva. Não esquecendo que a insatisfação de Emma tem também uma conotação sexual, a queima do buquê significa não mais esperar que a realização emocional venha do marido. O marido, o casamento, é um sonho acabado, perdido. É preciso, agora, uma nova máscara. E a loucura, neste sentido, é uma conveniente – ainda que extrema – mudança de atitude, que precipita várias outras transformações.

O estado de saúde de Emma obriga Charles a trocar a atmosfera rural pela urbana. O diagnostico de depressão profunda da esposa é diretamente associado ao tédio da vida no campo, onde nada nunca muda – o que reforça, mais uma vez, a questão do conflito cidade-campo que parece assombrar o casal protagonista: Charles permaneceria de bom grado no interior, exercendo sua profissão sem maiores dificuldades, porém sem a possibilidade, ou a necessidade, de sobressair; já Emma reflete uma total inaptidão para a falta de movimento, para ela é importante sentir o tempo, o movimento do mundo. Sua mente oscila em recordações ou mitificações de um futuro que, para seu desespero, nunca chega. Essa constante realocação temporal é também uma característica desta narrativa de Flaubert, talvez como uma maneira de expor a inquietude crescente da heroína, em contraste ao parasitismo de seu marido. A sensação do trágico em Emma já se expõe nesta inadequação, Emma parece sempre desenquadrada, seus pensamentos estão sempre ou à frente, ou atrás do tempo em que ela vive, e em nenhum momento ela está em algum lugar.
(continua)

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Um comentário:

Hannah disse...

Preciso dizer que esse é um de meus livros favoritos?
rs

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