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PECADORES CONFESSOS...

domingo, 14 de março de 2010

Antídoto



Quando eu verso
É por prazer
Por mágoa
Pelo inverso
Da minha alma
Que não se cala
Para o encanto do
pulso, das horas
Suspender.

Quando eu verso
É pelo imenso
espaço que falta
É pelo inferno
Para frear o que penso
Parar a chuva , o inverno
O frio intenso.

Quando eu verso
É pela palavra
Pela expressão
Pelo conflito
Quando eu verso
É a paga
É o instinto
E o medo de não ser
É para entender
O infinito.

(14/03 - Dia Nacional da Poesia)

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quinta-feira, 11 de março de 2010

O PECADO DA LEITURA


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segunda-feira, 8 de março de 2010

MEU NOME É MULHER (parabéns a todas nós...)

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, um lindo poema de uma batalhadora, que resume bem a ideia deste blog:



Meu nome é mulher
No princípio eu era Eva
Nascida para a felicidade de Adão
E meu paraíso tornou-se trevas
Porque ousei libertação.


Mais tarde fui MARIA
Meu pecado remiria
Dando à luz aquele
Que traria a salvação
Mas isto não bastaria
Para eu encontrar perdão!



Passei a ser AMÉLIA
A mulher de verdade
Para a sociedade.
Não tinha a menor vaidade,
Mas sonhava com igualdade.
Muito tempo depois decidi:
não dá mais.
Quero a minha dignidade,
Tenho meus ideais!
Mas o preconceito atroz
Meus 129 nomes queimou.

Então, o mundo acordou
Diante da chama lilás!
Hoje, não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família,
Sou ourives, taxista, piloto de avião,
Policial feminina, operária de construção!

Ao mundo peço licença,
Para atuar onde quiser
Meu sobrenome é Competência
O meu nome é MULHER!


Autora: "Pérola Neggra"
Soldado Fem PM Fátima Aparecida Santos de Souza, do 30º BPM/M
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domingo, 7 de março de 2010

MAU ROMANCE


(Original: "Bad Romance" - L. Gaga/Germanotta/Stefani/Khayat/Nadir)
(Tradução: Claudinha M.)

Eu quero o seu horror
E quero a sua doença
Eu quero tudo que for
Desde que te peça
Eu quero seu amor

Eu quero o seu teatro
e quero as suas mãos
eu quero seu beijo mascarado
cravejado, em ação
Eu quero o seu amor

Eu quero seu amor
E quero o seu sangue
Eu e você criando
um mau romance

Eu quero seu medo
E quero o seu eu
Quero o seu crime
Desde que seja meu
Eu quero o seu amor...

Quero o seu trauma
Quero o seu prazer
Quero a sua calma
Quando eu enlouquecer
Eu quero seu amor...

Eu quero seu amor
E quero o seu sangue
Eu e voce criando
Um mau romance

Presos num mau romance...

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sexta-feira, 5 de março de 2010

MULHERES DE SHAKESPEARE Vol. III - Cordélia



Harold Bloom afirma, em seu Shakespeare e a Invenção do Humano (2000), que Rei Lear (1606) é uma tragédia shakespeariana sobre o amor em excesso. Bloom se refere ao amor filial, aos desencontros dos relacionamentos em família. Rei Lear não é tanto sobre a loucura do protagonista, mas sobre os motivos pelos quais o protagonista enlouquece; de acordo com Bloom, o amor é o tema central que propicia o desenvolvimento positivo ou negativo de todos os personagens. Se nos ativermos aos personagens femininos, veremos que as representações de amor são determinantes no destino das filhas de Lear – Regan, Goneril e Cordélia. O que pretendemos com este post é entender a relação complexa que se estabelece entre a personalidade de Cordélia e o amor, da forma como é representado na trama – isto é, devastador, afetado, sempre em excesso (Bloom, 2000). Vamos explicar melhor com perguntas: de que forma Cordélia reage à manifestação amorosa, sobretudo em relação ao pai, Lear? Como essas reações caracterizam sua individualidade, seu modo de ver o mundo e, microcosmicamente, a família? Os relacionamentos amorosos estabelecidos por Cordélia – seja filial ou marital – são fundamentais para o entendimento da sua personalidade – como também, pelo critério de comparação, das ambiciosas Goneril e Regan e do dramático e assertivo Lear.

O drama começa com Lear submetendo as filhas a um teste de demonstração de amor: propõe-se a dividir seu enorme reino entre as três filhas, mas para isso elas deverão dizer o quanto o amam. Regan e Goneril enchem os ouvidos de Lear com um discurso poético, e são agraciadas com generosos pedaços de terras; Cordélia, no entanto, escolhe a sobriedade e o prosaicismo, e afirma dedicar a Lear o amor que uma filha dedica a seu pai. Seu discurso lembra bastante o de Desdêmona, quando afirma no primeiro ato de Otelo que tem um senso de dividido dever entre o amor pelo pai e pelo marido que escolhera; Cordélia parece partilhar deste mesmo dever, e explica ao pai que seu sentimento filial não é maior nem menor do que deveria ser. Mas Lear se sente preterido por aquela de quem esperava a maior declaração de amor, por se tratar de sua filha favorita; assim, a parte que caberia à Cordélia é dividida entre suas duas irmãs. Sem bens, portanto, sem dote. Lear submete Cordélia ao desejo de seus pretendentes: o Rei da França e o Duque de Borgonha – mas este último desiste da disputa quando percebe que não herdará o poder político do pai de Cordélia; ela então casa-se com aquele que mais tarde se tornaria Rei da França - e que, tendo em vista a rivalidade anglo-francesa, não tinha a preferência de Lear.

Novamente, a associação com Otelo é inevitável: Cordélia, assim como Desdêmona, recusa-se a adotar o discurso esperado, e atém-se exclusivamente ao seu dever e ao seu desejo – escolhe dizer ao pai apenas o que pensa, na exata medida em que pensa. Acaba também, casando-se com o marido de sua preferência, ironicamente, com a anuência de um pai que pretendia puni-la. Impossível não lembrar das palavras de Brabâncio que, após ouvir de Desdêmona que seu amor por ele não é maior que o que deve ao marido, diz a Otelo que está entregando a ele aquela que nunca entregaria numa situação diferente (I, 2). Desdêmona é a única filha de Brabâncio; Cordélia é a filha preferida de Lear. Essa justaposição do amor com o dever , o desejo e a raiva está bem presente nas duas peças, e é igualmente determinante no destino de seus personagens. Na trama de Rei Lear, há um aprofundamento da relação entre o amor e a tragédia que Shakespeare começara a esboçar em Romeu e Julieta, e desenvolvera em Otelo. Entretanto, em Lear, como também em Hamlet, Shakespeare reforça essa dicotomia amor-tragédia sob o ponto de vista do relacionamento familiar, mais especificamente entre pais (ou mães) e filhos.

E já que estamos enfatizando aqui o papel da individualidade feminina nesse aspecto trágico do relacionamento amoroso (familiar-marital), é importante notar que no âmbito das quatro principais tragédias shakespeareanas, a figura materna só encontra representação em Hamlet. Ainda assim, a figura da Rainha Gertrudes, mãe de Hamlet, vem subdesenvolvida e envolta numa atmosfera de transgressão e mistério. Sobre ela vamos falar no próximo volume. O ponto aqui é entender que em Lear, toda a representação do amor filial se faz através de padrões paternalistas, tendo na figura paterna o ícone máximo de autoridade, tanto internamente (família) quanto externamente (política/sociedade). Exatamente como nas tragédias de Romeu e Otelo, o retrato shakespeareano em Lear marca com cores berrantes as complexidades patriarcais: o sentimento exacerbado, a ênfase na competição, no confronto, a manifestação explícita da raiva, o poder do estrategista, e da observação - como também, o papel de todos esses fundamentos no destino trágico não apenas dos personagens masculinos, mas na supressão de toda e qualquer feminilidade da trama – e suas conseqüências.

No caso de Cordélia, há uma estreita relação entre a construção da identidade da filha de Lear e o seu discurso. Diferente de Desdêmona, amante e devoradora do discurso, Cordélia deixa claro, desde a sua primeira aparição, que não partilha da óbvia verborragia de suas irmãs. Cordélia se mostra bem menos inocente que Desdemona, porém com o mesmo senso de honestidade. A caçula de Lear percebe o uso falso que suas irmãs fazem das palavras, e percebendo sua iniqüidade diante delas, resolve que deve apenas “amar, e se calar” (I, 1). Mais tarde ao declarar o amor que sente pelo pai, avisa: “eu o amo de acordo com o laço que nos une, não mais nem menos” (idem). Sua explicação, conforme já antecipamos, é bem parecida com a de Desdêmona, quando explica ao pai o seu dever (ou sentimento) dividido entre ele e seu marido Otelo. Cordélia sente da mesma maneira, e em contrapartida, questiona o amor incondicional a Lear que suas irmãs professaram antes dela:

CORDÉLIA — Meu bondoso senhor, vós me gerastes, educastes e me amastes, pagando eu todos esses benefícios qual fora de justiça: com obediência e amor vos honro sempre extremamente. Por que têm maridos minhas irmãs, se dizem que vos amam sobre todas as coisas? Se algum dia vier a casar, há de seguir o dono do meu dever apenas a metade de meu amor, metade dos cuidados e das obrigações. Certeza é nunca vir a casar-me como as duas manas, para amar a meu pai por esse modo. (I, 1)

Lear, visivelmente contrariado com o que chama de “aspereza” da filha, deixa sarcasticamente apenas a verdade como herança para Cordélia. A violenta reação do rei diante da atitude de Cordélia inspira uma variedade de interpretações. Do ponto de vista psico-afetivo, o amor de Lear por Cordélia atinge uma conotação quase sexual – ele não admite concorrência no afeto da filha, e a deserda depois de ouvi-la dizer que dividirá seu amor entre ele e o homem com quem ela vier a se casar. O que se presencia é uma forte crise de ciúme por parte do Rei, que faz valer sua autoridade para expulsar a filha de sua vida, assim como aqueles que a defenderem, como é o caso do leal Kent. Lear claramente considera a atitude de Cordélia uma traição, e chega a ecoar as palavras de Brabancio, pai de Desdêmona: “melhor seria que nunca tivesses nascido” (idem). Ao perceber que o Rei da França deseja desposar Cordélia a despeito da sua contrariedade com a filha, entrega-a “sem o nosso amor, nossa benção, nossa graça” (idem).

A reviravolta na mente do velho Lear se dá quando resolve viajar pelas terras que dera às filhas, esperando que estas lhe dedicassem o mesmo “amor” de antes. Mas é claro que isso não acontece – Lear é destratado por Goneril e Regan, que não toleram os excessos do Rei e de seus cavalheiros. Do alto de uma vaidade sem limites, Lear rompe com as duas, e se vê sozinho no meio de uma tempestade, tendo apenas o Bobo e um mendigo (na verdade, Kent disfarçado) como companhia. O personagem se desnuda – sem vaidades, vantagens, roupagens que a postura do Rei exige. Se repararmos no discurso de Lear, veremos que ele faz questão de usar o tradicional “nós”, ao invés de “eu”, para referir-se ás próprias coisas. Mas esse pronome no plural, para Lear, tem outro sentido: não configura a representação dele como paradigma do reino, do povo, e sim de si mesmo. São duas identidades: o velho tolo, vaidoso e dono de um amor instintivo, irrestrito; e o Rei, o homem poderoso, autoritário, porém, generoso, e cujo senso deturpado de reciprocidade acaba arruinando-o.

Cordélia, então, reaparece em cena: já rainha da França, ela acompanha o marido na invasão Inglaterra, para resgatar seu pai da miséria. A atmosfera de politicagem, a mesclagem entre paixão e ambição, luxuria e poder – já que Goneril e Regan são seduzidas pelo mesmo homem, o bastardo Edmund, que pretende governar – não importa à Cordélia. Seu objetivo é salvar um pai enganado, desprovido de toda dignidade. A filha pródiga não busca justiça para si própria. Numa manifestação da metade do amor que cabe ao pai, Cordélia tenta, em vão, fazer com que as coisas retornem ao seu curso natural. Mas ela é uma mulher, reta, honesta, centrada portanto, sozinha no caos em que se transformou o reino de Lear. È tarde para Lear, já refugiado na loucura; para o amigo Gloucester, cego dos dois olhos pelas artimanhas do bastardo Edmund; para Edgar, irmão de Edmund condenado ao ostracismo até quase o fim da peça; e Cordélia descobrirá que é tarde demais também para ela.

A invasão francesa dá errado e Cordélia é presa junto com Lear e condenada à morte. A morte injustificada se assemelha a de Desdêmona e a escolha de Cordélia, no fundo, é a mesma: enquanto Desdemona escolhe o amor por Otelo em detrimento ao amor pelo pai e por Veneza, Cordélia escolhe o amor por Lear ao amor pela França e, consequentemente, pelo marido, que nem é mais mencionado. Lear e Cordélia se reconciliam, partilham a prisão e o castigo. Quando a verdade sobre Edmund vem à tona, nada mais pode ser feito: Cordélia já cumprira sua sentença, morrendo enforcada. A manifestação do amor filial em Cordélia é mais consistente em suas ações do que em suas palavras. As suas emoções são latentes; suas lágrimas e murmúrios falam mais que um discurso elaborado, poético, como o de suas irmãs – que aliás, acabam matando uma à outra por causa de Edmund. Mas sua retidão não lhe garante a sobrevivência – assim como Desdêmona, Cordélia morre pelas próprias palavras – ou pela falta delas.


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sábado, 27 de fevereiro de 2010

MULHERES DE SHAKESPEARE Vol. III ...



Eis a história de um rei triste
que, soberbo e tolo, insiste
num jogo de poesia
veja que triste a ironia
cada verso de palavras
prontamente recompensava
com suas terras, sua alegria.

Eis que um reino é dividido
pelas flechas do cupido
pelos sons que o vento leva
e o amor o rei espera
e belas historias, sinceras
e sorrisos e quimeras

Eis que duas de suas crias
donas do verbo, da fantasia
viram filhas devotadas
com suas garras afiadas
sob vozes de puro doce
e o rei, bobo da corte
se engana, se enfastia
por duas falsas melodias

Depois de empobrecido
desenganado, enlouquecido
o velho pela terra vagueia
e a luz que o clareia
é a da filha cuja rima
é que versa maior estima
mas a aparência ressentida
é deserdada, preterida
é a vida, é a vida

Eis que o final da jornada
é o fim, a morte, o sacrifício
é o corpo, a mente, o suplicio
é o tardio entendimento
e no trágico arrependimento
nada muda, nada existe
é só o tempo que resiste
só o escárnio, e o sofrimento.

by Claudinha M.

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

SE EU FOSSE HOMEM...

Se eu fosse homem
Por um único dia
eu rolaria da cama de manhã
vestiria um trapo qualquer
iria beber com os amigos
E iria atrás das meninas
Sairia com quem eu quisesse
E nunca seria cobrada
Porque os amigos me encobririam

Se eu fosse homem
Acho que eu entenderia
Como é amar uma mulher
Juro que um homem melhor eu seria
Eu a ouviria
Porque eu sei que dói
Perder alguém que se quer
Porque ele está te ignorando
E tudo que voce tinha desmoronando...

Se eu fosse homem
Eu desligaria o telefone
Diria a todos que está quebrado
Só para pensarem que dormi só
Eu me colocaria em primeiro lugar
E faria minhas próprias regras
Porque eu sei que ela seria fiel
e me esperaria voltar...


Agora é um pouco tarde para voltar atrás
Dizer que foi tudo um erro
E pensar que eu perdoaria
Se voce achou que eu esperaria
Voce se enganou...
Mas voce é só um homem
E voce não entende
Como é amar uma mulher
Algum dia voce vai querer
Ter sido um homem melhor


Voce não a ouve
Voce não se importa como dói
Até que voce perca alguem que queira
Por voce a ignorar, e ver
tudo que voce tem desmoronar...

Mas voce é só um homem...
Canção original: "If I Were a Boy"
Robert Kelly/Beyoncé Knowles


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mulheres de Shakespeare Vol.II - LADY MACBETH



A primeira vez que eu li Macbeth, de W.Shakespeare, eu estava estudando teatro elisabetano na faculdade. Lembro-me que foi a primeira peça de Shakespeare com a qual tive contato, talvez porque Macbeth seja a peça mais curta do dramaturgo e nós tínhamos uma  ementa extraordinariamente grande e uma carga horária, para variar, insuficiente. Embora esta peça já tenha sido escrita durante o reinado de Jaime I, ainda podemos identificar muitos elementos característicos dos enredos elisabetanos, sobretudo na intricada relação entre o humano, o divino e a natureza. Nesta peça essa relação está fortemente marcada e, pode-se dizer que constitui o cerne do elemento trágico que se desenvolve na trama. Macbeth é a historia de um homem que trai sua natureza, ao tomar um atalho sem volta influenciado por manifestações do fantástico - e sobretudo, pela figura profundamente terrena de sua esposa, Lady Macbeth - que para tanto, também trai sua essência. É sobre a participação dessa controversa senhora no trágico destino dela mesma e do marido que vamos falar neste post.
Embora o título desta peça de Shakespeare se refira apenas ao nobre guerreiro usurpador, Macbeth poderia facilmente tornar-se The Macbeths - porque o ciclo trágico desta trama não se abate apenas sobre o protagonista, mas sobre o casal. O pathos que se inicia a partir da previsão das Três Bruxas -que saúdam Macbeth à beira da estrada com uma série de títulos nobres e por último, com um enigmático "que será rei no futuro próximo" (I,3) - tem um significado, ainda que sombrio, primeiramente para a dama do que para o cavalheiro. Quanto Lady Macbeth recebe a carta em que o marido relata o encontro com as Três Bruxas, imediatamente percebe o potencial maligno daquelas previsões - e se rende a eles, porque percebe também que o marido é "cheio demais da 'generosidade humana' para seguir um caminho mais curto" (I,5). As palavras de Lady Macbeth espelham os pensamentos do marido que, ao tomar conhecimento de um adversário na disputa pelo trono do velho Rei Duncan, pede que as estrelas escondam suas luzes para que mascarem suas intenções (I,3). Enquanto o marido amadurece a imaginação, a esposa parte para a ação, e invoca os poderes das trevas para que a façam esquecer a sua natureza feminina e dêem a ela a virilidade que ela pensa faltar no marido, para que ela o conduza a conseguir a coroa no presente, e não num futuro próximo.
Quando falamos de Otelo, dissemos que a tragicidade da peça residia no fato de que se tentava a todo custo extirpar a influencia do poder feminino na peça, para que imperasse apenas o "mundo de homens" (Neely, 1983). Em Macbeth, temos o mesmo projeto de extirpação da feminilidade, mas o agente dessa supressão é uma mulher, que escolhe voluntariamente deixar de ser mulher para integrar-se da natureza competitiva do homem e assim, estimular o marido a conquistar o poder pela força, a usar o seu espírito guerreiro a seu proprio serviço. Macbeth não é tão idealista quanto Otelo e é bem mais ambicioso. Mas ambos recorrem à violência sob pressão e ambos são altamente sugestionáveis. O diferencial da trama, nas duas tragédias, é a conduta feminina - Desdemona e Lady Macbeth defendem seu casamento com unhas e dentes; são esposas dedicadas, apaixonadas. Ambas são donas de um forte exame de consciencia, e fieis aos seus desejos e objetivos.
Ambas são complementares aos maridos - embora Desdemona não tenha tido tempo de consruir uma convivência com Otelo, ela tinha aquilo que ele esperava numa mulher - sexualmente, politicamente, culturalmente, socialmente. Ela podia complementá-lo naquilo que ele não possuía de berço. E mais, Desdemona o admirava como homem, e como guerreiro; Lady Macbeth não tinha tanta fé na virilidade do marido - vamos comprovar, mais tarde, que essa descrença tem uma forte conotação sexual - e esperava completá-lo neste quesito, como também na inescrupulosidade, na violencia premeditada, na capacidade para estratégia - mas para isso, ela precisava fugir completamente do estereotipo da esposa ideal e mais ainda, do estereotipo da mulher ideal. Ela precisava ser o homem da relação e transformar generosidade em maldade, ambição em ganância, previsão em realidade, promessa em poder. Em suma, Desdemona foi eliminada porque defendeu a propria essencia; Lady Macbeth foi eliminada porque negou a sua.
A participação de Lady Macbeth é bem frequente nas primeiras cenas, até o assassinato do Rei Duncan. Todo o planejamento que deveria ter sido feito pelo bravo Macbeth foi engendrado pela esposa: a hospedagem do Rei, a morte na calada da noite, a incriminação dos soldados da guarda real e ainda, do adversário de Macbeth ao trono. Depois de conseguir a coroa, Macbeth planeja o assassinato de seu melhor amigo, Banquo, e tambem do filho deste, porque as bruxas também tinham previsto que os filhos de Banquo seriam reis - o que nos leva a um aspecto muito importante na nossa teoria de extirpação do feminino - o casal Macbeth, na epoca retratada pela narrativa, não tem filhos. Lady Macbeth sugere que já foi mãe, quando diz que sabe a sensação de amamentar um ente querido (I,7) - mas Macbeth deixa claro que tem um cetro esteril (atenção para o simbolo fálico contido na palavra "cetro"). Mais adiante, Macduff afirma com todas as letras que Macbeth não tem filhos (IV,3). A inexistência de herdeiros nascidos de Macbeth pode depor contra a potencia sexual do guerreiro, uma vez que as declarações de Lady Macbeth sobre amamentar uma criança deixam claro que ela é capaz de conceber. Talvez por isso Lady Macbeth desacredite tanto na virilidade do marido. Por outro lado, a esterilidade do casal Macbeth denota a ausencia do componente feminino da relação (que tem sua representação máxima na maternidade), como também a presença de uma natureza deturpada, incompatível com a conduta de um casal convencional.
Após o assassinato do Rei Duncan, Macbeth assume o trono - e a partir daí, há uma série de assassinatos engendrados por ele, sem o conselho direto de Lady Macbeth. O poder real se torna cada vez mais caro - o tormento pelo primeiro crime, e também a eterna ameaça sobre a posteridade do reino de Macbeth - um reino estéril, como ele mesmo coloca - fazem com que o novo rei siga matando, abafando insurreições, espalhando medo e revolta. Até o meio da peça, Macbeth vive atormentado pelos fantasmas dos homens que matou - sobretudo Banquo - e pela visão das Bruxas sobre uma linhagem de reis que não se originaria de sua semente. O poder não se solidifica na lei e na administração do Estado, mas na morte - e a angústia mental do Rei Macbeth se torna cada vez mais evidente. Enquanto Lady Macbeth está em cena, senhora de suas faculdades, ela ainda consegue driblar a percepção da corte, a respeito da comportamento suspeito do marido. Mas a partir do momento em que ela desaparece da trama, o seu desenvolvimento fica cada vez mais centrado no declínio de Macbeth, cuja imaginação perigosa descamba para uma violencia sem controle - novamente, há aqui a sugestão psicológica da violencia como substituta do sexo, já que o unico resquicio de feminilidade, representado na presença física de Lady Macbeth, deixa praticamente de existir.
Depois de mais uma previsão nefasta das bruxas, Macbeth se vira contra Macduff - invade o seu castelo e, na falta do homem, assassina sua esposa e filhos. E esse é o começo de sua aniquilação. Àquela altura, Lady Macbeth tem suas últimas e escassas aparições, já com a mente profundamente afetada - sonambulismos, manias como a de manter sempre uma luz acesa ou de sempre fngir estar lavando as mãos - espectros de um espírito despreparado para assumir um natureza que não é a sua. Não apenas por ser mulher, mas também por não partilhar mais das decisões do marido - depois que Macbeth começa a aniquilar tudo e todos para manter sua coroa, ele não participa mais sua mulher de seus atos. Lady Macbeth tinha ido longe demais para tomar psicologicamente o lugar do marido, do homem. Não poderia voltar a ser apenas uma mulher, mas também nunca teria o poder do homem no qual tentara se transformar. Lady Macbeth permanece então num limbo, num estado de sono permanente, representado no seu sonambulismo. E alardeia culpa por todos os lados, ao confessar durante o sono todos os atos hediondos que ajudara o marido a cometer.
O final para Lady Macbeth não poderia ser outro - suicidio. A decisão de morrer tinha que ser apenas dela - Lady Macbeth não viveu pelas mãos de outro, e também assim não morreria. Sua morte é reportada à Macbeth por um criado - e num ato de resignação com o destino da mulher, conclui que a vida é "uma historia contada por um tolo, cheia de som e fúria, significando nada" (5,5). Mas tarde, o proprio Macbeth é morto por Macduff, e mais uma vez vem a imagem da supressao do feminino. Para cumprir com a previsão das bruxas de que nenhum homem nascido de mulher mataria Macbeth, Macduff revela que ele não nascera de sua mãe, mas fora arrancado de seu ventre, antes do tempo. O feminino não influenciou a vida de Macbeth - já que sua Lady decidira renunciar à essa natureza - e também a sua morte só aconteceu pelas mãos de um homem prematuro, sem o advento do cuidado materno. O casal Macbeth, portanto, enfrenta seu destino trágico sem redenção, sem esperança, sem sentido para as suas proprias vidas. Um casal que, em nome de uma ganancia imediatista, trocou o dia pela noite, a paz de espírito pela insonia - e assim fazendo, acabaram traindo seu próprio destino.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Era uma vez...


Era uma vez num reino do norte
Um homem nobre, cuja sorte
Jazia nos olhos do maligno
Seu futuro perdido, indigno
Pelas mãos de um negro trio
Feito só de palavras, vazio

Saudações ao guerreiro nobre
mais tarde rei, em outro robe
roubado às custas da morte
um homem sem lei não é forte
seu leite tão rico em grandeza
transmuta em frio fel, por natureza

Saudações à negra guerreira
mais tarde rainha, companheira
inspiração doente, desfortunada
pelo agouro da noite dessexuada
pela força da própria essência 
uma triste insônia, e maldicência

Pois levou o marido às adagas
no meio do escuro, facadas
no seio da traição, gritaria
no eterno abandono da alegria
a consciência e o cansaço
pesam em constante embaraço

e como no inferno as figueiras
não há herdeiros nem herdeiras
navegando o mar vermelho
e as imagens no espelho
são visões, fantasmanias
são mortes em demasia

Era uma vez um reino invadido
pela mata corrida, pressentido
pelas bruxas num turvo olhar
e o destino do estranho par
é uma história apatetada
de som e fúria impregnada
sem sentido, sem paz
sem menos e sem mais.

by Claudinha M.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Mulheres de Shakespeare Vol.II...


Aguardem...

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