PECADORES CONFESSOS...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Garota com o Dragão no corpo: a guerra dos sexos continua...


Banner da versão sueca do romance para o cinema

Da metade para o final do romance encontramos o clímax da representação dos Homens que odeiam as mulheres, quando Lisbeth e Mikael conectam o desaparecimento de Harriet Vanger a uma série de assassinatos bárbaros, em que mulheres judias eram o alvo. Considerando o conhecido anti-semitismo dos Vanger, Mikael e Lisbeth suspeitam que Harriet poderia ter descoberto um assassino serial dentro de sua própria família - seu sumiço então seria uma queima de arquivo. 

É determinante na narrativa a distorção e/ou desaparecimento da figura materna. Descobrimos através de Mikael que a mãe de Harriet era alcoólatra e incapaz de cuidar dos filhos (Harriet e o irmão mais velho, Martin). E Lisbeth nunca menciona o que acontecera à sua mãe, tudo que a define vem da sua problemática relação com o pai, ou com aqueles que o substituíram. Da mesma forma, as figuras paternas que contrariam esta cadeia de poder patriarcal são punidas, de alguma maneira: Henrik Vanger sofre um derrame e fica debilitado fisicamente; o mesmo acontece com o unico guardião a quem Lisbeth se afeiçoou; e como resultado de suas investigações, Mikael acaba caindo nas mãos do assassino - que é, de fato, um Vanger.

A natureza violenta dos crimes e a sua motivação denotam um nível especial de ódio contra o poder feminino. Todas as mortes foram "inspiradas" em passagens bíblicas do Antigo Testamento - e todas dizem respeito ao pecado comportamental da mulher. A representação do pecado feminino é icônica - a prostituta, a mentirosa, a feiticeira, a prevaricadora. Todas as que caem sob o olhar inquisidor do assassino são espancadas, estupradas, torturadas com algum objeto relacionado ao seu "pecado". É importante ressaltar o forte apelo sexual na punição imposta às "pecadoras". O estupro é um instrumento de retomada de poder constante no livro - uma forma cruel de subjugar a representação feminina. Na contramão desse ódio incandescente, está a sexualidade da própria Lisbeth, que é bissexual; como também a sua capacidade de retribuir a violência sexual contra ela. Mais tarde descobriremos que a desaparecida Harriet possuía o mesmo senso punitivo contra a hostilidade que a cercava; que Harriet resolveu lidar com o pai bêbado e abusivo, basicamente, da mesma maneira que Lisbeth - só que em vez de queimá-lo vivo (como Lisbeth fizera com seu pai), Harriet provocou o seu afogamento. Fogo e Água. O objeto e seu duplo. Lisbeth e Harriet são iguais no conteúdo, embora sejam diferentes na forma.

Na conclusão da narrativa, várias reviravoltas. O assassino, na verdade, são dois - uma herança macabra no clã dos Vangers. O primeiro fora responsável pelos crimes até um ano antes de Harriet desaparecer - depois disso, assume o outro, mais refinado e discreto, herdeiro de sangue e de maldade. A descoberta de sua identidade precipita o sequestro e a tortura de Mikael. Ironicamente no que diz respeito à temática do romance, é Lisbeth quem salva a vida de Mikael, persegue e provoca a morte do assassino. Mas a desconstrução do espírito chauvinista não pára por aí.

Após a morte do assassino, Mikael e Lisbeth descobrem que Henrik jamais deixou de receber seu presente de aniversário porque Harriet, na verdade, estava viva. Portanto, ela mesma mandava o presente. Harriet sobrevivera ao conjunto de pressões e abusos dos homens de sua família fugindo de casa com a ajuda de sua prima Anita, que também lhe emprestou seu nome. Harriet construiu uma nova identidade, uma vida independente, tornou-se dona de si, e nunca foi implicada no afogamento do pai, tido como acidental. Mais uma vez a história de Harriet funciona como um anti-reflexo à história de Lisbeth, já que a protagonista não apenas foi acusada de matar o pai, como também foi considerada insana, incapaz, tendo sua vida controlada por terceiros.

Por fim, era de se esperar a tensão sexual entre Mikael e Lisbeth, o consequente envolvimento no decorrer da investigação, como também o rompimento prematuro depois que Mikael consegue recuperar a vida e a reputação que tinha antes. Mais uma vez, a ironia - é Lisbeth quem salva o repórter, encontrando provas que o permitem reverter o processo judicial contra ele, comprovando a conduta criminosa do autor do processo. Assim, o frágil romantismo de Lisbeth sofre um duro golpe, mas ela não se deixa abater. Apenas monta em sua moto, veste sua armadura de couro e vai embora, em busca de novos desafios - que espero encontrar no segundo livro da trilogia - The Girl Who Played with Fire. Mal posso esperar.


por Claudinha Monteiro.

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