PECADORES CONFESSOS...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA - A perversão de Maria Cecília

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Maria Cecília, a primeira vista, parece uma patricinha. A menina que ainda não conhece a vida. A filhinha do papai - “tão pura que nem alma tem”, como diria o proprio. Timida, recatada, inocente. Inocente demais.
Não podemos esquecer que Otto Lara Rezende, ou Bonitinha mas Ordinária é uma peça de Nelson Rodrigues. E Maria Cecília, mais uma da galeria de personagens polêmicos femininos do universo rodriguiano. Assim, nada é o que parece. E Maria Cecília, na verdade, não é nada, mais nada mesmo, do que aparenta ser.
Filha de um rico empresario, Maria Cecilia tem cara de anjo e jeito de menina. Torna-se noiva por imposição do pai, depois de ser atacada por cinco crioulos num lugar ermo. O noivo, Edgard, é o personagem cujo pathos é o principal eixo da trama. Um homem cuja moral está em constante desiquilibrio, dividido entre a ambição, o desejo e os proprios valores.

Werneck, o pai da moça, é o grande corruptor – compra casamentos, virgindades e violações de toda especie – inclusive sexuais. Tenta comprar Edgard para Maria Cecilia com um cheque voluptuoso que se torna o símbolo do desenvolvimento moral do personagem – rasgando o cheque, Edgard escolhe a retidão de caráter; se descontar o cheque, corrompe-se. Ao cheque junta-se uma frase repetida à exaustão por todos os personagens da peça, e atribuída ao jornalista Otto Lara Rezende (daí à sua menção do titulo da obra): “o mineiro só é solidário no cancer”. Traduzindo: se a farinha for pouca, o caráter vira pó, e o sofrimento do outro passa a ser preferivel ao seu. O “cancer” se solidariza na dor: a dor individual que suprime a dor do outro. Ou nas palavras de Edgard, “se voce não for canalha na véspera, será canalha no dia seguinte”.
Nesse ritmo, Edgard oscila entre o carater e a canalhice durante os tres atos da peça. E essa oscilação também toma corpo na forma (ou nas formas) de Maria Cecilia e de uma outra mulher, que funciona como seu dopler: Ritinha, vizinha de Edgard, e por quem este é atraído. O ingrediente na construção moral das duas personagens é o mesmo: a violação sexual, ou a maturidade forçada. Maria Cecilia, como já dissemos, alega ter sido estuprada por cinco homens; e Ritinha, por outro lado, é uma prostituta que se passa por professora num colégio de freiras. A principio, a mentira e a inocencia parecem estar com Rita e Maria Cecília, respectivamente. Mas, em Nelson Rodrigues, nada é o que parece.
Ritinha conta a Edgard que se tornou prostituta para sustentar a família. Ela conta que a mãe fora acusada de desvio de verbas, e que ela foi atacada por um dos responsáveis na apuração do caso,  que exigiu o abuso sexual em troca da inocencia de sua mãe. A mãe, é claro, não foi inocentada, e Ritinha teve que trabalhar para repor a soma roubada. Escolheu a unica profissão que dava muito dinheiro e rápido. No melhor estilo da Luciola alencariana, a violação de Ritinha é produto da necessidade, e a consequente prostituição um meio de sobrevivência. Sem pai presente e com a mãe desempregada e desequilbrada, Ritinha sacrifica a sua inocencia para botar comida na mesa e dar um futuro às irmãs mais novas. Todo o seu esforço prova ser inútil quando Werneck consegue atrair as duas irmãs de Ritinha para uma orgia onde a virgindade delas é a atração principal. Ritinha tenta salvá-las, mas as três acabam violentadas pelos vários homens presentes. A submissão compulsoria do feminino ao poder do macho, na historia de Ritinha, seguem vertentes distintas e igualmente trágicas: o sexo primeiro por imposição; e depois por (falta de) opção.
A historia de Maria Cecília já é bem diferente. Aprendemos, no  final do terceiro ato, que Maria Cecilia convenceu o cunhado Peixoto (que é apaixonado por ela) a contratar cinco homens negros para violentá-la. “Ela pediu para ser violada!”, grita um exasperado Peixoto, ao contar a verdade para Edgard.  Maria Cecilia queria que Peixoto assistisse o estupro, e a ouvisse gritar o seu apelido de infância – cadelão. Racismo, sexismo, chauvinismo: tudo explorado numa única cena. Rodrigues descreve com exatidão a mesma historia, em dois pontos de vista. A primeira na voz inocente e mentirosa de Cecilia, quando ela conta a Edgard a sua versão sobre o estupro; a segunda na voz perniciosa de Peixoto, quando este revela toda a verdade. O que fica claro, em ambos os casos, é a relação entre o subjugo sexual e o poder. Na versão de Cecília, ela é dominada; na versão de Peixoto, Cecília domina, paga para ter a experiencia sexual que bem entende, explora a força do macho que lhe atrai, comprando o proprio prazer.
Não é preciso dizer qual versão é a mais fácil de acreditar, porque é a mais proxima da cultura misógina que permeia o enredo: a mulher é tão frágil quanto volúvel e precisa ser protegida ou subjugada. Por isso, Cecilia circula impune e praticamente incógnita por quase toda a trama, manipulando todas as figuras paternas: o pai, o cunhado, o noivo. Acaba morta pelas mãos de Peixoto, com o rosto desfigurado por uma garrafa quebrada. É a beleza, simbolo do poder feminino na peça, sendo destruida pelo ódio e pela violência, atributos essencialmente masculinos.
Temos nessas duas mulheres, portanto, o contraponto entre o pecar por necessidade e o pecar por promiscuidade. Mas ao contrario de Maria Cecilia, Ritinha (a Luciola de Rodrigues) encontra sua redenção em vida, ao fugir com Edgard para renascer como esposa, namorada e amante de um homem só. Edgard escolhe a retidão e rasga o cheque. E o sol nasce para o casal, prenunciando uma nova realidade. O desaparecimento de Cecilia e o renascimento de Ritinha são duas faces de uma mesma moeda: a satisfação sexual como parâmetro para mensuração do poder da mulher no contexto machista desenvolvido para a trama. Bonitinha, mas ordinária é um titulo que denota toda a cornofobia masculina, bem como todo o entendimento tendencioso sobre a perversão que parte da mulher. Certa ou errada, Maria Cecília fez o que quis; o resto é dissimulação e silêncio.
 

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Um comentário:

MEUS POEMAS disse...

Claudinha já li todos, mt legais!
Queria convidar vc pra acompanhar meu romance que estou publicando em capítulos,, se quiser ler estou no segundo capítulo!
http://meuromance1.blogspot.com/
Bjssss
Gena

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