PECADORES CONFESSOS...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Catherine Earnshaw - cont.

A forma como Emily Brontë compõe a sua heroína é através de um romantismo imaginativo, introspectivo, uma luta interna constante e inútil. O personagem se debate com si mesmo, como se fosse um corpo habitado por diferentes almas cujos poderes se equiparam. Essa abordagem se identifica com a personalidade da própria autora, descrita pela irmã Charlotte. Nesse aspecto, o elemento metafísico parece inevitável no romance, e Catherine passa de presença terrena a presença etérea, um fantasma da vida que Heathcliff não pode ter. O amor obsessivo de Heathcliff o assombra até o fim da trama, quando o fantasma de Catherine finalmente vem buscá-lo. Assim, o que seria uma união passional frustrada torna-se uma união espiritual atormentada, cercada de obsessão e ódio – portanto bem distante da união espiritual professada no matrimonio convencional.
A antiga casa dos Earnshaw, onde Heathcliff passou uma infância conturbada ao lado de Catherine, é descrita como um antro de tristeza e solidão. Comprada por um Heathcliff adulto e amargo, é palco dos assombramentos do fantasma de Catherine, e é o cenário perfeito para o estabelecimento do aspecto metafísico, que neste caso se traduz numa espécie de demonização do amor, através da aliança entre esse sentimento e um desejo desmedido. Em Jane Eyre, o aspecto metafísico é substituído pelo psicológico, e o assombramento em Thornfield é engendrado pela presença da mulher louca no sótão. É a loucura de Bertha que atormenta o lar dos Rochester, o fantasma do passado é de carne e osso e vive enclausurada numa ala da mansão. A passionalidade no romance de Charlotte Brontë é representada na fúria incontida de Bertha, no desapego às convenções de Rochester, e na fúria contida de Jane Eyre. Apesar da descrição de Thornfield nos remeter também a um cenário sombrio, o Karma está concentrado nas pessoas que nela vivem.
E qual seria então o pecado de Catherine Earnshaw? Gilbert & Gubar novamente nos ajuda neste ponto, quando afirma que o ponto principal nos romances das Brontë é que suas heroínas são sempre espirituosas e independentes (2000:249). Estão sempre à margem daquilo que se espera delas. O que muda, no caso do romance de Emily Brontë, é a perspectiva: a espirituosidade de Catherine acaba por destruí-la, exatamente por não conseguir moldar as próprias paixões, exatamente por não se enquadrar; já Charlotte Brontë consegue um desfecho mais otimista para sua Jane Eyre, construindo para a heroína uma espécie de bildunsroman, um processo de amadurecimento no qual Jane se percebe capaz de lidar com a ansiedade sexual, o amor, e a sua própria intimidade, encontrando para si um lugar no mundo que Catherine Earnshaw não parecia apta a viver.

Share/Save/Bookmark

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails