PECADORES CONFESSOS...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

As Cariocas: Stanislaw Ponte Preta e a veia cômica do realismo rodriguiano.



As Cariocas (Rede Globo 2010)


Elas são volúveis, neuróticas, desconfiadas e potencialmente insatisfeitas com suas próprias vidas. Mas em vez de matar suas figuras paternas, corromper suas crias, suicidar-se ou fugir para longe, elas procuram amenizar uma existência para elas caótica e sem saída. A ambientação não podia ser outra – a cidade do Rio de Janeiro. Assim temos As Cariocas (Globo – 2010), série criada por Daniel Filho a partir do livro de crônicas homônimo escrito em 1967 por Sérgio Porto (1923-1968), alias Stanislaw Ponte Preta. O elenco dirigido por Cris D' Amato e Amora Mautner interpreta o cotidiano de dez insensatas mulheres, em episódios pontuais associados à determinados bairros da cidade do Rio. Uma série de enquetes que, se transpostas para o teatro, poderiam ser classificadas como Comédias Cariocas, numa alusão esteticamente perfeita às Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues (1912-1980)*.

A “rajada de monstros” que formava o teatro de Nelson Rodrigues causava espanto, repulsa, reconhecimento e aplauso e valorizava, segundo o dramaturgo, a reflexão pela catarse, e o aprendizado pela dor. Adquiriu através do crítico Sábato Magaldi denominações específicas de acordo com as características mais marcantes nas peças – embora não se pudesse dizer que elementos míticos, psicológicos e trágicos não estivessem presentes em todas elas. Ainda assim, o que Magaldi apelidou de Tragédias Cariocas constituía uma série de enredos dramáticos ambientados na cidade maravilhosa, em que acontecimentos simples do cotidiano tomavam proporções grotescas e em alguns casos, violentas. A maioria das histórias das peças encontra ressonância no conjunto de crônicas intitulado A vida como ela é (1950), idealizado por Rodrigues para o jornal A Última Hora.

A questão é que a heroína rodriguiana, nas Tragédias Cariocas como nos demais trabalhos do dramaturgo, é o paradigma da frustração e da revolta com o papel que lhe é imposto. Em consequência, torna-se amarga, ferina, ou pre-disposta à transgressão – do adultério ao escracho, da dissimulação ao assassinato. São mulheres fortes, pássaros em gaiolas chauvinistas que, por vezes, bicam as proprias grades. O objetivo de Nelson sendo o enfrentamento e a crueza, seus textos descambam invariavelmente para a ironia patética ou para a tragédia violenta. Em Os Sete Gatinhos, as filhas prostituídas pelo pai se unem para matá-lo a facadas. A Glorinha de Perdoa-me por me traíres manipula e envenena o tio, assassino de sua mãe. A “Falecida” orienta em carta que seu amante financie-lhe um enterro de primeira, mediante o pedido de seu marido. Sem falar de um Beijo “gay” no Asfalto, e da Bonitinha mas Ordinária Maria Cecília, que já nos rendeu um artigo anterior. Em todos os casos o humor (se existe) é involuntário, e a atmosfera é pesada, lúgubre. Tal não é a saída dramática de Sérgio Porto.

Nas Cariocas de Porto, sente-se a mesma dose de frustração e volubildade da mulher rodrigueana, porém, a mulher dos anos 60 é outra – mais falante, demolidora de preconceitos. Assim as mulheres expressam seus anseios de maneira mais eloquente, sem precisar de subterfúgios. Menos condescendentes, amenizam as próprias dúvidas sendo um pouco mais delas mesmas, sua neurose não tão sujeita à total repressão. São famílias sem a figura paterna tão presente, como em “A desinibida do Grajaú”, onde a maior influencia na socialização da heroína é a mãe, que incentiva estereotipação da filha – e da mulher por tabela, em um padrão de aparência, uma herança da visão machista do feminino. Em Sergio Porto, a crítica se rende ao sarcasmo e a monstruosidade se revela através do ridículo, tornando o “aprendizado” mais sutil, porém não menos catártico. Apenas o instrumento de catarse muda do choro para o riso.

Numa outra análise, podemos até verificar uma certa paridade entre, por exemplo, a Adultera da Urca e a rodriguiana A Mulher sem Pecado. embora a paranóia obssessiva de Olegário não se observe no suposto marido traído nesta crônica de Porto. A degringolação da instituição do casamento, e o fato da mulher perder a paciencia com a iniquidade dentro do relacionamento amoroso constitui a base da potencial frustração de quase todas as heroínas retratadas na minisérie, e também encontra ressonância nas mulheres das Tragédias Cariocas de Rodrigues.

O pecado dessas mulheres é a voz, é a originalidade de expor seu pensamento, seu comportamento, seu sentimento. Esta exposição culmina em dois vértices: a comicidade irreverente de Stanislaw Ponte Preta e a tragicidade atroz de Nelson Rodrigues. Pela dor ou pelo riso, as mulheres de ambos os autores colocam a transgressão em perspectiva e, assim, desenvolvem uma forma alternativa de extravasar a si mesmas.


*As Tragédias Cariocas são, de acordo com Sábato Magaldi: A Falecida, Perdoa-me por me traíres, Os Sete Gatinhos, O Beijo no Asfalto, Boca de Ouro, Bonitinha Mas Ordinária, Toda Nudez Será Castigada e A Serpente.

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6 comentários:

Simplesmente disse...

gostava de ver...

mundo da lu disse...

Muito bom, Nelsom Rodrigues é incrível, sou fã rasgada, e você me deixou com vontade de tê-lo visto, não assisti ao programa, espero que tenha em dvd.
beijo

Priscilla Marfori... disse...

Perfeitas palavras...

B-Jos. doces pra você.

=)

Mila Lopes disse...

Olá!

Não conhecia, fiquei curiosa...

Bjs

Mila

El Brujo disse...

Também sou de peixes... Daria certo?
Ótimo sábado!

José María Souza Costa disse...

Belissimo o seu texto.Adorei o seu blog. Um luxo ! Mas, estou lhe convidando a visitar o meu, muito simplório por sinal,e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando por vc, lá
Abraços de verdade

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