PECADORES CONFESSOS...

domingo, 5 de setembro de 2010

Mulheres que Pecam em Jane Austen - O "Orgulho e Preconceito" de Elizabeth Bennet

Cenas do filme Pride and Prejudice (2005)

Ler a obra da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817) é como ler o nosso José de Alencar - é um retrato aguçado, porém crítico de sua própria época. Como em Alencar, a ironia profunda da obra de Jane Austen só podia ser sentida se perscrutada sob a casca da extensa caracterização dos costumes da Inglaterra georgiana/vitoriana, presente em todas as suas narrativas. Pessoalmente, Austen era uma mulher inteligente, auto-didata, e provavelmente com uma cultura superior à permitida para as mulheres da sua época - já que o pai, Reverendo Austen, trabalhava também como tutor na educação de crianças abastadas e era dono de uma extensa biblioteca. Criada em volta dos livros, acostumada a ler e a refletir seus proprios pensamentos em escritos precoces - as suas primeiras narrativas datam dos seus 16 anos - Jane desenvolveu muito cedo uma sensatez e uma gama de interesses incomum para o seu sexo que, segundo ela mesma, de forma geral buscava freneticamente nada mais que um bom casamento. Coincidencia ou não, Austen morreu do que hoje conhecemos por Doença de Addison, aos 41 anos, sem jamais ter se casado.

A questão de como e em que se deve educar as mulheres, assim como as manhas e artimanhas femininas para conseguirem casar-se, estão descritas de forma extensiva da obra de Austen. Em Pride and Prejudice (1813) esta temática está centrada na familia Bennet - o reservado Mr Bennet, a inconveniente Mrs Bennet e as cinco filhas: Jane (22), Elizabeth (20), Mary (18), Catherine (17) e Lydia (15). Cada uma das meninas com um aspecto marcante em suas personalidades. Entre a beleza e a ingenuidade de Jane e a voluntariosa imaturidade de Lydia, temos, como principal divisor de águas, a sagacidade com que Elizabeth Bennet constroi a maioria dos pontos de vista que compõem a narrativa de Austen. Uma peculiaridade nas construções de Elizabeth, porém, é a sua tendência a se deixar influenciar pelas primeiras impressões, pela imagem aparentemente inescrutável das situações e pessoas. É por esse viés que se estabelece, em principio, uma relação de mutua animosidade entre Elizabeth e Fitzwilliam Darcy, um aristocrata em visita ao condado onde moram os Bennet. O distanciamento que Mr. Darcy impõe à sociedade ruralista local acaba por taxá-lo de orgulhoso por todos, inclusive pela sagaz Elizabeth.

O orgulho, porém, não é característica exclusiva da personalidade de Darcy - Elizabeth também se orgulha das proprias conclusões sobre a conduta daqueles à sua volta. O seu julgamento do outro é completamente unilateral. Assim como Darcy não se deixa envolver pela sociedade local, Elizabeth mantém sua própria distância de Darcy, e julga conhecê-lo a partir deste distanciamento. É interessante a forma como Austen constrói esse espelho entre Darcy e Elizabeth de tal maneira que o título do romance se aplica de forma igual aos dois personagens. Não se pode dizer que orgulho se refere a Darcy enquanto preconceito define exclusivamente Elizabeth e vice-versa. Ambos possuem um pouco dos dois aspectos. O que nos remete também ao fato de Elizabeth, sendo mulher, ser capaz de construir uma identidade que de outro modo, seria tipicamente chauvinista. O feminino de Elizabeth não é o "feminino" como o entende as sociedades do romance  e da "vida real" - ou seja, da Inglaterra do sec. XIX. Quando define a narrativa sob o ponto de vista de Elizabeth, Austen confere ao romance uma aura feminina e racional, que é como a escritora defende a formação da mulher, como bem vimos na citação do nosso post anterior.

Assim, Elizabeth mantém durante toda a narrativa um postura perspicaz, porém tendenciosa, enquanto apresenta a si mesma de maneira "rebelde", isto é, sem a preocupação em se "educar" para o casamento, sem habilidades extraordinárias nem prendas, sem floreios. Uma mulher que gosta de ler, de conversar, que expõe suas opiniões de maneira direta, sem fugir a eventuais enfrentamentos. Como quando recusa o pedido de casamento do pedante Mr Collins e num primeiro momento, do próprio Darcy. Ou quando é confrontada pela tia aristocrata de Darcy sobre o seu interesse no rapaz. Enfim, uma mulher independente que, por isso mesmo, já é profundamente só. Mas a solidão não seria um final possível para as heroínas de Austen.

Elizabeth começa a enxergar o verdadeiro Darcy quando a Lydia Bennet foge com o pilantra George Whickam, provocando um escandalo que pode comprometer o futuro de todas as outras irmãs. Darcy usa o tio de Elizabeth para patrocinar o casamento entre Whickam e Lydia, que retorna à cidade como se nada tivesse acontecido, e o seu casamento tivesse sido o mais convencional de todos. Whickam, até então visto por Elizabeth como vítima da intransigência de Darcy, já havia na verdade seduzido a irmã deste, Georgiana. Diante da descoberta de que Darcy se esforçou para emendar a situação de Lydia, Elizabeth tem o seu orgulho e suas convicções testadas, e lentamente estas caem por terra.

A paixão por Darcy é o unico caminho emocional possível para Elizabeth. No ambiente construído pela narrativa, Darcy é o unico homem capaz de compreendê-la e aceitá-la. O amadurecimento emocional da heróina passa por um desenvolvimento psíquico fundamental - o de aliar a sua natureza questionadora ao seu legado como mulher de seu tempo. O casamento para Elizabeth só pode se basear na cumplicidade com o parceiro, que ela encontra no já apaixonado Darcy. Dessa forma, ela consegue unir a sua necessidade como ser racional à necessidade da mulher de seu tempo, que só tem voz através do marido. Elizabeth e Darcy, através de seus amadurecimentos, acabam por construir uma relação baseada em entendimento e respeito mutuos, além de uma tensão sexual irresistivel: "Você enfeitiçou meu corpo e espírito e eu amo, amo, amo voce", afirma um corajoso e romantico Darcy no final do romance, ao pedir Elizabeth em casamento pela segunda vez.




Os casamentos então, somam-se no final feliz de Pride and Prejudice. Mas, independente disso, Austen deixa uma voz intermitente na figura da alegre, sagaz, ferina e apaixonada Elizabeth. Que a mulher não seja pura e simplesmente uma "fina dama". Que seja capaz de ter sua opiniao, ainda que equivocada. "Ninguem deseja a calmaria para o resto da vida", afirma a escritora. E embora tenha terminado seus dias sozinha, Austen faz questão de dar a todas as suas heroinas uma total realização emocional, promovendo o equilibrio entre a voz feminina e o papel concedido a elas pela sociedade.


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Um comentário:

Mayara disse...

Muito legal sua análise da personalidade de Elizabeth Bennet, que é uma das minhas personagens favoritas da literatura. Com relação aos finais de Jane Austen, acho que em geral e inconscientemente eles se opõe ao destino da própria autora... você já assistiu "Amor e inocência"? É bonito, delicado, e deixa um gosto amargo na boca no final.

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