PECADORES CONFESSOS...

domingo, 20 de dezembro de 2009

MULHERES QUE PECAM N. 7 - Edição Especial p.I



De acordo com o livro bíblico Gênesis, o primeiro ente representante da espécie humana foi o homem; e mais tarde, para que o homem tivesse uma companheira, Deus criou a mulher. Adormeceu o macho e tirou-lhe uma costela, para fazer o corpo feminino. Colocou ambos num jardim auto-suficiente e disse-lhes que comessem de tudo, menos do fruto de uma determinada árvore. Mas Eva, a primeira mulher, desobedece as ordens do Criador, comendo do fruto e dando-o ao seu marido, influenciada pelo animal guardião da árvore. Depois de descobrir a traição de Eva, Deus condena o homem a trabalhar a terra, caçar e pescar para sobreviver; condena a mulher a sangrar todos os meses, a parir dolorosamente os seres de sua espécie, e ser subjugada por seu marido; e condena a espécie do guardião da árvore a rastejar para sempre. Assim o primeiro livro do Velho Testamento descreve o mito de Eva, mulher de Adão e portadora do genoma supostamente maldito da espécie feminina.



Muitas coisas podem se inferir da narrativa inicial da Bíblia: primeiro, ela possui todos os elementos de uma lenda, um folclore transposto para o papel. O elemento místico representado pelo Criador; a demonstração de poder do ser místico, criando os elementos da natureza, flora, fauna e por fim, o ser humano. Os personagens-súditos, criados para viver com fartura, desde que demonstrassem subserviência ao Criador – uma mensagem sublimar e bastante política. E claro, o pecado original, que é também o pecado feminino: é a mulher que aspira ao conhecimento, exercita a curiosidade e desafia o desejo do Criador. Ao comer do fruto, adquire discernimento, perde a inocência e toma consciência do próprio corpo, do sentido das próprias ações e palavras; e faz uso disso, para convencer o seu inocente marido a comer do fruto ele mesmo. A moral da historia é bastante clara: a mulher deve suportar a dor, a submissão como castigo por sua insolência natural. O pecado original, isto é, o afloramento da consciência, do sexo e do desejo é que provoca a necessidade das iniqüidades de gênero, o homem deve isso, a mulher aquilo. Devemos a Eva, primeira mulher, o advento do sofrimento, para remissão de nossas imperfeições.


Eva é o único personagem feminino da Bíblia que é, assumidamente, um mito. É uma criação, para justificar um controle acharcante sobre a moral e a conduta femininas, uma razão mística (por mais contraditório que isso soe) para a opressão do desejo, do pensamento e da curiosidade, associados invariavelmente à mulher. No tempo em que a criação do mundo parecia plenamente justificada por teodicéias, o mito de Eva associa a natureza feminina ao perigo, e o corpo feminino ao pecado original, isto é, o sexo feminino é extático, como também catártico. E a catarse requer distanciamento, indiferença. Neste caso, Eva é o inconsciente coletivo masculino contra a mulher, associando-a inevitavelmente ao erro.


Para resumir, o mito de Eva, na cultura semita, relaciona o pecado à desobediência, e não à falta de um discernimento que, afinal, não era facultado ao casal humano do Jardim do Éden. Toda a simbologia do conhecimento se concentrou na imagem da árvore frondosa, gigante, com frutos enormes e um animal enrolado nos galhos; ou seja, toda a consciência do bem e do mal, prostrada no centro do paraíso, se materializava apenas nos sussurros do animal guardião da árvore. O saber, até aquele momento, não era delegado à raça humana, semelhante, na tradição semita, ao próprio Deus. A idéia de que a mulher possa ter desafiado este estado de coisas apenas por curiosidade, ou por influência externa – e não por valorizar o conhecimento em si, o mistério da criação e a contemplação do divino – atribui ao feminino uma ausência fundamental, um vazio de sentido. Essa representação negativa da conduta feminina que se origina, não gratuitamente, da primeira mulher, fornece ao feminino uma genética perversa, implicando que a mulher é naturalmente perigosa.


Por outro lado, se contestarmos a idéia da falta de sentido na curiosidade feminina, podemos atribuir o pecado original feminino à ambição de se igualar ao divino, podendo os sussurros do animal ser interpretados como o próprio fluxo de consciência da mulher, amadurecido ou despertado precocemente. A associação posterior do animal guardião da árvore à serpente (porque Deus condena o animal a rastejar), mantém a crítica negativa ao feminino, porque aí infere-se que a consciência feminina é ambígua, pervertida, ardilosa, sempre esperando o bote. A serpente também é um animal venenoso, que mata para sobreviver: silenciosa e sutil, ela espera e destrói.


Significativamente, também, o guardião da árvore é frequentemente associado a um animal macho que sussurra no ouvido da mulher. Isso nos oferece uma conotação igualmente negativa ao feminino, que remete a um outro “pecado” – o adultério. Eva foi criada para desposar Adão. Adão era, numa visão pragmática, seu marido, o único macho com o qual ela deveria se relacionar. Se Eva ouve a voz de uma serpente-macho, isso significa que ela não apenas se deixou influenciar, mas também se deixou seduzir. Nunca é demais lembrar que a serpente, ou a cobra, é um animal que frequentemente simboliza o falo, o órgão sexual masculino. Assim, atribui-se ao feminino, além da curiosidade, da ganância e da malícia, também a luxúria, a volúpia – ligada diretamente à voracidade, já que Eva COME do fruto oferecido pela serpente – e uma propensão à deslealdade. O ato de comer, neste sentido, também seria simbólico.


Pode-se perceber, portanto, o mito de Eva como o mito de uma gênese complicada, difícil de explicar e por isso, propositalmente rechaçada, que é a gênese feminina. É possível uma visão positiva do mito de Eva? Curiosamente, sim. Um olhar mais atento pode perceber em Eva uma mulher questionadora, fragmentada, cética, buscando sempre o saber, o desafio e o êxtase – e afinal, por que é que isso é tão ruim? Não podemos esquecer que, antes de qualquer coisa, Eva seria uma criação de DEUS, estruturada a partir da ossatura do HOMEM (de acordo com o mito). Será que isso não confere uma herança de ambigüidade à natureza feminina? Não teria o próprio Criador antecipado isto? È possível que Eva tivesse sido criada exatamente para fazer aflorar a consciência, a maturidade, a coragem, e até mesmo, a diferença entre os sexos? Com o estímulo correto, Eva seria uma líder nata de seu povo. Sabemos, no entanto, que o mito não foi escrito para conferir esse poder a uma mulher. Apenas, na sua ânsia em condenar, acaba nos oferecendo uma oportunidade de esboçar um modelo provocativo e por isso mesmo, digno de admiração da conduta feminina.


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Um comentário:

Silvio B. disse...

Eu pecador me confesso.
O pecado não existe, existe sómente a vontade de pecar, a culpa, o remorso.

E sim. Eva foi única.
O "bode expiatório" da culpa que era preciso deitar para cima de alguém...


Gostei muito de conhecer este cantinho.
Silvio B.

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