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PECADORES CONFESSOS...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Mulheres que Pecam: ATIVAR!

"Toda mulher é doida. 

Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo
interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar o nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá prá ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso, temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que
nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar loura e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
 
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota.

Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais
nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra."
 
Martha Medeiros

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

No proximo Mulheres que Pecam: Grace Marks, por Margatet Atwood...

Em Alias, Grace, da escritora canadense Margaret Atwood, vamos explorar uma leitura ficcional da mente de uma criminosa da vida real - uma jovem de 16 anos chamada Grace Marks, acusada em 1843 de cumplicidade no assassinato do patrão e de sua governanta e amante. Mas em vez de apenas relatar fatos historicos, apresento uma cantiga popular que retrata bem a trajetória dessa mulher que peca. Tradução de minha autoria.  


Grace Marks e James McDermott


A Balada de Grace Marks



Grace Marks numa casa servia
Dezesseis anos ela tinha,
McDermott era da estrebaria,
Trabalhavam para Thomas Kinnear.

Thomas Kinnear era homem de bem,
Uma vida boa levava ali,
E amava sua empregada também
Chamada Nancy Montgomery.

O Nancy querida, não se entristeça
Para a cidade agora eu vou
Buscar proventos da sua despesa,
Lá do banco em Toronto.

O Nancy nem tão afortunada
O Nancy nenhuma rainha,
Mas assim vive toda arrumada
Como nunca vi tão fina.

O Nancy não é uma Senhora
Mas me trata como a um escravo,
Me faz trabalhar até a aurora,
Vai me matar com tanto agravo.

Mas Grace amava o bom Kinnear,
E McDermott amava a Grace,
E era aquele tipo de amor
Que faz da desgraça, deleite.

O Grace, seja meu grande amor,
O não nunca serei de ti,
Enquanto ela viva for,
Nancy Montgomery.

E marcou Nancy a machadadas,
Na cabeça a atingiria

Ele a arrastou até a entrada
E a jogou da escadaria.

O poupe-me senhor McDermott,
O poupe-me, disse ela,
O poupe-me, Grace Marks,
E te vestirei a mais bela.

O nada disso é por mim,
Nem pelos que hão de vir,
Mas por meu amor, Thomas Kinnear,
Eu o veria antes de partir.

McDermott agarrou-lhe os cabelos,
Por Grace Marks sua cabeça apertada,
E estes dois monstros, sob apelos
Mataram Nancy estrangulada.

O que eu fiz, minha alma perdida
Eu temo o que está por vir!
Para nos salvar, não há saída
Vamos matar Thomas Kinnear.

O não, O não, por favor,
Eu lhe imploro por sua vida!
Não, ele morre, pois você jurou
Que meu amor você seria.

E Thomas Kinnear chega; e com efeito,
E ao botar os pés na porta
McDermott atira em seu peito
E tripudia sua carne morta.
(...)
E roubaram toda a prata,
E roubaram o ouro do morto,
E com a carroça pegaram a estrada,
Em direção a Toronto.
(...)
As mãos de McDermott ela tomou,
Atrevida por só si,
E num hotel ela se hospedou,
Com o nome de Mary Whitney.

Encontraram os corpos na celeira,
A face dela já decomposta,
E ela estava sob a banheira
E ele estava deitado de costas.

Mas antes da metade do dia,
Um quarto de dia ou um pouco mais,
Os bandidos a lei acharia,
Em um quarto de casais.

Grace Marks sob juramento,
Negou tudo que se passou.
Eu não vi o estrangulamento
Eu não ouvi se ele atirou.

Ele me forçou a fugir,
E me disse que se eu falasse,
Ele faria com que sua arma,
Para o inferno me mandasse.

McDermott sob juramento,
Eu sozinho nada fiz,
Mas todo o meu intento,
Grace Marks assim o quis.
(...)
McDermott foi enforcado,
Nos corredores da morte,
E Grace foi encarcerada,
Amargando a triste sorte.

(…)
Grace Marks na prisão irá
por toda vida cumprir pena
Por seu pecado vai pagar
Mesmo que se arrenpenda.

Mas se Grace Marks se arrepender,
E confessar seus pecados,
Então terá, quando morrer
Os seus crimes perdoados.
(...)
E ela sera purificada,
E aos Céus ela passará,
No fim da caminhada,
No Paraíso ela viverá.


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domingo, 24 de julho de 2011

Mulheres que Pecam In Memorian - Amy Winehouse (II)



Essa música é a essência da Mulher que Peca. E notem que Amy abusa de mostrar os próprios vícios, os inferninhos, a bebida, a promiscuidade...mas com personalidade e num som longe de ser vulgar.

Fica a sensação de um grande desperdício... como em toda tragédia.

Mais um pouco de Amy Winehouse (1983 - 2011)


YOU KNOW I'M NO GOOD (VOCE SABE QUE EU NÃO PRESTO)

Te encontrei lá embaixo no bar e ouvi
Mangas arregaçadas na sua camiseta de caveira
Você diz "Por que transou com ele hoje?"
E me cheira como se eu fosse Tanqueray

Porque você é meu companheiro, meu cara
Entregue-me sua Stella e voe
Quando já estou porta à fora
Você me arrasa como Roger Moore

Eu me enganei
Como eu sabia que me enganaria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto

Lá em cima na cama com meu ex-namorado
Ele está no lugar certo, mas não consigo ter prazer
Pensando em você nos lances finais,
É quando eu gozo

Corro pra te encontrar, batatinhas e cerveja
Você fala "quando estivermos casados",
porque você não tem rancor
"Não haverá mais nada dele"
Eu chorei por você no chão da cozinha

Eu me enganei
Como eu sabia que me enganaria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto

Doce reconciliação, Jamaica e Espanha
Estamos agora como estivemos antes
Eu na banheira e você na cadeira
Lambe seus lábios enquanto eu molho meus pés

Então você nota uma pequena mancha no carpete
Sinto um frio no estômago e me agito por dentro
Você não dá a mínima e isso é o pior
Você realmente cravou a faca primeiro

Eu me enganei
Como eu sabia que me enganaria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto

Eu me enganei
Como eu sabia que me enganaria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto




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Mulheres que Pecam In Memorian - Amy Winehouse (1)



Com uma letra que mostra bem a natureza transgressora desse talento latente e auto-destrutivo.
Uma perfeita heroína byroniana...e a crônica de uma tragédia anunciada na própria obra.


REHAB (Reabilitação)

Tentaram me mandar pra reabilitação
Eu disse "não, não, não"
É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
Vocês vão saber, saber, saber
Eu não tenho tempo
E mesmo meu pai pensando que eu estou bem;
Ele tentou me mandar pra reabilitação
Mas eu não vou, vou, vou

Prefiro ficar em casa com Ray (Charles)
Não posso ficar 70 dias internada
Por que não há nada
Não há nada que possam me ensinar lá
Que eu não possa aprender com o Sr. (Donny) Hathaway

Não aprendi muito na escola
Mas sei as respostas não estão no fundo de um copo

Tentaram me mandar pra reabilitação
Eu disse "não, não, não"
É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
Vocês vão saber, saber, saber
Eu não tenho tempo
E mesmo meu pai pensando que eu estou bem;
Ele tentou me mandar pra reabilitação
Mas eu não vou, vou, vou

O cara disse: "Por que você acha que está aqui?"
Eu disse "não faço idéia
Eu vou, vou perder meu amor
Então eu sempre mantenho uma garrafa por perto"
Ele disse "acho que você só está deprimida,
Me dê um beijo aqui, amor, e vá descansar"

Tentaram me mandar pra reabilitação
Eu disse "não, não, não"
É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
Vocês vão saber, saber, saber

Eu não quero beber nunca mais
Eu só oh, só preciso de um amigo
Não vou desperdiçar dez semanas
Pra todo mundo pensar que estou me recuperando

Não é só meu orgulho
É só até essas lágrimas secarem

Tentaram me mandar pra reabilitação
Eu disse "não, não, não"
É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
Vocês vão saber, saber, saber
Eu não tenho tempo
E mesmo meu pai pensando que eu estou bem;
Ele tentou me mandar pra reabilitação
Mas eu não vou, vou, vou




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domingo, 3 de julho de 2011

Free Will




Every day I choose

Not to be bad


Not to abuse

Not to be mad

and the thrilling voices

of my muse

I'd rather use

inside my head.





(Claudinha Monteiro)


*exercitando meu inglês um pouquinho. Talvez minha musa queira traduzi-lo uma hora dessas ;)

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domingo, 19 de junho de 2011

Mulher que peca? A polemica do novo video clip da cantora Rihanna.



Depois de flertar com o sadomasoquismo em uma de suas recentes canções, a cantora Rihanna rasgou uma ferida ainda maior com o clipe da sua nova música "Man Down". Por que? Bom, o clipe e a letra da música sugerem que pelo menos dois crimes foram cometidos. Um deles é revelado logo nos primeiros segundos do vídeo, quando Rihanna aparece assassinando um homem a tiros. O segundo...bom, se eu falar estraga a surpresa...

Se você ainda não assistiu, assista. O clipe, na minha opinião,é mais um chamado para uma discussão importante sobre a mulher no imaginário masculino do que propriamente uma "apologia à violência". Curiosa para saber o que voce acha...

Segue abaixo a letra traduzida da música:

Eu sei que não estava certo
Eu não consigo nem dormir à noite
Não consigo tirar isso da minha mente
Eu preciso cair fora
Antes que eu acabe atrás das grades

O que começou como uma simples briga
Transformou-se numa situação sem controle
Só de pensar no que eu estou enfrentando
Me dá vontade de chorar

refrão 1:
Porque eu não quis machucá-lo
Poderia ter sido o filho de alguém
E eu acertei seu coração
Quando eu puxei a arma

refrão 2:
Rum bum bum bum rum bum
Bum bum rum bum bum bum
Homem no chão
Rum bum bum bum rum bum
Bum bum rum bum bum bum
Homem no chão

refrão 3:
Oh, mamãe, mamãe, mamãe
Eu atirei em um homem
Na estação central
Na frente de uma multidão
Oh, por quê, oh, por quê?
Oh, mamãe, mamãe, mamãe
Eu atirei em um homem
Na estação central

É uma 22, eu a chamo de Peggy Sue
Porque ela se põe no meu lugar
O que você quer que eu faça?
Se você estiver me engando
Eu perco o meu comando
E agarro a minha arma

Eu não queria derrubá-lo
Mas é tarde para voltar atrás
Não sei o que eu estava pensando
Agora ele já não vive
Então, eu vou deixar a cidade

(refrão 1, 2, 3)
Olha, eu nunca pensei que faria isso
Nunca pensei que faria isso
Nunca pensei que faria isso
Oh, Deus
O que houve comigo?
Houve comigo?
Houve comigo?
Porque eu puxei o gatilho?
Puxei o gatilho, puxei o gatilho, BOOM
E acabei com um negro, acabei com a vida de um negro tão cedo
Quando eu puxar o gatilho, puxar o gatilho em você
Alguém me diga o que eu vou, o que eu vou fazer

Rum bum bum bum rum bum
Bum bum rum bum bum bum
Dizem que há um homem caído
Rum bum bum bum rum bum
Bum bum rum bum bum bum
Homem caído

Porque agora sou uma criminosa, criminosa, criminosa
Oh senhor, oh, misericórdia, agora sou uma criminosa
Homem caído
Diga ao juiz, por favor, que me dê a pena mínima
Corra para fora da cidade no Grand Seminal, Seminal

Oh, mamãe, mamãe, mamãe
Eu atirei em um homem
Na estação central
Na frente de uma multidão
Oh, por quê, oh, por quê?
Oh, mamãe, mamãe, mamãe
Eu atirei em um homem
Na estação central

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domingo, 12 de junho de 2011

No dia dos namorados, o vídeo perfeito!!!!



Legião Urbana FOREVER!!!

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domingo, 5 de junho de 2011

EVELINE, de James Joyce, e o pecado da inércia



Eveline, conto de James Joyce escrito para a coletanea Dublinenses, retrata o fluxo de consciencia de uma mulher que, ao contrário de várias de nossas outras transgressoras, não está em pleno movimento. A protagonista, uma jovem de 19 anos que pondera o proprio futuro enquanto contempla a paisagem de uma soturna Dublin, difere de nossas outras heróinas porque não peca pelo excesso de coragem, mas pela falta dela. Contrastando juventude e inércia, Eveline é uma mulher ao mesmo tempo oprimida e dependente de uma realidade, muitas vezes, abusiva.

Joyce começa o conto criando uma atmosfera de introspecção e contemplação do futuro. A protagonista, de apenas 19 anos, pretende fugir de casa com o namorado, um marinheiro. O tempo da narrativa flutua entre a realidade da véspera da fuga de Eveline e o passado descrito através de suas memórias, mas essa oscilação faz parte do exercício de ponderação de Eveline: como fora sua vida até ali? como seria sua vida dali em diante? Tudo dependia da escolha que naquele momento Eveline tenta fazer. E o que se percebe é que essa decisão vem pautada de uma sensação constante nos dois tempos narrativos, como também nos dois caminhos que se desenhavam à frente da jovem Eveline: o medo.

O medo se manifesta nas duas partes do conto, atacando diretamente as duas opções de Eveline. Na verdade o medo é a mola propulsora das ações da protagonista, tanto no primeiro momento do conto, -  quando ela decide ir com o namorado - quanto no segundo momento, quando ela desiste da fuga. Na primeira parte, reavaliando sua vida sofrida, pautada pela relação de abuso emocional com o pai e um dos irmãos e principalmente, diante do final infeliz da mãe, que morrera triste e enlouquecida, Eveline parece enxergar a fuga com o namorado como uma fuga dos problemas familiares, das dificuldades de uma vida cinzenta, tão sem cor quanto a cidade de Dublin descrita por Joyce. Ela não considera por exemplo, se ama ou não o homem com quem planeja escapar. Em dado momento ela pensa: "A princípio a idéia de ter um namorado não passara de uma empolgação, mas logo começou a gostar dele de verdade". Apesar da tradução sugerir que Eveline se apaixonara por Frank, o texto original de Joyce ("and then she had begun to like him") sugere, a nosso ver de propósito, uma ambiguidade nos sentimentos da protagonista. A dupla conotação da palavra "like", que pode significar tanto amor-afeto-amizade quanto amor-paixão-desejo, não deixa claro se Eveline gosta de Frank, ou da possibilidade que este lhe oferece, ao querer começar uma vida com ela longe da realidade que a oprime.

De fato, a ambiguidade nos sentimentos de Eveline se corrobora na continuadade do texto, no qual Joyce constrói um Frank que é o oposto de todas as figuras masculinas que Eveline já conheceu. Frank gosta de arte, é atencioso, viril, generoso. E além de tudo é marinheiro, acostumado a desbravar outros mundos, outras realidades. Com uma experiência que Eveline não tem, sempre presa no mundo ceifador, sempre igual, com um irmão distante e um pai que a acha uma "irresponsável, sem juízo".  O fascínio pelo diferente é o que atrai Eveline para Frank. O medo de terminar louca como a mãe é o que determina a sua vontade de se libertar, e não o sentimento pelo namorado: "Fugir! Precisava fugir! Frank a salvaria. Daria uma vida a ela, talvez, quem sabe, até amor. Frank a tomaria nos braços, a abraçaria. Ele a salvaria". 

O medo da rotina é rapidamente suplantado pelo medo do desconhecido, quando Eveline se vê diante da escolha fatal. No momento de sua partida, o navio pronto para partir, o oceano imenso diante de seus olhos, e todo aquele mundo que ela jamais conheceu - e que podia ser muito bom ou muito ruim - contrasta vigorosamente com toda uma vida que ela se propunha a deixar para trás. Será que valia a pena? Como ela poderia saber se não seria tão infeliz na vida nova com Frank quanto era na vida que já levava? E afinal, o que era felicidade, aventurar-se ou conformar-se? Conquistar ou administrar? A dúvida de Eveline está mais em sua cabeça do que em seu coração. O fato dela ser capaz de racionalizar tudo isto na hora de partir já denota que, afinal, o amor não é a questão - Frank é uma opção, uma porta aberta. E quando ele toma sua mão e diz "Vem!", Eveline se dá conta de que não está pronta para passar por ela.

Quando o desconhecido deixa de atraí-la, Eveline passa a enxergar Frank com outros olhos: "Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria." Frank é aquele que a estava afastando do que ela era, ou pelo menos, do que estava acostumada a ser. Frank a destruiria. E de repente, sua expressão diz tudo. "Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstra­vam qualquer sinal de amor, saudade, ou gratidão." Corroborando assim, que a falta de uma identificação emocional com Frank, em contraste com a enorme bagagem emocional com o pai - ainda que permeada de abuso - foi determinante para a decisão de Eveline, de afinal, viver como sempre vivera. 

Talvez possamos dizer que o pecado de Eveline, que determina a sua inércia diante da vida, é a incapacidade de empreendimento, principalmente afetivo. Talvez a perturbada relação familiar tenha contribuido para sua inabilidade de se comprometer emocionalmente com o outro. Eveline não é uma pecadora como estamos habituados a observar. Não é transgressora,  e a sua intensidade não é arrebatadora. A sua frieza, incomum em alguém tão jovem, é que a faz, afinal, preferir a estabilidade -à custa de um sacrifício que, talvez, nem ela mesma perceba - ou, talvez, nem faça tanta diferença.



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sábado, 4 de junho de 2011

EVELINE (Final)



Lá estava ela no meio da multidão ondulante na estação de embarque de North Wall. Ele segurava-lhe a mão e ela sabia que estava se dirigindo a ela, repetindo alguma coisa a respeito das passagens. A estação estava repleta de soldados carregando malas marrons. Através dos largos portões do embarcadouro ela podia ver o vulto negro do navio, atracado ao longo do cais com as vigias iluminadas. Ela nada respondia. Sentia o rosto pálido e frio e, num labirinto de aflição, rezou pedindo a Deus que lhe guiasse, que lhe apontasse o caminho. O navio lançou dentro da névoa um silvo longo e triste. Se partisse, amanhã estaria no mar ao lado de Frank, navegando em direção a Buenos Aires. As passagens dos dois já estavam compradas. Seria possível voltar atrás depois de tudo o que ele fizera por ela? A aflição que sentia lhe provocava náuseas e ela continuava a mover os lábios rezando fervorosamente em silêncio.
Um sino repicou em seu coração. Deu-se conta de que ele lhe agarrara a mão:
— Vem!
Todos os mares do mundo agitavam-se dentro de seu coração. Ele a estava levando para esses mares: ele a afogaria. Agarrou-se com as duas mãos às grades de ferro.
— Vem!
Não! Não! Não! Era impossível. Suas mãos agarraram-se ao ferro em desespero. No meio dos mares ela deu um grito de angústia!
— Eveline! Evvy!
Ele correu para o outro Lado do cordão de isolamento e a chamou, para que o seguisse. Gritaram para que fosse em frente, mas ele continuava a chamá-la. Ela o encarava com o rosto pálido, passivo, como um animal indefeso. Seus olhos não demonstra­vam qualquer sinal de amor, saudade, ou gratidão.


E no próximo post, vamos discutir o pecado de Eveline... o que voce acha?


Fonte: JOYCE, James. Dublinenses. São Paulo: Siliciano, 1993. 2ª ed. Tradução de José Roberto O’Shea.


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sábado, 28 de maio de 2011

EVELINE (Parte 1)



Ela sentou-se à janela para ver a noite invadir a avenida. Encostou a cabeça na cortina e o odor de cretone empoeirado encheu-lhe as narinas. Sentia-se cansada.
Poucas pessoas por ali passavam. O sujeito que morava no fim da rua passou a caminho de casa; ela ouviu seus passos estalando na calçada de concreto e em seguida rangendo sobre o caminho coberto com cascalho em frente às casas vermelhas. Tempos atrás havia ali um terreno baldio onde eles brincavam toda noite com os filhos dos vizinhos. Mais tarde um indivíduo de Belfast com­prara o terreno e construíra casas — mas não eram casas pequenas e escuras como aquelas em que eles moravam; eram casas vistosas de tijolo e com telhados luzidios. As crianças que moravam na avenida costumavam reunir-se para brincar naquele terreno — crianças das famílias Devine, Water, Dunns, o pequeno Keogh, que era manco, ela e seus irmãos e irmãs. Ernest, no entanto, nunca brincava: já estava crescido. O pai dela muitas vezes enxotava-os do terreno com sua bengala de madeira preta; mas geralmente o pequeno Keogh montava guarda e dava o alarme quando avistava o homem se aproximando. Apesar de tudo consideravam-se bas­tante felizes naquela época. Seu pai ainda não estava tão mal e, além disso, a mãe ainda estava viva. Isso tudo acontecera há muito tempo; ela, seus irmãos e irmãs tinham crescido; a mãe estava morta. Tizzie Dunn também morrera e a família Water havia retornado à Inglaterra. Tudo se modifica. Agora era a vez dela ir embora, como os outros, ia sair de casa.
Casa! Correu os olhos pela sala, revendo todos os objetos conhecidos, por ela espanados uma vez por semana há tantos anos, e perguntou-se de onde vinha tanta poeira. Talvez jamais voltasse a ver aqueles objetos conhecidos dos quais jamais imagi­nou separar-se um dia. Contudo, durante todos aqueles anos ela nunca viera a saber o nome do padre cuja fotografia amarelada se encontrava pendurada na parede acima da pianola quebrada, ao lado da gravura em louvor à beata Margarida Maria Alacoque. O padre fora colega de escola do pai dela. Sempre que mostrava a foto a uma visita ele repetia mecanicamente a mesma frase:
— Ele está em Melbourne agora.
Concordado em partir, em deixar a própria casa. Teria sido uma decisão sensata? Tentou analisar cada lado da questão. Em casa ao menos tinha um teto e comida; vivia entre pessoas que conhecia desde criança. É bem verdade que o trabalho era pesado, tanto em casa quanto no emprego. O que diriam na loja quando descobrissem que ela fugira de casa com um sujeito qualquer? Que era uma idiota, talvez; e sua vaga seria preenchida através de um anúncio no jornal. Miss Gavan ficaria bem satisfeita. Sempre implicara com ela, especialmente quando havia gente em volta.
— Miss Hill, não está vendo estas senhoras esperando?
— Mexa-se, Miss Hill, por favor!
Ela não derramaria muitas lágrimas por deixar a loja.
Em seu novo lar, num país distante e desconhecido, tudo seria diferente. Estaria casada — ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada como a mãe o fora. Mesmo agora, que estava com mais de dezenove anos, sentia-se às vezes amea­çada pela violência do pai. Sabia que tinha sido isso a causa daquelas palpitações. Quando eram crianças ele nunca havia batido nela, conforme batia em Harry e em Ernest, porque ela era menina; mas ultimamente passara a ameaçá-la e a dizer o que faria com ela não fosse a lembrança da mãe falecida. E agora não havia mais ninguém para protegê-la. Ernest estava morto e Harry, que trabalhava com decoração de igrejas, estava quase sempre ausen­te, viajando pelo sul do país. Além do mais, o inevitável bate-boca sobre dinheiro todo sábado à noite começava a deixá-la exausta, mais do que qualquer outra coisa. Ela sempre entregava o salário inteiro — sete shillings — e Harry sempre enviava o que podia mas o problema era conseguir arrancar dinheiro do pai. Ele dizia que ela desperdiçava dinheiro, que não tinha juízo, que não lhe daria o seu dinheiro suado para ser jogado fora, e dizia muito mais, pois geralmente ficava em péssimo estado nas noites de sábado. Contudo, acabava dando-lhe o dinheiro e perguntava-lhe se ia ou não comprar as provisões para o jantar de domingo. Então ela era obrigada a sair correndo para o mercado, segurando firme a bolsa preta de couro enquanto abria caminho na multidão com os cotovelos, e voltava para casa tarde, carregada de pacotes. Trabalhava pesado para manter a casa em ordem e garantir às duas crianças que haviam ficado sob os seus cuidados a oportunidade de freqüentar a escola devidamente alimentadas. O traba­lho era pesado — uma vida difícil — mas agora que estava prestes a deixar tudo para trás não considerava a vida que levava de todo indesejável.
Estava prestes a começar a explorar uma outra vida ao lado de Frank. Frank era um homem bom, viril, amoroso. Concordara em fugir com ele na barca noturna para tornar-se sua esposa e viver ao seu lado em Buenos Aires, onde ele possuía uma casa à espera dela. Com que nitidez se recordava da primeira vez em que o vira! Ele alugava um quarto numa casa na rua principal, que ela costu­mava freqüentar. Tudo parecia ter acontecido há apenas algumas semanas: ele parado no portão, com o boné no cocuruto da cabeça e o cabelo despenteado caído sobre a testa bronzeada. Então começaram a se conhecer melhor. Ele costumava esperá-la todas as noites à porta da loja para acompanhá-la até em casa. Levou-a para assistir The bohemian girl e ela ficou radiante por sentar-se ao lado dele num setor do teatro onde não costumava ficar. Ele adorava música e tinha uma voz razoável. As pessoas notavam que os dois estavam namorando e, sempre que ele cantava a canção sobre a jovem que amava o marinheiro, ela sentia um agradável acanhamento. Ele gostava de chamá-la de Poppens, carinhosamente. A princípio a idéia de ter um namorado não passara de uma empolgação, mas logo começou a gostar dele de verdade. Frank contara-lhe histórias de países distantes. Começa­ra a vida como taifeiro ganhando uma libra por mês a bordo de um navio da Allan Line com destino ao Canadá. Disse-lhe tam­bém os nomes de todos os navios em que viajara bem como de diversas companhias de navegação. Velejara pelo estreito de Ma­galhães e contara-lhe histórias a respeito dos terríveis habitantes da Patagônia. Estabelecera-se em Buenos Aires, dizia ele, e voltara à velha terra natal apenas para passar férias. O pai dela, obviamente, descobrira o namoro e a proibira de sequer dirigir-lhe a palavra.
— Conheço bem esses marinheiros — ele dizia.
Um dia o pai discutira com Frank e a partir de então ela fora obrigada a encontrar-se com o namorado às escondidas.
A noite aprofundava-se na avenida. O reflexo branco de duas cartas que tinha ao colo se tornava indistinto. Uma era para Harry; a outra, para o pai. Ernest era seu irmão preferido mas também gostava de Harry. O pai estava ficando velho, dava para notar; sentiria a falta dela. Às vezes, ele sabia ser agradável. Há pouco tempo, quando ficara acamada um dia inteiro, ele lera para ela um conto de terror e preparara-lhe umas torradas. Em outra ocasião, quando a mãe ainda estava viva, fizeram juntos um piquenique em Hill of Howth. Lembrava-se do pai colocando o chapéu da mulher para divertir as crianças.
Estava chegando a hora mas ela continuava sentada à janela, com a cabeça encostada na cortina, aspirando o cheiro de cretone empoeirado. Lá embaixo na avenida ouvia um realejo tocando. Conhecia a canção. Estranho que o realejo surgisse ali naquela noite, como que para lembrá-la da promessa que fizera à mãe, de preservar o lar unido enquanto pudesse. Lembrou-se da noite em que a mãe morrera; era como se estivesse novamente no quarto fechado e escuro do outro lado do hall e lá fora ouvisse a melan­cólica canção italiana. Na ocasião, deram seis pence ao tocador de realejo e pediram-lhe que fosse embora. Lembrou-se do pai vol­tando ao quarto da enferma com um andar emproado, excla­mando:
— Italianos desgraçados! O que eles querem aqui?
Enquanto divagava, a visão deplorável da vida que a mãe levara tocou-a no fundo da alma — uma vida de sacrifícios banais culminando em loucura. Estremeceu quando voltou a ouvir a voz da mãe repetindo com uma desvairada insistência:
—Derevaun Seraun! Derevaun Seraun!
Levantou-se num sobressalto de pavor. Fugir! Precisava fugir! Frank a salvaria. Daria uma vida a ela, talvez, quem sabe, até amor. E ela queria viver. Por que haveria de ser infeliz? Tinha direito à felicidade. Frank a tomaria nos braços, a abraçaria. Ele a salvaria.

(To be continued...)

Então como voces acham que termina o conto? A parte final com uma breve análise depois que voces pensarem bem sobre a vida dessa mulher que peca...ou seja, no próximo post.

Fonte: JOYCE, James. Dublinenses. São Paulo: Siliciano, 1993. 2ª ed. Tradução de José Roberto                           O’Shea.

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