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PECADORES CONFESSOS...

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sábado, 17 de julho de 2010

LUCIA

Mulher escrevendo carta (LINDO)
Quando eu tinha doze anos, meu pai me deixou andar de ônibus sozinha. Era uma distância pequena, mas a liberdade era grande. A maior que eu já tinha conseguido em casa. Nunca tinha me sentido tão dona de mim até então. Aos doze, independência era tudo e eu pensava – porque, na boa, eu não era mais criança, né?
Eu até já falava palavrão… desde os dez, na verdade. Mas nunca dentro de casa. Papai achava feio o baixo calão em boca de menina. Eu nunca dei a mínima, minhas amigas todas falavam. E eu nunca fui de levar desaforo para casa – assim, se você leva um coice, não vai mandar educadamente a pessoa lamber sabão. Eu, pelo menos, sempre preferi, com toda a educação, mandar a pessoa à merda…sabe, com uma enorme exclamação no final. É mais poderoso, é um recado que impõe respeito.
Mas eu falava do ônibus. Eu ia começar num curso de inglês às segundas e quartas. Então, quando chegou o domingo, nem dormi direito. Até escolhi a roupa que ia usar no dia seguinte, coisa que nunca faço. Nunca me antecipo, até hoje sou assim. Mas naquele dia estava ansiosa, apressada demais. Estranho...odiei me precipitar por toda a minha vida...mas nunca aos doze. Naquela idade tudo parecia estar tarde demais ou no máximo, mais do que na hora.
Escolhi a roupa que eu pensava combinar com minha grande estréia. Calça, blusa colando, saltos e tal. Impor respeito e chamar a atenção – não é o sonho de toda mulher? E sim, naquela véspera de inicio de semana, de liberdade, de independência, de vida, eu me sentia uma mulher feita. Crescida, que podia andar de ônibus sozinha, sem ninguém me seguindo por todo canto, indo me buscar. Eu pensava, dá um tempo, né? Ridículo meu pai me esperando na porta da escola todo dia! Todo mundo olhando, rindo de mim. Ninguém merece.
Mas aquilo, eu pensava, ia acabar.
Todos iam me ver como eu era: adulta. Eu estava me achando mesmo. Até me deitei cedo, para ver se o tempo passava mais rápido. Nunca torci tanto para segunda-feira chegar e eu ir logo para escola, para depois ir direto para o curso. SO-ZI-NHA.
Então, finalmente, o dia chegou. A mal-fadada, famigerada, maravilhosa, especial segunda-feira. Um dia que eu sabia que nunca iria esquecer. E não esqueci mesmo...
Para começar, perdi tempo demais na escola, me gabando com as meninas que eu ia ter que sair no horário para pegar o ônibus. E, lógico, perdi o ônibus. Levou quase vinte minutos para vir o outro. Resultado: cheguei no curso quando a aula já ia para metade. E ainda tive de andar um pouco mais depressa até o curso, porque o ponto onde eu tinha de saltar não era assim tão perto como era ir de carro. Resultado: cheguei suada, desarrumada, com a cara mais esbaforida do planeta, os olhos arregaladíssimos e pior, sem pintar! Acredita que eu tinha esquecido de passar o lápis?
Quando a aula acabou, eu fiquei na porta do curso gastando garganta, para que elas percebessem que eu iria sozinha para casa. Como eu previra, minhas novas amigas ficaram verdes. Mas quando elas foram embora, descobri que o ponto do meu ônibus não era na porta do curso como a carona do papai. Eu tinha que atravessar a rua e andar mais alguns metros para frente. Quando cheguei no ponto, havia um ônibus parado. Entrei.
Já estava sonhando como eu ia chegar em casa absoluta, contando para o meu pai como eu me comportei, me virei, andei, entrei e saí. Eu pensava que era um gênio mesmo, uma adolescente precoce, independente e sensacional. Sorria, pensando no orgulho que meu pai teria de mim. Então acordei de repente, e olhei pela janela.
Não reconheci uma casa, uma arvore, nem uma mosca sequer, num raio de dez metros. Percebi umas curvas enquanto sonhava mas, quando pensei melhor, entendi que havia mesmo curvas demais. Eu não morava tão longe assim.
Tinha pego o ônibus errado. Era a mesma cor, mas outra linha. Não era o ônibus que levava para minha casa. Pela primeira vez, senti um frio na barriga. Pior, senti que tinha feito uma merda enorme. Estava num lugar que eu não tinha a menor idéia e também não sabia como voltar. Pior, se eu conseguisse chegar em casa até o Natal, meu pai nunca, note bem, NUN-CA, iria me deixar sair sozinha de novo. Merda, merda, que MERDA...era só o que me passava pela cabeça.
Saltei do ônibus, num bairro qualquer. Já estava escurecendo, e eu estava perdida, de tudo: não sabia onde estava nem porque eu estava ali, muito menos como eu ia fazer o caminho de volta. E tudo por absoluta falta de atenção. Me achei o máximo, apareci para todas as minhas amigas e, no fim, cadê elas? Naquele buraco comigo é que não estavam, pensava. Tinha vontade de chorar, mas não podia. Eu pensava, sou adulta, sei o que eu estou fazendo. Posso resolver isso quando eu quiser.
Mas, depois de meia-hora naquele fim de mundo esperando um carro, um ônibus, um qualquer coisa com rodas – e NADA, eu chutei o balde. Finalmente pensei: não resolvo coisa nenhuma! Eu não sou adulta coisa nenhuma! Eu estou só, mas que merda é estar só. O que que eu vou fazer?
Só tinha dinheiro para o ônibus, táxi naquele momento era caro demais pra mim e, vamos combinar, naquele buraco não ia passar táxi nenhum mesmo. Pior, o ônibus que eu peguei não passava de volta nunca e pior ainda, tinha uma criatura mal-encarada, velha, banguela e do sexo masculino parada do outro lado da rua, me olhando. Resumindo: atalho, facilidade, nem pensar. Deixei tudo isso em casa, e mais: comodidade, conforto, bons conselhos, experiência. E pior, meu pai. Deixei meu pai em casa.
De repente, uma música. Conhecia aquele som de algum lugar. Parecia vir de dentro de mim. Algum som que eu gostava muito e que vibrava...na minha bolsa! Claro, mas que idiota!
Só lembrei do celular quando ele estava tocando. Era meu pai, claro. Fazia muito mais de hora que eu deveria estar em casa. E ele já tinha ligado varias vezes e para todas as minhas amigas. Ótimo, pensei, agora o mundo inteiro sabe que eu estou perdida por aí. E por que não atendi antes? Estava sonhando, pai. Quer dizer, pensando, desesperando, chorando. Quer dizer, eu ia te ligar agora mesmo, você leu meu pensamento?
Expliquei tudo e meu pai pediu para eu entrar em algum lugar movimentado. Entrei no único lugar com mais de uma pessoa – na verdade duas, além do cara no balcão. Ele pediu para eu perguntar onde eu estava para alguém. Pedi informação ao “barman” e passei tudo pro meu pai. Então ele disse que eu esperasse lá que ele iria me buscar.
Nunca fui tão independente. Nunca escolhi tanto como passar meu tempo. Nunca percorri distancias tão grandes, nem entrei em tantos caminhos – errados. Nunca me senti tão sozinha. Esquisita a liberdade, ás vezes. Acho que descobri que nada nunca é simples.
Tudo por causa de uma mal-fadada, fantástica, reveladora, assustadora segunda-feira. E o melhor é que, depois de tudo, eu acabei voltando para casa na carona do papai. Que mico.
Mas tudo bem. Como eu disse, aprendi muita coisa. Hoje, com treze anos, estou muito mais madura.

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domingo, 20 de junho de 2010

AS PECADORAS DE NELSON RODRIGUES (II)

nelsonrod

VESTIDO DE NOIVA – ALAÍDE, LUCIA, MME. CLESSI


Parecia ser a obsessão de Nelson Rodrigues procurar o exagero, a monstruosidade da natureza humana nas atitudes mais corriqueiras. O lado obscuro da trivialidade. Ele mesmo disse que consagrar o óbvio foi o grande legado da sua obra. E de fato, com o obvio ele expõe também a mesquinhez, o grotesco, o falso, e – porque não? – o atípico. E esta miscelanea de possibilidades é muito latente, sobretudo na construção rodriguiana dos personagens femininos.

Afinal, há algo mais clichê do que duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem? Ou ainda, mais folhetinesco do que duas irmãs que se odeiam, porque amam o mesmo homem? Este é o argumento inicial de Vestido de Noiva (1943), segunda incursão de Nelson Rodrigues na dramaturgia e considerada, até hoje, o ponto zero do teatro moderno brasileiro. Vestido de Noiva é o Hamlet  de Nelson Rodrigues: em tragicidade, em complexidade, em favoritismo. É de longe, a peça preferida da crítica. E é, basicamente, um drama sobre o amor e a mulher.

Há três personagens femininas fundamentais na peça: Alaíde, a noiva de fato; Lúcia, a noiva de direito; e Clessi, a noiva do asfalto. Alaíde, jovem, impulsiva e voluntariosa, rouba o namorado da irmã Lúcia e casa-se com ele; Lúcia jura matá-la e tomar-lhe de volta o marido. Clessi é uma dama da noite, sofisticada e linda, que se apaixona por um garoto de dezessete anos. E aonde isso nos leva? Na cartilha de Rodrigues, à tragédia total.

Mas não pense que tudo é tão simples. A trama é desenvolvida de forma anacronica – ou seja, começa pelo fim. E começa antes mesmo do levantar das cortinas, com sons de um atropelamento. O cenário não ajuda a descomplicar o enredo. Vestido de Noiva introduziu no teatro brasileiro o que poderíamos chamar de um palco 3D – são três planos em desenvolvimento: realidade, alucinação e memória. O foco em cada um dos planos se alterna durante os três atos, com truques de iluminação. E é nesse estilo back and forth* que a historia dessas três mulheres nos é apresentada.

O principal entrelaçamento no destino destas três mulheres é a morte. O atropelamento que se ouve no inicio do drama é o de Alaíde. O plano da realidade é, essencialmente, a cirurgia a que Alaíde é submetida. O estado inconsciente de Alaíde desencadeia os outros dois planos. No plano da alucinação, Alaíde procura por Mme. Clessi, uma prostituta morta no inicio do século XX, para cuja casa a família de Alaíde se muda. Alaíde leu o seu diário, e se sentiu profundamente atraída pela personalidade sedutora daquela mulher, de tal forma que, quando está entre a vida e a morte, a sua memoria cronológica se mistura com as passagens do diário de Mme. Clessi. E é a sua conversa imaginária com Mme. Clessi que estimula a sua memoria e revela todos os acontecimentos que culminaram no seu atropelamento. Há sempre no ar a idéia de que Lucia possa ter cometido ou influenciado o acidente de Alaíde.

E o que mais une Alaíde, Lúcia e Clessi?

Podemos dizer – e esta é uma característica que encontraremos em muitas mulheres rodriguianas – que essas três mulheres possuem um grau de paixão desmedida – por si mesmas e pelo objeto de seus desejos – que é a base do seu pathos, a essencia da sua tragédia. Alaíde rouba o namorado de Lucia, consegue casar com ele, mas vive assombrada com a possibilidade de ser traida pela irmã e pior, ser assassinada por ela. A relação entre Alaíde e a finada Mme. Clessi sugere uma propensão ao pecado, uma crescente fascinação pelo carnal, pelo mistério. No seu estado de quase-morte, Alaíde confunde a historia de Mme. Clessi com a sua propria, coloca-se no lugar dela. É interessante notar que ambas sofrem uma morte violenta: Clessi é apunhalada no rosto pelo namorado adolescente; Alaíde sofre um atropelamento em circunstancias não esclarecidas. Ambas morrem desfiguradas: Clessi com um talho num rosto antes impecável; e Alaíde com os ossos da faces afundados. Desprovidas, portanto, da beleza, e do corpo.

Lucia, por outro lado, professa-se apaixonada irremediavelmente por Pedro, marido de Alaíde. O seu total despudor em dizê-lo se une a consciencia de que Pedro não presta, nem é digno de confiança. Depois do casamento, atiça o cunhado sem jamais consumar o adultério. Diz a ele que só se entregará quando ele se casar com ela, induzindo-o a planejar o assassinato da esposa. Depois da morte de Alaíde, Lucia se acovarda, impressionada com a promessa da irmã de que mesmo morta, não a deixaria casar com Pedro. É quando fica no ar a cumplicidade de Lucia no acidente que matou Alaíde. Lucia parece perplexa quando Pedro confessa que já tinha decidido matar a esposa, mas ele a acusa de planejar tudo junto com ele. “Só não pensamos no atropelamento”, ele diz (ato III). Acidente ou crime, Alaíde morre de forma conveniente, deixando o caminho livre para Pedro e Lucia.

Há ainda um ultimo ponto que notadamente une as tres mulheres: o vestido de noiva. Ele pertence a Alaíde, no inicio do primeiro ato; e à Lucia no final do terceiro ato. No desenvolvimento da trama, revela-se que Clessi foi sepultada vestida de noiva. E o que representa o vestido de noiva neste contexto criado por Rodrigues?

O vestido é a convenção, a pureza, o espírito dessas mulheres. É o sonho da consumação de um desejo, ou de um sentimento. O vestido pelo qual Alaíde traiu Lucia. O vestido pelo qual Lucia pensou em matar Alaíde. O vestido que confere a Clessi uma dignidade que ela não experimentou em vida – e que levou o unico amor de sua vida a assassiná-la. De certa maneira, enterrá-la com o vestido de noiva representa a consumação desse amor, uma cerimônia de casamento às avessas. O vestido representa a pureza do sentimento de Clessi pelo assassino, uma união que só podia se consumar na morte.

É importante notar que o caminho até a inocencia representada pelo vestido é muito tortuoso para essas mulheres. É a ironia rodriguiana que faz com que a pureza de um vestido de noiva contraste com a monstruosidade de uma traição, de um assassinato, e de um acidente mal-explicado. É o branco invariavelmente manchado de sangue. É a marcha nupcial se entrelaçando com a marcha fúnebre, exatamente como na ultima cena da peça.

Nelson Rodrigues constroi em Vestido de Noiva a sua obra-prima. Um texto intricado, complexo, em cima de um tema de folhetim. Um entrelaçamento de tres cenarios suspensos, iluminação acurada e sons incidentais. E um poderoso imbricamento entre três mulheres fortes, apaixonadas e por isso mesmo, trágicas, bem como assustadoramente proximas da nossa própria realidade.


* back and forth – para frente e para trás

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