PECADORES CONFESSOS...

sábado, 22 de outubro de 2011

As muitas faces de Grace Marks em ALIAS GRACE


                                                                                                                                                                 


O notório caso da mulher acusada de cúmplice no assassinato do patrão e da amante, no Canadá do sec. XIX, ganha contornos dramáticos na narrativa ferina da escritora canadense Margaret Atwood. Alias Grace (1996) conta a historia da copeira Grace Marks, condenada à prisão perpétua aos 16 anos pelas mortes violentas do patrão Thomas Kinnear - por quem seria apaixonada - e a amante grávida deste, Nancy Montgomery, que também trabalhava na casa.  O caso real e documentado nos arquivos do judiciario canadense é apropriado por Atwood numa versão instigante, que reporta aos esterótipos da personalidade feminina e também questiona a relação entre consciencia e caráter.

O termo Alias do título refere-se à sigla A.L.I.A.S (do inglês ALso Identified AS - "também conhecido/a por"), o que sugere imediatamente alguma espécie de fragmentação da personagem principal. De fato, a protagonista Grace Marks - retratada já na idade adulta após quase 30 anos de pena cumpridos - é uma mulher com uma visão de mundo além do cárcere, e com uma obscura capacidade de dissimulação - cujo limite nunca se sabe ao certo. Na trama elaborada por Atwood, Grace alega não se lembrar dos crimes e é submetida a uma série de entrevistas com o Dr. Simon Jordan, um jovem psiquiatra que pretende usar suas conclusões sobre a mente da notória assassina como trampolim para suas ambições comerciais. No meio do caminho, porém, o Dr. Jordan começa a questionar a real culpabilidade de Grace no crime. E essa desconfiança é o que se torna a grande pergunta do livro.

Dr. Jordan passa a ter sentimentos conflituosos por Grace. Ao mesmo tempo que se sente atraído por ela, procura não perder a sua objetividade profissional. O conflito de Jordan reflete, num certo sentido, a dificuldade do homem de lidar com aquilo que acredita ser a personalidade feminina. A relação do Dr Jordan com as mulheres é conturbada: além da atração pela criminosa, mantém um romance com uma mulher casada (Mrs Humphreys) e cogita casar com uma moça de boa família (Lydia). É interessante, ainda, o relacionamento de Jordan com a mãe, Constance: uma personalidade dominadora, objetiva. Durante todo o tempo, Jordan luta para manter a postura centrada e magnânima que se espera de um homem, sobretudo na sua posição - um homem dedicado à ciência. Mas o seu equilíbrio aparente esconde a serie de perguntas que permeiam o seu pensamento já fragmentado, de certa forma influenciado pelas muitas variações na idealização do feminino, que passam também pela excessiva preocupação com a aparência e as convenções sociais da época.

Em sua teia de acontecimentos, Atwood se encarrega de ironizar esses esterótipos atribuindo a alguns de seus personagens femininos uma tendência ao sarcasmo, à manipulação e até a violência - de forma que o proeminente médico nunca tenha um entendimento total nem das mulheres, nem de si mesmo. Assim, a moça de família Lydia casa-se com o pároco da cidade para encobrir uma gravidez cuja paternidade não se pode definir; a adúltera Mrs Humphreys tenta convencer Jordan a assassinar seu marido quando descobre que ele retornará a cidade; e as sessões de terapia de Grace Marks são uma faca de dois gumes - nunca se consegue determinar quem está manipulando quem. Embora Grace pareça se abrir com o médico o bastante para lhe contar suas memórias e traumas, Atwood deixa sempre indefinida a veracidade dessas narrações. Porque o caso para Grace é conseguir sair da prisão, há sempre a suspeita de ela estar absorvendo a ideia que os homens fazem da mulher a seu favor: no inicio da trama, ela se apresenta de forma inarticulada, simplória, inculta - o que pelo contraste entre discurso e atitude sabemos não ser verdade - porque isto é o que esperam dela, e este é o principal argumento a seu favor até então: que sendo muito jovem e sem discernimento nem maneiras, Grace teria sido mais uma vítima do jovem que efetivamente cometeu o crime - tendo sofrido, inclusive, abusos sexuais.

Após a chegada do Dr. Jordan, Grace passa a observar como o médico conduz as entrevistas e o que pretende com elas. Na verdade, Grace deseja determinar se uma explicação científica para o seu comportamento seria um argumento mais favorável do que a simples valorização do esterótipo social. Quando percebe o interesse de Jordan pelo seu passado, sua narração vem intermediada de fatores traumáticos, estranhos. A história do relacionamento entre Grace e a amiga de infância Mary Whitney, por exemplo, vem cercada de uma atmosfera fantástica, e também perturbadora. A morte trágica de Mary Whitney  (hemorragia decorrente de um aborto provocado e mal-sucedido) e o seu consequente aprisionamento espiritual - literal e metafórico - fomenta de uma única vez a teoria da experiencia traumática como razão de distúrbios emocionais e de personalidade, como defende a ciência; e a possessão espiritual como causa de um comportamento atípico, como acreditam os religiosos. Em ambos os casos, Grace não seria ela mesma quando participou dos assassinatos. Seria, conforme o título do livro, um alias, uma versão deturpada do seu eu. No entanto, quanto disso corresponde a verdade, se tudo se baseia na versão narrada pela própria Grace?

Como último recurso, Grace "encarna" Mary Whitney durante uma falsa sessão de regressão por hipnose, conduzida por um charlatão e amigo de infancia. Possessão ou multipla personalidade, tudo depende do olhar de quem observa.  O caso é que o fato de Grace ter fingido uma vez não significa que ela tenha fingido todas as vezes. O objetivo de Atwood é justamente quebrar a ideia de que existe um padrão de comportamento tipicamente feminino. Na maioria da vezes, a mulher, como qualquer outro ser humano, reage aos acontecimentos, adapta-se, e assim sobrevive. É a velha lei da selva. O pecado ou a consciência dele não seria caracteristico de gênero. Será que num ambiente social em que pudesse efetivamente ser ouvida ou ter a sua estoria levada em consideração, Grace teria, na melhor das hipóteses, manipulado a verdade? E qual será, efetivamente, a verdade?

Como grande romancista, Atwood não responde a pergunta. Ela deixa a resposta à interpretação do leitor. Depois que lemos sobre a farsa da "encarnação" de Mary Whitney, o Dr Jordan é obrigado a deixar a cidade (por conta da pressão de sua amante para que ele mate o seu marido), provocando assim uma passagem de tempo em que através da transcrição de várias correspondencias (inclusive da própria Grace) tomamos conhecimento do destino dos personagens. Descobrimos, por exemplo, sobre o apressado casamento de Lydia e o pároco, que advoga incansavelmente a favor do indulto à pena de Grace. Também sabemos que Jordan fere-se gravemente durante a guerra de secessão Norte-Americana, afetando principalmente a sua memória (excelente ironia de Atwood), e que pouco antes teria se comprometido em noivado com uma moça aprovada pela mãe; e que Mrs Humphreys, diante da obssessão não consumada pelo jovem médico, acaba aprisionada no casamento que não tem coragem de desfazer.

Num capítulo final enigmático, entitulado "Árvore do Paraíso", Grace escreve uma longa carta à Jordan contando que finalmente teve sua pena perdoada às vésperas de cumprir 30 anos de cárcere. E que mesmo diante de um mundo totalmente desconhecido, sua situação se tornara confortável depois de casar-se nos EUA com um antigo empregado da casa do Sr Kinnear, agora com uma razoavel condição financeira. Grace, mais uma vez, deixa claro sua total capacidade de adaptação à situação que se apresenta a sua frente; após confessar ter pensado em se prostituir para ganhar a vida fora da prisão, Grace admite não ter visto razões para decepcionar o atormentado ex-colega, que depôs contra ela no julgamento e estava  tão ansioso para ajudá-la quanto atraído pelo fetiche da pecadora injustiçada. 

A imagem final do romance é a da protagonista sentada na varanda de sua casa, bordando o que chama de "Arvore do Paraíso", que consiste na sua propria versão da Árvore do Conhecimento do livro gênesis, onde são desenhados tres triângulos coloridos: um para Mary Whitney; um para Nancy Montgomery e um para ela mesma. A ideia de reunir as três mulheres num único desenho tem profundo apelo psicológico, reforçado pela última fala de Grace: "e assim estaremos finalmente reunidas". Dessa forma, temos a reconciliação de três pessoas? três almas? três personalidades assumidas por um único eu? Ou nas palavras da autora, três Alias?

E afinal, Grace Marks é culpada ou inocente? A resposta para esta dúvida depende de uma re-interpretação dos conceitos de "verdade" e "mentira" e é a grande sacada de Atwood para prender a atenção do leitor numa história intrigante e surpreendente.




P.S.: o final de Grace Marks no romance vem quase que integralmente da imaginação de Margaret Atwood, tendo em vista que a Grace Marks histórica desapareceu pouco depois de se mudar para os EUA. O seu casamento é aludido em algumas narrativas da história de Marks, mas nunca pode ser inteiramente confirmado. O destino da verdadeira Grace, assim como a sua real participação no crime que a condenou, é até hoje um mistério.







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Um comentário:

mundo da lu disse...

oi Claudinha, voltei a escrever no blog, queria que vc soubesse e passasse por lá. beijos, lu.

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